sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Orangotango Inverso

– Devo admitir que eu estava impressionada… – disse Valquíria, sentada na minha cadeira e folheando um caderno amarelo de páginas em branco – Até semana passada, é claro.

Tinha sido um dia cansativo, com mais horas de ônibus do que há horas num dia. Compromissos adiados, reuniões frustrantes e desencontros não ajudaram no meu humor. Tinha chegado em casa pronto para desabar na cama e pôr um fim naquele dia, mas ao abrir a porta do meu quarto encontrei Valquíria sentada à frente do meu computador. A cara de Joelma, a pose firme e implacável de bibliotecária severa. De repente, peguei-me desejando que ainda estivesse em um ônibus lotado.

– Vai embora. – foi tudo o que consegui dizer, juntando toda a minha simpatia restante. Acompanhei a frase com um alegre dedo médio em riste.

– Que deselegante… – disse ela, com um muxoxo, e colocando o caderno de lado – Você estava indo tão bem, o que aconteceu?

– Do que você está falando?

Joguei minha mochila em outra cadeira e desabei na cama, sentindo-me incapaz de jamais levantar novamente.

– Do blog, obviamente! Atualização periódica, qualidade dos textos na média, temas variados… E, de repente, já era! A Sagrada Ordem dos Blogs está muito furiosa!

– Diga para a Sagrada Ordem dos Blogs que eu não me importo! Tenho mais coisas para fazer!

– A Sagrada Ordem dos Blogs está mais interessada em confiscar o caderno amarelo. – ela anunciou. Como se estivesse dizendo “o cá está pronto”.

Levantei-me de cama, num pulo. Não sei de onde tirei forças.

– O quê?

– Você tem um caderno amarelo, onde exercita a escrita e cria os textos antes de postá-los. Nós sabemos. Vim aqui pra isso. Achei dois cadernos amarelos. Mas não tinha uma página de texto neles.

– Eles são os próximos. O caderno original está quase acabando.

– Então me entregue.

– Mas não está pronto!

Ela cruzou os braços, ergueu uma sobrancelha, em tom ameaçador.

– Onde está o caderno? A Sagrada Ordem dos Blogs quer manter a continuidade do blog.

– Pra quê? – eu gritei, histérico – Eu que escrevi os textos! Eu que todas as semanas posto! Quase ninguém lê, quase ninguém comenta! Ninguém se importa!

– A Sagrada Ordem dos Blogs se importa.

– Por quê?

Ela ficou calada.

– Por quê? – eu insisti.

Ela suspirou, balançou a cabeça e disse:

– Os textos já foram escritos, mas precisam ser postados. Se você não fizer isso, a Ordem o fará. Ao não postar o texto, você está impedindo que textos derivados surjam. E isso… bom, isso não é bom para a Ordem.

– Eu não escrevi mais textos! Tudo o que eu já escrevi, eu postei! – levantei-me e tirei o caderno da mochila, entreguei à Valquíria – Olha, não tem motivo pra confiscar o caderno!

Ela começou a folheá-lo. Pequenos sinais de reconhecimento surgiam em seu rosto a cada página virada. Foi aí que entendi, bastante surpreso, que ela acompanhava o meu blog. Uma coisa que jamais cruzara minha mente antes. E, então, o semblante de reconhecimento foi substituído por um de confusão.

– Mas… mas… outros textos foram escritos! Eu os vi sendo escritos!

– Desde quando você fica de stalker vendo quando eu escrevo?

– Não! Não você… foi-- –  E ela se interrompeu.

Quem está escrevendo os meus textos, porra? –  gritei, batendo na mesa.

–  Não use esse tom comigo! Sou uma agente especial da Sagrada Ordem dos Blogs! –  ela se levantou, em desafio, depois voltou a folhear as páginas –  Mas… já que algo está definitivamente errado, acho que você vai ter que ficar sabendo mesmo…

***

 

Era uma sala assustadoramente branca. O ar cheirava a esterilidade. Um hospital elevado à enésima potência, à primeira vista, não fossem os soldados portando AK-47s ao redor da caixa de vidro. Todo o resto da equipe usava branco. Eu e Valquíria destoávamos daquele hambiente. Ela, com seus tons terra. Eu, de azul (e tênis vermelho). O Orangotango destoava também, mas era claro que todo aquele ambiente tinha sido criado em função dele.

–  Este é Wagner. –  disse Valquíria, apresentando-me para um dos homens de branco. Lembro que ele tinha olhos pequenos muito juntos e um cabelo preto penteado para o lado. Mas não prestei muita atenção. Meus olhos não conseguiam se desviar muito do orangotango escrevendo calmamente no centro da caixa de vidro. Agia com naturalidade, como se estivesse escrevendo desde o início do Universo. Ele estava escrevendo desde o início do Universo –  Ele é o coordenador da Central de Mantenimento e Supervisão do Orangotango.

–  Então… Esse é… O Orangotango? –  disse eu, apertando a mão de Wagner.

–  Exato. –  disse ele, com orgulho no olhar.

–  Então… quer dizer que o deus que Sekisusai venera está… do lado de vocês?

–  Sim. –  disse Valquíria –  Sekisusai é apenas um louco. Você devia esquecê-lo.

Eles me levaram até a caixa de vidro. Apenas eu e Wagner entramos. O ar dentro da caixa de vidro parecia ainda mais puro que do lado de fora. Colocaram uma cadeira para que eu me sentasse à frente do Orangotango. Wagner postou-se como um guarda ao lado do Orangotango. Como se os dois guardas com AK-47 do lado de fora não fossem ameaçadores o suficiente.

– Então… você… é… O Orangotango, certo? – deve ter sido o jeito mais estúpido que já comecei uma conversa com alguém. Mas devo admitir que ainda não achei uma frase melhor.

– Sim. – respondeu o Orangotango, rispidamente, sem tirar os olhos do livro que escrevia.

– Então… você… é responsável por toda a Literatura… legal…

Ele levantou os olhos, um pouco contrariado, apenas por tempo suficiente para que eu percebesse que ele não estava feliz comigo.

– Eu não sou responsável por toda a Literatura. Eu sou toda a Literatura. Eu sou mais que a Literatura! Eu sou cada recado, cada bilhete, cada lista de compras, cada e-mail que você já leu!

– Claro, desculpe…

– E você está fora de sincronia. – ele disse.

– Perdão?

– Fora de sincronia. Você está está fora de sincronia. Não sei como nem porque, mas é por isso que os meus textos que são seus não chegaram a você.

– Hummm… Desculpe, não quis ficar fora de sincronia com você… acho…

Ele depositou a caneta na mesa. E encarou-me firmemente. Pude sentir a vibração do mundo mudando, como se cada caneta, lápis, teclado ou máquina de escrever parasse de repente ao redor do mundo.

– Não é só comigo. Você está fora de sincronia comigo, com o Universo, consigo mesmo! Há algo de perturbadoramente errado nisso. É como se, de um momento para o outro, você não pertencesse mais a este Universo.

– Então… o quê? Eu morri?

– Não. Se tivesse morrido, eu teria parado de escrever os seus textos. – Ele pegou de novo a caneta e voltou a escrever. o ruído de fundo, sutil, do mundo voltou a soar – Isso não faz sentido…

– Muitas coisas não fazem sentido aqui…

– Eu não me importo com o sentido das coisas. Só espero que se resolva logo! Você está atravancando os textos! Tem textos aqui, – ele indicou a própria cabeça – que já estão prontos! Mas só surgem depois que alguém leia um texto seu! Você está entupindo a Literatura!

– Nossa! Incrível o que se faz quando não se atualiza o blog por uma semana…

Ele bateu na mesa:

– Isso não é uma brincadeira! Você quer que a Literatura fique estagnada? Que nada mais seja produzido? Que o mundo nunca mais conheça uma obra nova? Que só viva de clássicos?

– Bom… Considerando a produção contemporânea…

– Você acha que isso é uma piada?

– Não, Orangotango. Eu não acho que isso seja uma piada… Mas… da forma como eu vejo… A humanidade vai sobreviver. Sabe como?

– Como?

– Wagner, você tem uma caneta extra? Não quero atrapalhar o símio letrado…

Wagner me passou uma caneta. Tirei um papel do bolso e rabisquei.

– Toma a caneta. – e devolvi a caneta para Wagner. E coloquei o papel de volta no bolso.

– E então…? – perguntou o Orangotango.

– Agora você me diz… – respondi, dando de ombros.

– Como assim? – protestou Wagner, que já devia estar perdendo a paciência comigo.

– Bom… eu sei que eu escrevi algo no papel… E, há princípio, há duas possibilidades: a primeira é que o que eu escrevi já está escrito no livro do Orangotango Eterno. A segunda é de que o que eu escrevi não está no livro.

– E…? – Wagner perguntou.

– Se… não estiver no livro… – respondeu o Orangotango, calmamente, com ódio na voz – Quer dizer que ele não está fora de sincronia, ele está… livre…

Eu sorri. Mas completei.

– Não necessariamente. Sabe, se o que eu escrevi, não estiver no livro, existem três opções. A primeira, sim, é de que eu estou livre. O que quer dizer que talvez depois toda a humanidade esteja livre e o Orangotango deixe de ter utilidade no Universo. Mas também é possível que eu tente mostrar o que eu escrevi e, para manter a coerência no Universo, não exista nada no papel. Neste caso, só precisamos nos concentrar em me re-sincronizar e tudo dará certo. A terceira possibilidade é de que o Orangotango acabe escrevendo a mesma coisa que escrevi no papel no livro. Nesse caso, os papéis se invertem. É o Humano Eterno ditando o que o Orangotango escreve. Pensem nisso…

Os semblantes de desânimo em Wagner e no orangotango mostravam que ele pensaram muito bem sobre as três hipóteses.

– Agora… – continuei – Sabendo que vou narrar, com toda a certeza, esse encontro do início ao fim… sabendo que eu o escreverei e que é de você que flui a escrita… me diga, Orangotango, o que vai ser?

E, arregalando os olhos, o Orangotango voltou a escreve.

1 Demonstrações de Atenção:

Alana Albuquerque disse...

Mindfuck total. Adorei a parte do "Você está entupindo a Literatura", hehe. E por favor não se dessincronize desse Orangotango, pois é capaz de se abrir um buraco negro e engolir toda a dimensão linguística do universo!