sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Leviatã

Pantufa afundou a pequena pata duas vezes na água cinzenta do oceano, como se para checar se a água ainda cercava nosso minúsculo bote de madeira. Decepcionado ao constatar que ainda estávamos à deriva, sentou-se novamente num canto e olhou para mim e para o Velho Jeremias.

– Tem uma tempestade vindo. – anunciou, sem qualquer emoção na voz, exausto demais para se importar. Olhei por sobre meu ombro e pude divisar, ao longe, uma massa de nuvens de um cinza mais escuro que o cinza que nos cercava naquele momento naquele mundo cinza. Pude apenas suspirar, desanimado.

Repeti a frase para que Jeremias soubesse.

– Tem sempre uma tempestade vindo! – respondeu rispidamente o Velho Jeremias – Já era! Essa vai foder com tudo!

Tentei, juro que tentei, arranjar uma frase de otimismo e esperança. Mas não consegui. O Velho Jeremias estava certo, estávamos à deriva, indo em direção à tempestade. E a criatura continuava a nos perseguir.

– Quanto tempo até ela chegar, tu acha? – perguntei, apenas para quebrar o silêncio. Quando ficávamos em silêncio, podíamos ouvir o eterno rugido da criatura sob nós. Era enlouquecedor.

– Sei lá. Quatro horas? Seis? Não importa muito, importa?

Assenti. Era triste ter que concordar com o Velho Jeremias, uma criatura definitivamente desagradável que certamente aparentava ter três vezes seus trinta anos, daí o apelido. Enrolado em trapos rasgados na ponta do bote, o Velho Jeremias apenas abria a boca munida de dentes tortos e amarelados apenas para disparar uma frase de desânimo desde que havíamos entrado no bote com ele. Inicialmente, eu e Pantufa nos limitávamos a ignorá-lo. Infelizmente, porém, cada uma dessas frases provou-se verdadeira.

Uma barbatana surgiu na superfície da água. Apenas setenta centímetros, mas o suficiente para nos lembrar que havia uma criatura na outra ponta, que não desistiria de nos perseguir.

– Por que ele não nos devora de uma vez? – protestou Pantufa, assim que a barbatana submergiu novamente – Vocês viram o tamanho dessa coisa? Ela pode engolir o barco inteiro se quiser!

Repeti a pergunta para Jeremias.

– Ele é inteligente, está nos torturando! Ele gosta disso! – despejou o Velho Jeremias – Ele vai nos perseguir até que desejemos a morte e, quando ele finalmente nos entregar a ela, vai mostrar que as coisas podem ser piores do que nós imaginamos...

– Animador... – murmurei.

– Você se acha muito especial, ficando aí parado, fingindo não se importar, não é? – gritou o Velho Jeremias, o dedo caloso em riste a cinco centímetros do meu nariz – Mas você se importa! Você e esse gato idiota que você insiste em dizer que fala! Eu vi a sua cara quando você viu o vulto da criatura pela primeira vez! Eu vi o medo em seus olhos! Você só finge estar controlado, por dentro, você está desabando! Então não me venha com comentários espertinhos ou sarcásticos! Você está tão desesperado quanto eu!

– E daí? Adianta alguma coisa ficar gritando como um lunático? – respondi, sem perceber que eu estava gritando como um lunático – Tu mesmo disse que já era! Então já era! Ou a tempestade, ou a besta, alguma coisa vai nos pegar! Nada adianta!

– Ah! Você então concorda comigo? Vamos matar o gato então! Estou com fome, quero uma última refeição!

– Pantufa e eu vamos ter o mesmo fim. – respondi, seco.

– Não seja por isso... – murmurou o Velho Jeremias, quase levantando-se para me atacar mas, talvez percebendo sua compleição física de um senhor de noventa anos, desistiu – Você não pode viver sem esse gato por algumas horas? Talvez seja melhor que a gente o mate do que ser devorado por aquilo.

Ele apontou uma movimentação na água, o dorso ou a cabeça da criatura estavam muito próximos da superfície.

– Pantufa e eu vamos ter o mesmo fim. – repeti.

– Que seja! – respondeu o Velho Jeremias, cruzando os braços e se recostando no barco com cara de criança emburrada.

O barco balançou um pouco com isso. Um trovão soou ao longe. Havia cheiro de eletricidade no ar.

– Valeu por me defender. – disse Pantufa, sentando-se encostado a mim. Estava ficando frio, e eventualmente sentíamos uma lufada de vento vinda da tempestade.

– De nada... – respondi baixinho, como se houvesse um tom de voz que Jeremias não ouvisse. Não sendo capaz de entender o que o gato falava, ele se sentia bastante incomodado quando eu falava com Pantufa.

– Sabe... Eu às vezes penso nas coisas... em tudo... tudo que aconteceu, sabe?

Voltei-me para ele. Pantufa podia falar horas sobre si mesmo, desde que não desse muitas informações. Sentia-se confortável sendo enigmático. Mas, naquele momento, ele estava realmente tentando expressar algo que ele sentia. E não conseguia direito. Seu rosto felino encarando inocentemente as tábuas do chão do bote, as patas juntas, os olhos arregalados como se pudessem ajudá-lo a achar as palavras certas. Parecia um filhote encabulado. E senti pena dele.

– “Tudo que aconteceu”? – tentei ajuda-lo.

– Na minha vida. Todas as escolhas que eu fiz e coisa e tal... Eu... eu às vezes pensava em quantas escolhas erradas eu fiz... e em como eu queria voltar a ser humano... e... e... no que eu teria feito diferente... Se eu tivesse sido um humano melhor, talvez eu não fosse um gato hoje, não é?

– É possível.

Ele tirou as unhas para fora, arranhou um pouco o chão e as recolheu novamente.

– Bom... mesmo assim... mesmo sabendo que eu só cheguei aqui através de muitos caminhos mau escolhidos... se eu pudesse voltar atrás e o único jeito de ter te conhecido... até de estar aqui contigo, perto do fim, no meio de lugar nenhum, sendo perseguidos por um monstro marinho que não sabemos como é... se o único jeito de te colocar na minha vida fosse esse, eu faria tudo de novo da mesma forma...

Eu não consegui responder. Jamais imaginei que Pantufa fosse me dizer qualquer coisa vagamente semelhante.

– Só... Só achei que tu gostaria de saber... – ele concluiu, e levantou-se para ir pra outro canto.

Eu não o deixei ir. Eu o peguei no colo e tentei não chorar feito uma criança enquanto o abraçava.

– Pantufa... Mesmo estando na pior situação da minha vida, eu estou feliz que tu tá aqui comigo.

E eu o abracei mais forte, enquanto um rugido mais forte veio de sob o bote, provindo da enorme garganta da criatura.

– Chega! – gritou o Velho Jeremias – O monstro ganhou! Já era! Pra que esperar mais?

E, antes que um de nós pudesse responder alguma coisa, ele levantou-se e pulou na água, impulsionando o bote um pouco mais na direção da tempestade.

O mundo pareceu parar por alguns instantes, enquanto Jeremias flutuava apenas com a cabeça para fora do oceano. Afastando-se de nós. Ele apenas nos olhava, sem qualquer emoção no rosto, sem qualquer remorso ou esperança. E então a criatura pulou, engolindo-o inteiro. E finalmente vimos o que estávamos enfrentando. Achei que era algo como um enorme tubarão. E, certamente, havia muito nela que se assemelhava a um tubarão. Mas era mais do que isso, era algo parte tubarão, parte crocodilo... uma criatura que Deus teria criado em seus pesadelos e depois lançado no abismo, esperando que nunca se libertasse. E era enorme. Tão enorme que não podíamos compreender como uma criatura tão prodigiosa podia se importar com presas tão insignificantes quanto nós.

Não tivemos capacidade de sentir pena do Velho Jeremias. Não creio que sentiríamos muita de qualquer maneira. Mas, naquele momento, tudo o que pudemos sentir, tudo o que pudemos pensar era medo. Ficamos em silêncio enquanto o corpo da besta mergulhou novamente nas profundas e, como se nada tivesse acontecido, retornou à sua ronda ao redor de nosso bote. Percebemos que não havíamos respirando durante todo esse tempo e, quando conseguimos, foi apenas para poder correr dentro do minúsculo bote e gritar:

– Tu viu o tamanho daquilo?

– Tu já viu coisa parecida?

– O que era aquilo? O que era aquilo.

Não lembrou quem gritou o que, e não importa. Em resposta, posso apenas dizer que aquilo era um monstro. Não apenas uma criatura gigante e assustadora, mas um monstro em sua essência. Algo feito para perturbar uma pessoa de todas as formas possíveis até que seu espírito se quebrasse e fosse para sempre destruído.

Pensando bem, talvez devêssemos ser mais sensíveis ao destino do pobre Jeremias...

Mas não pensamos nisso naquele momento. Nos demos ao luxo de sermos egoístas e pensarmos somente em nós mesmos. Em nossas, mentes, mil formas nas quais aquela coisa iria nos destroçar, mil cenas foram passadas repetidas vezes. Sem que qualquer um de nós pudesse dizer qualquer coisa.

Até que Pantufa finalmente perguntou:

– O que nós vamos fazer?

Busquei em mim mesmo a resposta. E, mais vez, era somente uma:

– Nada. Vamos aguentar até onde pudermos. Fazer o nosso melhor. E só isso.

– Talvez o nosso melhor não seja o suficiente.

– Mas é só o que podemos fazer.

E peguei Pantufa novamente no colo. E o vento começou a soprar forte. E o céu começou a escurecer. Estávamos entrando na tempestade. Abriguei Pantufa sob a minha camiseta e me segurei nas bordas do bote o melhor que pude. E a tempestade nos engoliu.

Não me lembro direito do que aconteceu, lembro de água por todos os lados. Lembro da treva cortada por relâmpagos. Lembro de lampejos da criatura. Seu dorso, sua barbatana, sua bocarra. Tenho certeza que, em certo momento, divisei seu olho surgindo de uma onda, olhando diretamente para mim, com fome. Lembro de sacudir para todos os lados. Lembro que as roupas pesavam mais com a chuva. Lembro dos músculos de todo o corpo doendo. Do frio. De escorregar a mão três vezes e voltar a segurar com força no bote.

Lembro que não caímos. Lembro de que, apesar de eventualmente fincar as unhas em meu peito para se segurar melhor, era reconfortante ter Pantufa ali comigo. O único calor que eu sentia em meio a todo aquele frio.

E não lembro como, mas lembro que eventualmente a tempestade passou. E a criatura não estava mais atrás de nós.

– Nem sinal dela. É como se ela nunca tivesse nos perseguido! – disse Pantufa, quando finalmente nos demos por conta do fato.

E, na manhã seguinte, atingimos uma ilha. E pulamos de alegria, e corremos pela praia como duas crianças. Sim, tínhamos passado por uma horrível tempestade e sobrevivido a uma terrível besta contra a qual não tínhamos chance. Não por mérito nosso, talvez, mas estávamos vivos. E agora estávamos numa ilha.

Estava longe de ser um lar, mas era terra firme.

3 Demonstrações de Atenção:

Leonardo Caldieraro disse...

Pantufa é um bom nome pra um gato cinza com olhos bem escuros e bastante pelos.
E entre Leviatã e Tempestades, prefiro ir pra esquerda ou direita, pra tentar evitá-los.

Felipe Vargas disse...

O bom de ter o meu ego é que eu teria achado que a tempestade viria me salvar. Até teria achado que eu causei a tempestade. E eu não quase chorei em nenhum momento do texto, e eu não to afirmando isso pra eu acreditar no que to falando. Espero

brujo disse...

os ultimos textos foram realmente muito bons. em breve, espero ter a oportunidade de ver trabalhos teus em outras mídias também :)