sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O Futuro

Aviso Importantíssimo

Um dia desses, eu estava andando pela rua com a mente cheia de mirabolantes planos sobre qual seria a minha janta naquela noite e o desejo incessante de simplesmente chegar em casa e dar o dia por encerrado. Foi então que entrei em uma anomalia temporal. Atravessei a rua e, ao chegar do outro lado, percebi que eu estava anos à frente deste nosso ano de 2011. Dividido entre a minha curiosidade sobre o futuro e minha natural inclinação de permanecer em território seguro, comprei um jornal e voltei para o outro lado da rua, onde ainda era 2011. Ainda não sei como aconteceu, mas nunca entendi muito de fuso horário mesmo.

No jornal que eu trouxe do futuro, entre um bando de coisas, destaco este artigo que achei particularmente interessante:

Eu Falei com ADO

por Onofre Santiago

Morreu ontem, aos 127 anos, André Darsie de Oliveira. Escritor, diretor, animador, milionário excêntrico e striper de sucesso, André foi testemunha e peça chave de alguns dos maiores eventos do Século XXI. Incluindo o Caso Whatever Works, a fundação do Novo Estado Tibetano, a Grande Extinção dos Pandas, a Passeata Pela Liberdade dos Pseudoantropos e o memorável Festival Cafepaloosa. Sua vida foi cercada de lendas e boatos, alguns inclusive inventados por ele. Escreveu três auto-biografias (“Eu vi ADO”, “O Povo Contra André Darsie de Oliveira” e “As Muletas da Morte”), e nenhuma das três concorda em qualquer ponto com a outra. Descobriu-se, inclusive, que As Muletas da Morte era, na verdade, uma tentativa de André de re-escrever os três primeiros filmes de Star Wars.

Vivendo no exílio em sua casa em Rio Grande nos últimos 6 anos, após o Escândalo do Sutiã Florido, André teve sua saúde física e mental deteriorada aos poucos. Concedia algumas poucas entrevistas e recebia pouca informação do mundo de fora, o que não o impedia de atualizar regularmente (salvo raras excessões) sua página na internet, único sinal que ele dava a nós, mortais, de que ainda estava vivo.

Sua última entrevista há três anos, concedida ao The Rio Grande Space e eu fui escolhido para ir até a excêntrica casa onde o vencedor de Homem do Milênio (por três vezes seguidas) vivia. André estava em sua famosa biblioteca, que a lenda dizia ser infinita mas que ele garantiu ter apenas quinhentos metros quadrados, usava um chapéu-côco e, de tempos em tempos, observava com especial interesse a parede oposta da biblioteca. Lembro-me que o chá foi trazido pela empregada que ele informou ser um “andróide”, corrigindo-se logo para “pseudoantropo”. “Cresci numa época em que ‘andróide’ não era um termo pejorativo, entende? Era um termo de fantasia apenas”.

Devo admitir que, na época, fiquei assustado com a idéia de que um defensor dos direitos dos pseudoantropos pudesse se referir a eles com esse termo. Foi uma das coisas que mais me marcou na entrevista. Hoje, porém, entendo que o termo era uma marca de sua época, não de sua ideologia. Há muito mais sobre esse curioso personagem e sobre esse curioso Século XXI na entrevista, a última que ele concedeu em vida, que o The Rio Grande Space republica agora:

The Rio Grande Space: Como é ser André Darsie de Oliveira?

André Darsie de Oliveira: Acho que é como ser Átila, O Huno. Se Átila, O Huno fosse André Darsie de Oliveira. Acho que Átila, O Huno não gostaria dessa comparação. E é por isso que Átila, O Huno não é André Darsie de Oliveira. E André Darsie de Oliveira está cansado de se referir a si mesmo na terceira pessoa.

TRGS: Os seus livros, contos e artigos  de antes de 2032 muitas vezes são apontados como delirantes e egocêntricos. O que o senhor pensa sobre isso?

ADO: Pessoas que dizem isso são obviamente produtos de minha mente, assim como todo o universo.

TRGS: Depois de 2032 seus textos começaram a ganhar cunho político e filosófico. Isso foi uma reação ao seu amadurecimento, com a chegada dos quarenta anos de idade ou foi causado por outra coisa?

ADO: Em 2032, você é jovem demais para lembrar, houve um escândalo no qual descobriu-se que três em cada cinco membros do parlamento britânico eram na verdade sacos de cimento com sorrisos pintados com hidrocor. Descobriu-se que a situação era mais ou menos a mesma nos vinte anos anteriores. Houve um crise política mundial, todos os outros países começaram a procurar por sacos de cimento entre seus políticos. Fizeram isso no Brasil, mas descobriram apenas que um dos senadores era o anticristo e outro era seu irmão gêmeo mau. As pessoas começaram a se desiludir com a política. Então eu achei que era justo trazer assuntos relevantes aos meus textos para que as pessoas continuassem a debatê-los. Foi arriscado, perdi muitos leitores, ganhei outros. O que importa é que o mundo se recuperou. Foi um período difícil, mas sobrevivemos.

TRGS: Alguns anos depois disso, você apoiou a campanha política de Deus a presidente da república. Quais são suas lembranças desse período?

ADO: Eu lembro que foi meio complicado. No início, lideranças religiosas começaram a apoiar a candidatura de Deus. Eu achei estranho, mas resolvi não criar uma diáspora dentro do partido. Assim que Deus foi eleito, contudo, e começou a mostrar a que vinha, mais e mais líderes religiosos começaram a migrar para a oposição. Até que eles terminaram formando um partido próprio para concorrer com Deus no segundo mandato. Lembro que Deus teve de apressar a segunda vinda de Jesus para reforçar sua campanha. Infelizmente, não quiseram mudar a constituição para que Ele pudesse se re-eleger a um terceiro mandato. Acho que isso poderia ter impedido o Primeiro Holocausto zumbi…

TRGS: Nas suas três auto-biografias, você não cita em nenhum momento nenhum dos dois holocaustos zumbis. Por quê isso?

ADO: Foi uma época sombria para todos. Não só para mim, mas para toda a humanidade. Principalmente o Primeiro Holocausto Zumbi. Não estávamos tão preparados… Só um quarto da população mundial sobreviveu àquele período. No Segundo Holocausto Zumbi estávamos mais preparados, oitenta por cento da população sobreviveu. Mesmo assim, perdi muitas pessoas que eu amava naquela época. É algo que eu gostaria de esquecer, caso eu pudesse. Infelizmente, fui um dos primeiros a comprar o programa de memória total da Memento Co. Desde 2019 eu não esqueço nada.

TRGS: Se você pudesse ser uma árvore, qual seria?

ADO: [aponta para um vaso de plantas perto de uma estante] Aquela.

TRGS: Um ficus?

ADO: Sei lá, mas eu seria aquela. Ela é simpática.

TRGS: Você foi um dos líderes do Movimento Pela Extinção dos Pandas apesar de --

ADO: [interrompe] Eu não fui nunca parte do Movimento Pela Extinção dos Pandas. Eu fui parte do Movimento Pela Redução dos Esforços de Manutenção dos Pandas. São duas coisas completamente diferentes. Os pandas não queriam se reproduzir, e os gastos para manter a espécie viva estavam ultrapassando os limites do tolerável. O Movimento sustentava que o DNA deles fosse armazenado em local seguro e que clones fossem produzidos de acordo com a necessidade. Acusaram o nosso plano de ser economicamente absurdo. Ironicamente, foi a insistência do governo chinês em permanecer no antigo regime de preservação dos pandas que levou a China à falência…

TRGS: E agora os pandas estão extintos…

ADO: É. Pena…

TRGS: O livro A Vaca Cósmica, publicado em 2093 foi usado muitas vezes como evidência de que o senhor é mentalmente instável, o que lhe custou a presidência da Lituânia. Você se arrepende de ter escrito aquele livro?

ADO: Não. Apenas acho que as pessoas não entenderam. Em 2091 descobriu-se traços de queijo mascarpone na superfície lunar enquanto criavam a terceira colônia na Lua. Foi mais ou menos na época em que se descobriu que Astrologia era uma ciência exata, para minha grande surpresa. Todas as verdades científicas de até então estavam sendo revistas e o universo era um lugar estranho e misterioso novamente. Quase mítico. Então eu escrevi um livro em que as pessoas descobriam que toda a superfície da Lua era feita de queijo e, portanto, procuravam a civilização que teria produzido aquele queijo. Chegando aos confins do universo, descobriam A Vaca Cósmica, que era a responsável acidental por basicamente toda a vida na Terra. As pessoas acharam que eu estava falando sério, que realmente acreditava naquilo. Não entenderam toda a alegoria. Talvez eu não devesse ter escrito aquilo com o tom de quem tenta revelar uma conspiração do governo. Mas me orgulho daquele livro, definitivamente.

TRGS: Para você, a humanidade um dia vai achar a Grande Reposta? A Vaca Cósmica real?

ADO: É possível. Mas não acredito muito nisso. Acho que vamos procurar a Vaca Cósmica e, no fim, acabaremos descobrindo que é tudo obra de um Pingüim Cósmico*…

 

* Nota: A frase que termina esta entrevista foi proferida dois anos antes de O Grande Pingüim Cósmico surgir e declarar-se presidente da Venezuela.

***

Não sei quanto a vocês, mas depois de ler essa entrevista fiquei ansioso e preocupado sobre o futuro…

Ah! E o Miguxo vira imperador das Malvinas.

5 Demonstrações de Atenção:

Nee :) disse...

eu fiquei preocupada com tantas coisas... :B

Carlos Flies disse...

Quantas revelações! =O

Lord Falkland disse...

Cara! Eu juro que até a penultima linha do texto eu pensei: "Pelo menos eu não vo virar nenhum ditador ou coisa parecida" ¬¬

Bero disse...

Ele mencionou até queijo mascarpone no post. Ele sabe o que é queijo mascarpone. #palmas =)

C. disse...

embora dificilmente eu sobreviveria ao primeiro holocausto zumbi, quando a astrologia virar ciência exata já planejo migrar para o estudo de obras de cunho espiritual (com especialização em construção de barreiras de contenção de saudades) e pós-graduar em engenharia de concatenação estelar!
são novos horizontes!