sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Desregulado

Está se tornando cada vez mais óbvio que você não precisa de mim. Você diz que precisa muito… Não sei se diz isso para não me magoar, para que eu me sinta especial como um dia me senti ou se é o seu apego doentio à idéia de um mundo completamente coordenado e ajustado.

Talvez seja só sadismo. Talvez você goste de fazer esse número. Desmoronar, perder o chão quando eu digo que devemos seguir caminhos diferentes, pra depois me tratar com não mais apreço que um dos móveis quando decido te dar outra chance.

Você tem alguma coisa contra a idéia de eu ser feliz?

Entenda: eu não posso ser feliz com você! Me deixe ser feliz sem você! Insiste que me ama, mas não é capz de fazer isso?

Agora mesmo, enquanto escrevo neste caderno, você está totalmente empenhado em arrumar o relógio do microondas. Tudo o que eu recebi de você o dia todo foi um aceno de cabeça, reconhecendo a minha existência. Quão única e especial você acha que eu devo ter me sentido com isso? Sinceramente!

Admito que parte da culpa é minha. Mais de dez vezes eu fraquejei quando disse que estava terminado. Eu devia ter coragem de continuar caminhando rumo ao fim. Ou ao menos te mostar este caderno. Mas não vou. O caderno vai voltar para a gaveta da minha mesa de cabeceira, cada palavra aqui escrita devorando minha alma à noite, enquanto você ronca ao meu lado envolto na ilusão de que está tudo bem e que você está ser esforçando para que dê tudo certo. Parece que está tudo bem? Você acha que está se esforçando para que algo além da porra do relógio do microondas dê certo?

Não sei quem é mais idiota: eu ou você. Provavelmente eu. Você, ao menos, parece feliz…

Mas não por muito tempo… Ainda nessa semana, vou desregular esse relógio de novo. Não importa quanto tempo você levou para consertá-lo. E, toda vez que você consertá-lo, eu o estragarei de novo. Até que você perceba que somos nós, não o relógio do microondas que estamos desregulados.

No jogo de criar pequenos infernos, cadem dois jogadores.

1 Demonstrações de Atenção:

Felipe Vargas disse...

Quando a felicidade for descoberta dentro de cada um não vai ter mais a necessidade da criação de uma ilusão. Vão poder fazer parte de um sem fazer parte do outro. Talvez devam dar mais atenção ao relógio.