terça-feira, 12 de julho de 2011

A Estátua

O apito do trem quebrava a paz dos inúmeros picos gelados. Era um dia atipicamente quente para o inverno e o sol agraciava o caminho dos trilhos de forma constante, mas não intensa. Eu checava anotações em minha agenda, tentando ignorar o choro de um bebê que, apesar de estar em outro vagão, chegava estridente aos ouvidos.

– Faltam cerca de duas horas. – informou-me Schifelli, que não conseguia ficar quieto por muito tempo.

Schifelli era um rato. Naturalmente, um rato antropomórfico, claro. Senão não falaria. Acham que eu sou louco? Ele vestia uma casaca verde e um colete cinza, combinando com um chapéu-côco e arrematado com um pincenê de aro prata que aumentava exponencialmente seus olhos maldosos. Sem dúvida, era uma companhia desagradável. Mas eu não conseguia me livrar dele desde que chegara naquele estranho país. Eu já não sabia quem estava acompanhando quem na viagem.

– Você vai gostar desse lugar… – continuou Schifelli, totalmente alheio ao fato de que eu estava mais interessado em minhas anotações do que em qualquer coisa que ele tinha a dizer – Tavit é famosa por seus encantos. Pequenos encantos, dizem, em todos os cantos da cidade. É pequena, mas rica e próspera. Dizem, ainda, que se você encontrar as sete relíquias sagradas que se escondem na cidade, você ganha um doppelgänger!

– O que eu faria com um doppelgänger? – perguntei, sem tirar os olhos da agenda.

– Lutar com ele, acho. – Schifelli deu de ombros.

Dessa vez, tive que tirar meus olhos da agenda.

– Por que eu faria isso?

– Se você ganha do seu doppelgänger, você se torna invencível. Você nunca ouviu falar disso?

– Não! Quem foi que inventou isso?

– É uma crença muito popular por aqui! Se você vence do seu doppelgänger, quem será capaz de derrotar você?

– Faz sentido, mas não sei se eu quero lutar com meu doppelgänger…

Schifelli levantou-se de seu acento, encarando-me como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.

– Por que não? Você não quer ser invencível?

– Não sei se quero. Mas o maior motivo é o seguinte, – virei-me para ele, olhando fundo em seus olhos, tentando controlar o mal-estar que isso me causava – o que acontece se você perde a luta?

– Você morre. – respondeu ele.

– Pois então, – e voltei à minha agenda – não estou pronto para lutar com meu doppelgänger. Mesmo que eu quisesse ser invencível.

Nessa hora entrou um flamingo desengonçado (antropomórfico, claro) conferindo os bilhetes. Ao passar do vagão anterior para o nosso, pude ver que era um bebê hipopótamo que chorava, a bocarra aberta, o rosto avermelhado. A mãe balançava-o gentilmente para fazê-lo parar, a impaciência no rosto. O flamingo perfurou nossos bilhetes e, quando ia seguir em diante, foi puxado de volta por Schifelli.

– Deixe-me fazer uma pergunta. Você gostaria de achar as sete relíquias de Tavit e lutar contra o seu doppelgänger?

– O quê? – o flamingo estava meio desorientado. Não creio que era muito acostumado a levar uma conversa muito além de “bilhete, por favor”.

– A lenda das sete relíquias de Tavit. – Schifelli não tinha muita paciência, isso transparecia em sua voz toda vez que tinha que repetir uma frase a alguém – Conhece?

O flamingo balançou a cabeça freneticamente. Estava obviamente nervoso com aquela conversa não-rotineira.

– Pois então. Você não deseja ardentemente encontrá-las para poder vencer o seu doppelgänger e alcançar a invencibilidade?

O flamingo piscou uma, duas, três vezes. Eu prestei o máximo de atenção que pude à minha agenda, fingindo que não conhecia o obcecado rato. Eu não me importava a mínima se outras pessoas queriam ou não derrotar seus doppelgängers, eu sabia que não era pra mim. Não agora, pelo menos… O flamingo conseguiu apenas responder com alguns “humms” e “bem”…

– E então? – insistiu Schifelli.

Os olhos esbugalhados do flamingo iluminaram-se instantaneamente. Ao ver alguma coisa atrás de mim, do lado de fora da janela. Com um sorriso, ele disse:

– Desculpe, mas já estamos nos aproximando de Tavit. – e apontou a janela – Tenho muitos bilhetes ainda. para checar.

E saiu, antes que o meu insistente companheiro pudesse pressioná-lo mais ainda. Olhamos para a janela. Apesar de nunca tê-la visto em pessoa, e apenas poucas vezes em fotos, pude reconhecer, surgindo entre alguns montes verdejantes, a torre cinzenta da Catedral de Santa Flor do Condado. Imponente, porém simpática, refletindo o espírito da cidade de Tavit, pelo que me descreviam. Senti grande alegria apenas pela expectativa de poder me afastar um pouco de Schifelli assim que saísse do trem.

– Mas já? – protestou Schifelli – Achei que ainda faltava muito para chegarmos à cidade! Nem fui ao vagão-restaurante!

Tirei o meu relógio de bolso em estilo russo imperial do bolso da calça. Olhei a hora e, distraído com a visão da torre, mal notei que tentei guardar o relógio no meu colete, provido apenas de bolsos falsos.

– Já faz dez horas que deixamos a estação de Nihil, – “dez longas horas”, pensei, enquanto falava – o trem está no horário.

– No horário o caramba! – ele gritou – Não faz nem quarenta minutos que passamos por Villa Dolores! Villa Dolores é a uma hora de Tavit!

– Que seja, Schifelli…

E, quando eu disse isso, o trem entrou em um túnel. Quando saísse, já estaríamos na cidade.

***

Com cerca de cem mil habitantes, Tavit não parecia ter sido um dia uma das cidades mais poderosas da região de Ive. Mas a profusão de fontes, praças, estátuas e prédios bem decorados na cidade davam pistas de seu passado glorioso. Já eram cerca de cinco da tarde quando desembarcamos. O sol já não se mostrava tão terno. As pessoas corriam atarefadas de um lado para outro. Todos os tipos de pessoas. Pingüins, gatos, lobos, ratos, dodôs, flamingos, texugos, até um ou dois homo sapiens. Estes eram poucos. Era impossível não se sentir deslocado naquele lugar. Percebi, porém, que embora houvessem poucos humanos em comparação com a quantidade de animais antropomórficos, as relação de qualquer animal antropomórfico para a população total era basicamente a mesma. Em suma, eu e um pingüim teríamos a mesma dificuldade para encontrar um semelhante.

Era, sem dúvida, o que eu pensava. Mas não era o que eu sentia.

Não importa o quanto eu reforçasse o argumento em minha mente. Continuava a me sentir deslocado. Mas a sensação de deslocamento duelava com a sensação de fascínio. A exuberante cidade e sua exuberante população me fascinavam. Aquela fachada barroca, aquele poste neo-clássico, esta morsa de fraque… Nunca estivera eu em um lugar tão incrível e tão distante.

E Schiafelli não calava a boca:

– Se você não quer procurar as relíquias, por que veio afinal? – dizia ele uma hora.

– O problema é que ninguém sabe como as relíquias são. Se você procurar, não vai achar. As pessoas tentam há séculos. Mas, mesmo assim, é idiota deixar escapar uma chance dessas! – dizia em outra hora.

E se metia em discussões com os transeuntes, pelos motivos mais diversos e tolos. Acreditava firmemente que cada esbarrão, em toda aquela multidão, era proposital. Todos queriam estragar seu dia, segundo ele. Embora não quisessem fazê-lo, e sequer se importassem com isso, completos estranhos acabavam estragando seu dia de qualquer maneira. Simplesmente porque ele permitia que seus dias fossem estragados.

Após a quinta discussão, passei a ignorá-lo e a não esperá-lo. Apertei o passo. Indo em direção nenhuma. Carregava pouca bagagem e queria conhecer a cidade antes de ir para o hotel. A noite começou a cair, as vitrines das lojas brilhavam. O esplendor dos produtos locais, das ruas iluminadas era inebriante.

– Espere! – gritou Schifelli, quando me afastei um pouco demais dele – Você, que não é fã de emoções fortes e tem gostos… francamente, estranhos… vai gostar disso.

E indicou-me um prédio de tijolos com grandes vitrines, que brilhavam num tom amarelo aconchegante. Letras imensas em mármore branco sobre a fachada exibiam as letras “T.W.”.

– Theophile White – explicou Schifelli – é um dos mecenas da cidade. Está loja tem os melhores artigos de porcelana e cristal produzidos pelos melhores artesãos residentes na cidade. Pessoas vêm do mundo todo para estudar nos ateliês sustentados por ele. E as peças são vendidas aqui. Um autêntico produto de Tavit.

Não pude deixar de me sentir ofendido pelas declarações de Schifelli. Mas o fato é que em eu realmente me interesso pela produção local quando estou em viagens. E os artigos de porcelana eram realmente impressionantes. Ao entrar na loja, parecia que eu tinha entrado em outro mundo. Mais aconchegante, certamente mais calmo, aquela loja era um deleite para os olhos. Belas estátuas de porcelana, bules, xícaras, caixas, pratos… Havia uma águia de porcelana em uma prateleira, tão perfeita que parecia se mover. Cheguei a acariciar sua cabeça, com um pouco de medo de que ela se movesse. Havia, inclusive, uma réplica da Catedral de Santa Flor do Condado perfeita em todos os detalhes.

– Deseja alguma coisa, senhor? – perguntou uma morsa bem-vestida, aproximando-se de Schifelli. Trazia um discreto crachá dourado com o nome “Surmon Chemin”. Trazia a atitude mista de subservência e arrogância típica que funcionários de lojas elitistas.

– O meu amigo forasteiro aqui, – respondeu Schifelli, apontando-me – está muito interessado em adquirir algumas de suas peças.

Surmon observou-me de cima abaixo. Certamente duvidando que eu tivesse dinheiro para comprar qualquer coisa. Sinceramente, eu também duvidei. Mas não ia deixar que uma morsa insolente me deixasse sair dali sem qualquer artigo.

– Deseja alguma coisa de algum artista em especial… – Surmon fez questão de mostrar que a próxima palavra seria dita apenas por questão de protocolo – …senhor?

– Humm… – pensei, de fato não me lembrava do nome de qualquer um dos artistas das finas obras de porcelana de Tavit – Não tenho nenhum em mente.

Ele arqueou as sobrancelhas, em atitude de desprezo.

– Muito bem. Então… o que está procurando, exatamente? Algo de porcelana, ou talvez uma das obras de cristal?

Sobre isso, eu tinha opinião, o que fez com que eu me sentisse muito bem comigo mesmo:

– Porcelana, por favor. Nunca gostei muito de cris--

Não cheguei a terminar a frase, por notar uma das obras que estavam atrás de Surmon. Uma estátua de cristal, no centro de uma sala. Como eu disse, nunca fui o maior entusiasta de cristais. Admitia a suas qualidades, mas eu preferia as porcelanas. Mas aquela estátua era incrível. Representava Castor e Pólux, os gêmeos da mitologia grega, sobre um cavalo em direção a uma estrela, representando a catasterização. Não era uma estátua perfeita, veja vem, mas perfeitamente bem executada. Ela atraía o olhar, mas não o chocava. Era suave. E estranhamente equilibrada. Parecia que uma brisa qualquer seria capaz de derrubá-la, mas nenhuma jamais a havia derrubado, é óbvio.

Sem falar qualquer palavra, caminhei até a estátua. Observei seus detalhes, a expressão no rosto dos gêmeos, do cavalo de Castor, a forma como a base da estátua elevava-se para se tornar a estrela de forma tão orgânica… Em frente, uma etiqueta trazia o nome do autor da obra, “Czarc”. Coloquei minha mão sobre a crina do cavalo, que parecia balançar ao vento, envolvi seu pescoço com a mão e meus olhos foram atraídos pela expressão de serena alegria expressa no rosto dos gêmeos. Felizes pela decisão de Zeus de transformá-los em uma constelação, a fim de que o companheirismo dos dois não fosse destruído pelo fato de que apenas um possuía a imortalidade.

Distraí-me observando seus rostos e, nessa distração, pressionei demais o pescoço do cavalo.

E a estátua quebrou-se.

Demorei a perceber o que eu fizera, embasbacado enquanto via a rachadura espalhar-se e a estátua desmoronar à minha frente.

– O que você fez? – gritou Surmon.

– Eu! Eu não queria…

– Mas você fez! – berrou Schifelli.

Percebi que, ao quebrar a estátua, eu tinha cortado minha própria mão. Era um corte pequeno. Minúsculo até. Mas sangrava. O primeiro impulso de qualquer um é a sobrevivência, claro, então lambi o sangue e corri para o banheiro da loja, onde enrolei uma longa faixa de papel higiênico na mão. O curativo fazia parecer que eu tinha sofrido um grave ferimento na mão, mas eu não pensei muito nas aparências e voltei logo ao saguão, onde Schifelli observava enquanto Surmon e uma atendente que não sei de onde surgiu juntavam os cacos.

– Eu sinto muito… Eu… posso pagar… creio…

– Pagar não vai trazer a estátua de volta! – guinchou Schifelli.

Abaixei-me para juntar os cacos. Mas Surmon afastou-me.

– Deixe que nós cuidamos disso!

– Mas eu quero ajudar!

– Não acha que já fez o bastante? – disse o rato, me puxando pelo braço.

– Acho que seria bom se vocês fossem embora. – disse a morsa, de forma seca.

A atendente parecia simpatizar com a minha dor, e não me dirigiu qualquer palavra dura. Mas, na situação em que me encontrava, achei melhor partir mesmo.

– Nossa, você foi idiota mesmo! – comentou Schifelli, mostrando sua incrível empatia quando saímos para o ar gelado da noite – No que você estava pensando? Sério! O que você tem na cabeça? Sabe que aquela obra de arte era única, não é?

Não pude responder. Fomos ao hotel. Schifelli garantiu-me que aquele hotel tinha o melhor restaurante da cidade. Pode ser que fosse verdade, mas não consegui degustar a janta. Ouvi depois de outras fontes que aquela era, definitivamente, a melhor cozinha de Tavit. Mas tudo me pareceu insosso. E toda vez que eu olhava para minha mão, agora livre do curativo, com o pequeno corte à mostra, eu me sentia nauseado. Se alguém destrói o Davi de Michelangelo, acho que o mínimo que pode fazer é abstrair-se de apreciar qualquer obra de arte por um tempo. Como penitência por privar a humanidade de apreciá-lo pela eternidade.

Seria mentira dizer que não dormi naquela noite. Dormi, mas não descansei de forma alguma. E já estava de pé pouco depois do nascer do sol. Schifelli também acordou, por pura coincidência, e insistiu em acompanhar-me quando eu pus-me de novo a caminho da loja de porcelanas T.W, sempre me lembrando do estrago que eu causara na noite anterior. A loja era bastante diferente naquela manhã, antes de ser aberta, em meio à névoa e totalmente escura por dentro. Tentei divisar o lugar onde ficava a estátua, mas não consegui. Schifelli, depois de me lembrar mais trinta vezes do meu erro, me convenceu que nós precisávamos de um bom café da manhã. Novamente, não senti o gosto da comida. E passei a refeição toda olhando para a minha mão, aquele corte acusador. Lembrando-me de um erro tão terreno e banal do qual eu tanto me arrependia…

Pois enfim, quando retornamos à loja e ela estava aberta, Surmon Chemin nos recebeu com um “vocês aqui de novo?”, mas não prestei atenção. Os fragmentos da estátua tinham sido colados um a um. Ela estava remontada no mesmo lugar que estava na noite anterior. Eu sabia que era a mesma, mas era possível ver os maus bocados pelos quais ela passara. As rachaduras visíveis, o aspecto de fragilidade ainda lá. O rosto alegre e sereno dos gêmeos. A suavidade recortada pelas marcas das rachaduras e da cola. Ainda assim, era uma belíssima estátua.

– Eu vou levá-la. – eu disse.

– Sinto muito. – respondeu Surmon, que não sentia muito porcaria nenhuma – Ela vai a uma exposição que o senhor Theopilhe White está patrocinando na cidade de Gonel.

– Vocês vão deixar que ela seja exibida assim? – protestei.

– Já estava agendado. – respondeu a morsa, sem qualquer emoção além da constante reprovação de minha presença ali.

– Eu compro a estátua! – repeti – É sério! Eu ainda quero levá-la! Eu compro!

– Sinto muito, mas a estátua vai embora hoje.– repetiu Surmon.

– E mesmo que não fosse, André. Acho que você não é bem-vindo aqui. – disse Schifelli, que estava já se cansando dessa história toda.

Desanimado, dei uma última olhada na estátua. E saí da loja.

– Vamos embora. – eu disse para Schifelli, a voz quase não saindo.

– Mas você nem procurou as relíquias!

– Eu não quero as relíquias! Hoje, especialmente, eu me sinto vulnerável de mais para tentar ser invencível…

Schifelli deu de ombros.

– Tudo bem. Você que perde. É idiotisse sua. Podemos ir para Paolerg Troe é a capital dessa região! É bem interessante! Fica a pouca distância de Gonel, então se quiser ver a estátua de novo…

E caminhamos… Eu e Schifelli. O pior companheiro de viagem que alguém pode ter. No entanto, alguém que se recusou a me deixar.

Maldito seja.

4 Demonstrações de Atenção:

Fantasma Misterioso. disse...

Acho que tu tá falando da nossa amizade ¬¬

cazandreh disse...

O texto ficou muito bom... Mas os estratagemas são intencionais ou é conotação inconsciente?

Thais disse...

Vou começar a deixar o bigode crescer...

C. disse...

O nome mais casto, laico e apropriado é realmente "Schifelli" :<
Belo texto, André...