Não foi sempre assim, cresceu como uma criança normal. Feliz, até. Mas, lá por volta dos dezessete anos, por algum motivo que morreu sem saber qual, os deuses decidiram amaldiçoá-lo. E, desde então, tudo o que ele tocava virava cinzas.
Não ouro, nem prata. Nada que você pudesse ao menos trocar por prazeres fugazes, mas cinzas.
Estava em seu quarto, foi ensaiar um pouco o baixo, que tocava bem até. Não era magnífico, mas feliz. Naquele dia, porém, não foi nem um nem outro. Mal tocou no instrumento, e tudo despedaçou-se em suas mãos numa poeira cinzenta e escura. Não queimou, não aqueceu. Apenas tornou-se em cinzas. Os pais o acharam duas horas depois, quando o ouviram chorando no quarto. Estava nu, no centro do quarto, abraçado a si mesmo. Desesperado, havia transformado tudo em cinzas. A cama, o roupeiro, a luminária, as próprias roupas…
E assim começou a maldição de Henrique
Com o tempo, aprendeu a viver com isso. Não sem dificuldades. Mas, ao tentar enforcar-se, a corda desintegrou-se. O mesmo aconteceu com a arma, que não tinha saído barato. A família tirou de seu alcance todas as substâncias que pudesse usar para se envenenar. E não o deixava sozinho em sacadas de prédios ou qualquer coisa que pudesse lhe dar idéias. Enfim, aprendeu a viver, se é que se pode chamar isso de vida.
Também não se recusaram a arrancar suas mãos. Ele implorou para que o fizessem, mas ninguém teve coragem de libertá-lo.
Descobriu como passar dias inteiros, semanas, uma vida sem tocar em qualquer outra pessoa. Descobriu, pela pura observação, que muitas pessoas faziam isso também. E isto sem ser amaldiçoadas. As odiava profundamente por desperdiçarem tamanha dádiva diariamente.
Comer sem usar as mãos, vestir-se sem usar as mãos, abrir portas sem usar as mãos… Com o tempo, tornou-se natural. Eventualmente, esta ou aquela camiseta, ou um copo, eram destruídos, mas eram incidentes isolados. No entando, eram o bastante para que ele não se atrevesse a amar. Um deslize seria traumatizante. Além de criminoso. O que, aliás, foi outra coisa que teve de conter. Pois, em vista de sua condição, muitas vezes via-se tomado de ódio verdadeiramente assassino contra este ou aquele indivíduo. E saciar este ódio seria tão simples…. e tão simples convencer a todos que havia sido um acidente…
Mas resistiu bravamente, não que se sentisse feliz por isso.
Certa vez, ao cortar o cabelo, percebeu que os fios que caíam não eram mais parte dele. Ao pegar um dos fios que caíram no chão, viu-o esfarelar-se. Tomado de curiosidade sobre seu poder, pediu à irmã que montasse um quebra-cabeças. Tocou em uma das peças, e todas viraram cinzas. Pediu que ela montasse outro, deixando as peças da borda apenas um pouco encostadas. Este também virou cinzas por completo. E pediu que ela montasse outro. Conforme progredia com o experimento, foi tendo uma vaga idéia do que separava a peça do todo do quebra-cabeças. Achou aquilo uma interessante expericência sobre o Universo em si… não que aquilo o ajudasse em sua condição, mas o entretia. Começou a montar quebra-cabeças para passar seu tempo livre. Era uma tarefa difícil, montá-los sem as mãos. Mas, claro, também acabou por dominá-la.
Feliz, acabou nunca sendo. Mas a apatia e complacência acabaram por preencher esse vácuo em seu espírito. Vivia apenas porque, quaisquer que tenham sido os deuses que decidiram amaldiçoá-lo, não tiveram a decência de lhe dar o dom de acabar com a própria miséria.
Com a dos outros, contudo…
Certa vez, uma velha senhora bateu-lhe à porta. Contou-lhe suas mazelas. Os deuses a tinham amaldiçoado de forma mais sutil, deram-lhe uma vida quase que normal. Exceto por aquele ano, no qual filho, neta e nora, haviam morrido num acidente de carro. Descubriu-se enferma de diversas maneiras, inclusive não parou de tossir sangue em Henrique. Não tinha mais família ou amigos. O que lhe restava seria ver a doença sugando-lhe a vida aos poucos… ela ouvira falar no poder de Henrique (foi esta a palavra que usou “poder”) e pediu que ele o usasse nela.
Certamente, ele resistiu, mas por mais que tentasse dissuadir a velha senhora, não conseguia demovê-la. Ela, inclusive, acrescentou que não fazia questão de ser enterrada em qualquer lugar, que ninguém sabia que ela tinha ido até ele e que ele não teria sequer que esconder o corpo, bastava abrir a janela.
E, após horas de discussão, ele aceitou. E a senhora despediu-se do mundo com um “obrigado” e lágrimas nos olhos.
Mas, talvez as cinzas da senhora tenham sussurrado nos ouvidos de todos aqueles que não viam motivos para permanecer neste mundo, a história não acabou por aí… E Henrique tornou-se libertador de multidões de sofredores. Conversava com todos, tentava dissuadí-los. Alguns iam embora, outros recebiam o descanso eterno. Não negaria aos outros o que ele mesmo gostaria de receber.
Foi difícil quando a mãe veio procurá-lo... Ficou ressentido da hipocrisia daquela mulher que se recusara a arrancar-lhe as mãos para acabar com o sofrimento dele e agora queria perder a vida para acabar com o dela. Mas, mais uma vez lutou contra seu próprio ódio e cedeu. Publicamente, todos fingiam que não sabiam o que ele fazia. Mas, com tempo, percebeu que as pessoas sempre se calavam quando ele passava por elas, como se fosse um anjo da morte.
Até que um dia, já bem idoso, veio o verdadeiro anjo da morte para levá-lo. E, ao menos nisso, os deuses se compadeceram dele e o tiraram deste mundo sem sofrimento…
E não foi enterrado, mas cremado. E juntou-se à obra de sua vida, com todas as suas tão odiadas cinzas. E já hoje é impossível de separar as cinzas de Henrique das cinzas de suas obras.
quinta-feira, 25 de agosto de 2011
O Amaldiçoado Henrique
Postado por
ADO
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5 Demonstrações de Atenção:
Texto incrível cara, adoraria ilustra-lo...poderíamos publica-lo juntos...ele é muito imagético..pensa aí...
O problema de Henrique foi pensar que ele e suas cinzas algum dia foram coisas diferentes.
um dos mais legais :)
Simples, denso, profundo... o meu preferido até então. Gostei mesmo! Me lembrou Lya Luft, Virgia Woolf, Sylvia Plath, Marguerite Duras e Nietzsche! XD
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