O vento frio do fim de tarde balançava a copa das árvores. Os três vultos pararam no topo de um morro. Só um deles podia ver o que estava a frente. As outras duas criaturas não precisavam, conheciam bem aquele local miserável: era onde habitava a sua irmã. O topo daquele morro era o lugar exato onde se podia perceber que a floresta não continuava dali em diante até o pé da montanha e a entrada da gruta. Ali, era onde se percebia que as árvores davam lugar a pedras. Uma floresta de pedras do tamanho de pessoas. Porque já foram pessoas.
– Está feliz, Herói? – perguntou uma das mulheres, com a voz rascante e castigada.
Ele assentiu. E do cinto, pegou um pequeno saco, que entregou na mão da outra mulher.
– Já fizeram sua parte. Vão embora. – disse o homem.
A mulher colocou a mão dentro do saco, vasculhando seu interior.
– Vamos, Euríale. Está tudo aqui… – ela então puxou o braço da outra. Retirou do saco um olho e colocou em uma de suas órbitas vazias. – Nunca mais veremos este lugar…
– Você é uma derrotista, Esteno! – protestou a outra, enquanto era guiada pela irmã – Ele pode falhar…
O Herói fingiu não ouvir. Colocou-se a caminho. Primeiro sobrevoando a área, colocando em ação pequenas asas em suas sandálias. O local estava deserto. Nada se escondia entre as estátuas. Pousou em frente a uma delas, e a observou. Era um rapaz, mais ou menos da mesma idade que ele, levantando uma espada. Seu olhar era de confiança, de total certeza de um golpe certeiro. Como estava errado. O Herói sentiu dentro de si crescer o orgulho. Aquela estátua tinha falhado. Ele não falharia. Tentou ignorar o medo e a insegurança que vinham junto. E pôs-se em direção à gruta.
Passou por diversas estátuas. Homens e mulheres. Jovens e velhos. Alguns, munidos de espadas, lanças, escudos… Outros, traziam mochilas, sacos, carroças. Pareciam mais viajantes do que soldados. Ele parou em frente à gruta, respirando fundo, reafirmando-se, se enchendo da coragem necessária. E da certeza de estar cumprindo o seu destino.
Acendeu uma tocha e entrou na gruta. O túnel escuro fedia a morte. A desespero. Ele nunca antes achou que o desespero pudesse ter um cheiro. Mas ali estava, era um odor que nunca tinha sentido antes. E ele reconheceu como a própria essência do desespero. E sentia-o mais a cada passo.
O odor consumia a chama da tocha. Tornava-a mais eficiente conforme adentrava na caverna. A escuridão parecia mais densa. E os sons ao seu redor pareciam mais perigosos. Sabia que nada podia ter passado por ele no caminho da gruta. Mas sentira o cheiro do desespero por tempo demais, e um pequeno estalo atrás dele fez com que se virasse.
– Monstro! Saia de onde estiver! Entregue-se e eu lhe prometo uma morte rápida!
Um riso feminino, surpreendentemente humano ecoou pela caverna. Atrás dele, onde ele deveria estar olhando. Mas, para a sorte dele, ele estava de costas.
– Você tenta parecer bravo… – disse a voz da mulher – mas é apenas um garoto. Sua voz treme, sua espada também. Você realmente acha que pode me matar?
– Eu sei que vou, monstro!
– Qual o seu nome, rapaz? – perguntou a mulher, após tentar disfarçar um pequeno riso.
– Perseu, filho de Dânae e Zeus! Venho a mando de… – e a próxima palavra saiu com um pouco de amargor – Polidectes para matá-la e trazer paz à Ciméria.
– Perseu, hein? Já ouvi falar de você… E o meu nome, você sabe?
– Medusa…
– E você sabe quem eu sou?
– Sim. Você é o monstro que aterroriza essa região. E que transformou todas aquelas pessoas em pedras! – disse Perseu, consumido de raiva.
– “Monstro”… – murmurou Medusa – É isso que me chamam agora.
– É o que você é.
Ele sentia a criatura movendo-se ao redor dele. A chama estava se apagando. Ele olhava o escudo de prata, atrás de um reflexo. Mas a criatura ficava sempre protegida na penumbra. Cercando-o, mas jamais entrando na luz.
– Eu cresci ouvindo algo bem diferente… – respondeu Medusa – Diziam que eu me parecia com Atena, sabe? Eu e minhas irmãs. Todos diziam isso, dá pra acreditar?
Um braço apareceu na luz, coberto de escamas de cor bronze. Unhas compridas e escuras. E sumiu de novo. Ele podia ouvir o silfo de dezenas de cobras a cada movimento da criatura.
– Até Posêidon deve ter achado isso… – continuou Medusa – Afinal, ele se apaixonou por mim. E eu por ele. As coisas que ele me mostrou… Você não faz idéia das maravilhas que o mar esconde… Muitos as chamariam de monstros… Mas eu conheço monstros. E as criaturas do meu querido Posêidon não são monstros… são maravilhas! Atena é um monstro! Maldita seja ela e todos os seus adoradores! E pensar que já fui uma delas…
– Não ouse falar assim de Atena!
O grito de Perseu ecoou pela caverna. Cheio de ódio e da confiança que ele tentara demonstrar desde o início.
– Ah, mas ela é um monstro! Eu sei que você discorda… Eu vejo a insígnia da coruja em seu escudo. Muito esperto de Atena, te dar um escudo de prata… ela sempre foi muito esperta… Pena ser tão cruel… O que ela queria que eu fizesse? Dissesse “não” a Posêidon? Eu não poderia… jamais… Talvez não devesse ter me entregado a ele em um templo de Atena, é verdade… Mas ele me pegou de surpresa… Ele… ele sabia me conquistar… Olhando para trás, eu merecia sim uma punição… Mas…. tão cruel assim? E as minhas irmãs? Elas mereciam aquilo? Olhe para mim! Olhe para elas!
E Perseu fechou os olhos, ao ver que a criatura se aproximava. Teve um relance, um vislumbre da criatura. Nada mais. Tentou golpeá-la de olhos fechados. Mas ela segurou seu braço com firmeza. Ele pôde sentir o hálito da criatura a um palmo de seu rosto, as cobras excitadas preparando o bote.
– Eu não vou te matar, Perseu. Eu sei você é. Sei que seu avô jogou você e sua mãe no mar para morrerem. Mas vocês não morreram. Foram salvos, e bem recebidos por Polidectes. Vocês deviam ter morrido no mar, mas não morreram. E sabe por quê? Porque meu querido Posêidon protegeu vocês. Atena acha que a maior punição não foi me tranformar nisso que eu sou, mas me tirar a imortalidade. Na verdade, isso é o que ela me fez de mais gentil. Posêidon trouxe você para mim, para me matar. Ele vai me entregar aos cuidados do seu irmão no submundo. E eu ficarei livre. E todos nós cumpriremos nosso papel no jogo doentil dos deuses. E, assim, o mundo continua. Atena ficará feliz por achar que cumpriu sua total vingança contra mim. Posêidon ficará feliz por me libertar, já que não pode desfazer a minha maldição. E você… você será um herói… E todos vão te amar… não é lindo?
– Você matou todas aquelas pessoas… – murmurou Perseu – Você é um monstro.
– Eu as libertei! Não sei o que Dice está fazendo no mundo, mas certamente não está fazendo justiça! Que justiça há em me afastar para sempre de Posêidon? Que justiça há em cegar minhas irmãs e lhes tirar os dentes, exceto um? Tudo porque cometi um pequeno deslize de luxúria… Dice deve estar apaixonada por Atena para deixar que isso saia impune! E nem sei no que pensavam as moiras quando teceram minha vida… Mas elas a teceram só até aqui, quando encontro você, Perseu. E tudo acaba aqui. Já cansei de libertar os outros, quero me libertar.
Ela soltou a mão dele. Ele não desferiu o golpe. Não teve coragem. Ela o segurou pelos ombros e o virou.
– Fique de costas para mim. Segure o escudo. Deixe-me ver meu rosto. Não tive coragem de fazê-lo desde muito tempo atrás. Eu ainda era humana, da última vez que vi meu rosto. Mas quero me ver, saber no que me tornei, saber o que pode ser tão horrível assim… E então, estarei pronta para partir.
E Perseu segurou o escudo. E a górgona pêde ver-se. Perseu abriu os olhos e olhou para o escudo. O reflexo não era perfeito, mas estava lá: um rosto hediondo, mas acima de tudo triste. Ele pôde ouvir o choro atrás de si. Vindo de uma mulher, e de diversas serpentes. Mas não de um monstro.
– Estou pronta… – ela murmurou.
E, juntando mais coragem do que achou que seria necessária, desferiu o golpe.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
O Monstro
Assinar:
Postar comentários (Atom)
2 Demonstrações de Atenção:
poor. bitch.
medusa forever on our hearts!!!
"E então, sem querer, Medusa olha pra perseu..."
PUTA MERDA, aperta reset ai. Vamo fazê essa fase de novo.
Postar um comentário