– Devo admitir que eu estava impressionada… – disse Valquíria, sentada na minha cadeira e folheando um caderno amarelo de páginas em branco – Até semana passada, é claro.
Tinha sido um dia cansativo, com mais horas de ônibus do que há horas num dia. Compromissos adiados, reuniões frustrantes e desencontros não ajudaram no meu humor. Tinha chegado em casa pronto para desabar na cama e pôr um fim naquele dia, mas ao abrir a porta do meu quarto encontrei Valquíria sentada à frente do meu computador. A cara de Joelma, a pose firme e implacável de bibliotecária severa. De repente, peguei-me desejando que ainda estivesse em um ônibus lotado.
– Vai embora. – foi tudo o que consegui dizer, juntando toda a minha simpatia restante. Acompanhei a frase com um alegre dedo médio em riste.
– Que deselegante… – disse ela, com um muxoxo, e colocando o caderno de lado – Você estava indo tão bem, o que aconteceu?
– Do que você está falando?
Joguei minha mochila em outra cadeira e desabei na cama, sentindo-me incapaz de jamais levantar novamente.
– Do blog, obviamente! Atualização periódica, qualidade dos textos na média, temas variados… E, de repente, já era! A Sagrada Ordem dos Blogs está muito furiosa!
– Diga para a Sagrada Ordem dos Blogs que eu não me importo! Tenho mais coisas para fazer!
– A Sagrada Ordem dos Blogs está mais interessada em confiscar o caderno amarelo. – ela anunciou. Como se estivesse dizendo “o cá está pronto”.
Levantei-me de cama, num pulo. Não sei de onde tirei forças.
– O quê?
– Você tem um caderno amarelo, onde exercita a escrita e cria os textos antes de postá-los. Nós sabemos. Vim aqui pra isso. Achei dois cadernos amarelos. Mas não tinha uma página de texto neles.
– Eles são os próximos. O caderno original está quase acabando.
– Então me entregue.
– Mas não está pronto!
Ela cruzou os braços, ergueu uma sobrancelha, em tom ameaçador.
– Onde está o caderno? A Sagrada Ordem dos Blogs quer manter a continuidade do blog.
– Pra quê? – eu gritei, histérico – Eu que escrevi os textos! Eu que todas as semanas posto! Quase ninguém lê, quase ninguém comenta! Ninguém se importa!
– A Sagrada Ordem dos Blogs se importa.
– Por quê?
Ela ficou calada.
– Por quê? – eu insisti.
Ela suspirou, balançou a cabeça e disse:
– Os textos já foram escritos, mas precisam ser postados. Se você não fizer isso, a Ordem o fará. Ao não postar o texto, você está impedindo que textos derivados surjam. E isso… bom, isso não é bom para a Ordem.
– Eu não escrevi mais textos! Tudo o que eu já escrevi, eu postei! – levantei-me e tirei o caderno da mochila, entreguei à Valquíria – Olha, não tem motivo pra confiscar o caderno!
Ela começou a folheá-lo. Pequenos sinais de reconhecimento surgiam em seu rosto a cada página virada. Foi aí que entendi, bastante surpreso, que ela acompanhava o meu blog. Uma coisa que jamais cruzara minha mente antes. E, então, o semblante de reconhecimento foi substituído por um de confusão.
– Mas… mas… outros textos foram escritos! Eu os vi sendo escritos!
– Desde quando você fica de stalker vendo quando eu escrevo?
– Não! Não você… foi-- – E ela se interrompeu.
– Quem está escrevendo os meus textos, porra? – gritei, batendo na mesa.
– Não use esse tom comigo! Sou uma agente especial da Sagrada Ordem dos Blogs! – ela se levantou, em desafio, depois voltou a folhear as páginas – Mas… já que algo está definitivamente errado, acho que você vai ter que ficar sabendo mesmo…
***
Era uma sala assustadoramente branca. O ar cheirava a esterilidade. Um hospital elevado à enésima potência, à primeira vista, não fossem os soldados portando AK-47s ao redor da caixa de vidro. Todo o resto da equipe usava branco. Eu e Valquíria destoávamos daquele hambiente. Ela, com seus tons terra. Eu, de azul (e tênis vermelho). O Orangotango destoava também, mas era claro que todo aquele ambiente tinha sido criado em função dele.
– Este é Wagner. – disse Valquíria, apresentando-me para um dos homens de branco. Lembro que ele tinha olhos pequenos muito juntos e um cabelo preto penteado para o lado. Mas não prestei muita atenção. Meus olhos não conseguiam se desviar muito do orangotango escrevendo calmamente no centro da caixa de vidro. Agia com naturalidade, como se estivesse escrevendo desde o início do Universo. Ele estava escrevendo desde o início do Universo – Ele é o coordenador da Central de Mantenimento e Supervisão do Orangotango.
– Então… Esse é… O Orangotango? – disse eu, apertando a mão de Wagner.
– Exato. – disse ele, com orgulho no olhar.
– Então… quer dizer que o deus que Sekisusai venera está… do lado de vocês?
– Sim. – disse Valquíria – Sekisusai é apenas um louco. Você devia esquecê-lo.
Eles me levaram até a caixa de vidro. Apenas eu e Wagner entramos. O ar dentro da caixa de vidro parecia ainda mais puro que do lado de fora. Colocaram uma cadeira para que eu me sentasse à frente do Orangotango. Wagner postou-se como um guarda ao lado do Orangotango. Como se os dois guardas com AK-47 do lado de fora não fossem ameaçadores o suficiente.
– Então… você… é… O Orangotango, certo? – deve ter sido o jeito mais estúpido que já comecei uma conversa com alguém. Mas devo admitir que ainda não achei uma frase melhor.
– Sim. – respondeu o Orangotango, rispidamente, sem tirar os olhos do livro que escrevia.
– Então… você… é responsável por toda a Literatura… legal…
Ele levantou os olhos, um pouco contrariado, apenas por tempo suficiente para que eu percebesse que ele não estava feliz comigo.
– Eu não sou responsável por toda a Literatura. Eu sou toda a Literatura. Eu sou mais que a Literatura! Eu sou cada recado, cada bilhete, cada lista de compras, cada e-mail que você já leu!
– Claro, desculpe…
– E você está fora de sincronia. – ele disse.
– Perdão?
– Fora de sincronia. Você está está fora de sincronia. Não sei como nem porque, mas é por isso que os meus textos que são seus não chegaram a você.
– Hummm… Desculpe, não quis ficar fora de sincronia com você… acho…
Ele depositou a caneta na mesa. E encarou-me firmemente. Pude sentir a vibração do mundo mudando, como se cada caneta, lápis, teclado ou máquina de escrever parasse de repente ao redor do mundo.
– Não é só comigo. Você está fora de sincronia comigo, com o Universo, consigo mesmo! Há algo de perturbadoramente errado nisso. É como se, de um momento para o outro, você não pertencesse mais a este Universo.
– Então… o quê? Eu morri?
– Não. Se tivesse morrido, eu teria parado de escrever os seus textos. – Ele pegou de novo a caneta e voltou a escrever. o ruído de fundo, sutil, do mundo voltou a soar – Isso não faz sentido…
– Muitas coisas não fazem sentido aqui…
– Eu não me importo com o sentido das coisas. Só espero que se resolva logo! Você está atravancando os textos! Tem textos aqui, – ele indicou a própria cabeça – que já estão prontos! Mas só surgem depois que alguém leia um texto seu! Você está entupindo a Literatura!
– Nossa! Incrível o que se faz quando não se atualiza o blog por uma semana…
Ele bateu na mesa:
– Isso não é uma brincadeira! Você quer que a Literatura fique estagnada? Que nada mais seja produzido? Que o mundo nunca mais conheça uma obra nova? Que só viva de clássicos?
– Bom… Considerando a produção contemporânea…
– Você acha que isso é uma piada?
– Não, Orangotango. Eu não acho que isso seja uma piada… Mas… da forma como eu vejo… A humanidade vai sobreviver. Sabe como?
– Como?
– Wagner, você tem uma caneta extra? Não quero atrapalhar o símio letrado…
Wagner me passou uma caneta. Tirei um papel do bolso e rabisquei.
– Toma a caneta. – e devolvi a caneta para Wagner. E coloquei o papel de volta no bolso.
– E então…? – perguntou o Orangotango.
– Agora você me diz… – respondi, dando de ombros.
– Como assim? – protestou Wagner, que já devia estar perdendo a paciência comigo.
– Bom… eu sei que eu escrevi algo no papel… E, há princípio, há duas possibilidades: a primeira é que o que eu escrevi já está escrito no livro do Orangotango Eterno. A segunda é de que o que eu escrevi não está no livro.
– E…? – Wagner perguntou.
– Se… não estiver no livro… – respondeu o Orangotango, calmamente, com ódio na voz – Quer dizer que ele não está fora de sincronia, ele está… livre…
Eu sorri. Mas completei.
– Não necessariamente. Sabe, se o que eu escrevi, não estiver no livro, existem três opções. A primeira, sim, é de que eu estou livre. O que quer dizer que talvez depois toda a humanidade esteja livre e o Orangotango deixe de ter utilidade no Universo. Mas também é possível que eu tente mostrar o que eu escrevi e, para manter a coerência no Universo, não exista nada no papel. Neste caso, só precisamos nos concentrar em me re-sincronizar e tudo dará certo. A terceira possibilidade é de que o Orangotango acabe escrevendo a mesma coisa que escrevi no papel no livro. Nesse caso, os papéis se invertem. É o Humano Eterno ditando o que o Orangotango escreve. Pensem nisso…
Os semblantes de desânimo em Wagner e no orangotango mostravam que ele pensaram muito bem sobre as três hipóteses.
– Agora… – continuei – Sabendo que vou narrar, com toda a certeza, esse encontro do início ao fim… sabendo que eu o escreverei e que é de você que flui a escrita… me diga, Orangotango, o que vai ser?
E, arregalando os olhos, o Orangotango voltou a escreve.
1 Demonstrações de Atenção:
Mindfuck total. Adorei a parte do "Você está entupindo a Literatura", hehe. E por favor não se dessincronize desse Orangotango, pois é capaz de se abrir um buraco negro e engolir toda a dimensão linguística do universo!
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