sábado, 19 de novembro de 2011

O Sonho de Kafka

Certa manhã, após uma noite de sonhos tempestuosos, Franz Kafka acordou metamorfoseado num pequeno cãozinho. Não tinha, porém, lembrança de ter sido Franz Kafka ou jamais ter escrito A Metamorfose ou O Processo ou Carta Ao Meu Pai. De forma que não percebeu a metalinguagem… Tinha pensamentos de cão. Aliás, de cão de pouco mais de um mês. Eram poucos, vagamente articulados e geralmente referentes a “coisas a morder” e a “coisas a não morder”. As duas categorias de coisas no mundo.

Vagou pelas ruas, foi atacado por alguns cães, fez amizade com outros e achou quem o levasse pra casa. Viu-se em um mundo em que a definição de “coisas a morder” e “coisas a não morder” era feita feita por um estranho gigante bípede que também definia onde ele podia comer, dormir, fazer as necessidades e quando estava sendo barulhento demais.

Apesar de tudo, Kafka gostava do bípede. Chorava quando ele não estava lá. Mordia os pés quando ele estava. Era como mostrava afeição.

Tomava leite, comia a ração, era forçado a ingerir outras coisas que não queria através de uma seringa. Fazia um escândalo. Mas o bípede insistia em lhe fazer ingerir o estranho líquido rosa.

Um dia, à sombra de uma árvore, o bípede sentou-se e ele se colocou ao lado de sua perna e lá deitou-se, a brisa primaveril soprando sobre seu pê-lo escuro enquanto ele adormecia.

Então, em seu sono, viu a sua infância em Praga, seus desentendimentos com o pai, seu total desespero em um mundo que parecia servir apenas para esmagar o espírito humano em sua marcha inexorável rumo ao progresso. Reviu toda a vida do Franz Kafka original… até aquele quarto de hospital em 1924…

Acordou chorando, gritando, e esperneando. De volta à sua forma canina. O bípede inclinou-se e lhe fez um afago atrás da orelha. Ele parou de chorar. Tinha esquecido do sonho. Virou-se e mordeu a mão que o afagava, de brincadeira, gentilmente. Voltou a ser Kafka o cão. E nunca mais lembrou-se de ter sido Kafka, o escritor.

Aliás, uma vez devorou uma edição de bolso de O Castelo, sem perceber que estava realizando o último desejo do seu eu-humano.

3 Demonstrações de Atenção:

Ariel disse...

"Que adormeça a realidade, o sonho é mais real" ^^

Excellent as usual!
Vou começar a te chamar de Orgulho também (desde que a Ana nunca saiba disso) ^^

Kuss Kuss Bruder, alias, Orgulho =)

Anônimo disse...

André:

O Kafka, este mesmo, o da versão canina, "tomava leitA"? Brincadeira à parte, bom texto, mostrando sutilmente o quanto os cachorrinhos gostam de nós (e nós deles). Uma relação que só nos faz bem. Uma pergunta: mas quem é este cão?

Álvaro

Nee disse...

Dédis... :)

*abraço apertado*