quarta-feira, 1 de junho de 2011

Engenharia

Queria ser poeta, mas não conseguia. O espírito era capaz de unir as palavras em perfeita melodia e sincronia, mas elas se atravancavam na hora de virar tinta sobre papel. As idéias jamais se tornavam fatos.

– Invido.

Decidiu-se pela Engenharia. Em Geometria Analítica obtinha resultados muitos mais belos do que em poesia. Expressava-se pela eterna tentativa de obter o maior desempenho possível de qualquer projeto.

– Quero.

Até porque, pensava ele, poetas não vivem muito. Nem bem. Intensamente, sim. Bem, não. Era melhor ser engenheiro. Pelo menos era algo que sabia fazer.

– Canta.

Às vezes, pegava-se olhando para um canto em branco de uma página que, tirando aquele pequeno fragmento, estava coberta por uma equação. Escrevia ali o esboço de um sentimento. Da forma mais sincera possível. E então parecia tolo. E ele apagava e colocava no lugar uma regra de três, mesmo que não precisasse de uma regra de três ali.

– Vinte e nove.

Não que não fosse feliz na Engenharia, mas parecia-lhe que algo faltava. Algo que fosse só dele. Algo que não poderia ser descrito em qualquer equação matemática. Algo que não pudesse ser projetado. Algo que fosse simplemente feito.

– É bom.

Mas, quando  o fazia, sentia que não era dele mesmo. Reconhecia-se, é claro, no que escrevera. Mas envergonhava-se. Como quando você se olha no espelho e percebe que engordou demais. Era isso que ele via, um gordo e desajeitado engenheiro fingindo ser poeta.

Não que fosse gordo, mas enfim…

– Joga.

Às vezes pegava-se lendo uma poesia e pensando “eu queria conseguir escrever algo assim”. E pensava se o Neruda, por exemplo, um dia teria olhado para uma ponte e pensado “eu queria ter projetado algo assim”. A resposta era não. Um barco, talvez. Em se tratando do Neruda… Mas não uma ponte.

– Faz essa, Alana.

E então desesperava-se ao pensar em qual seria seu legado. Ninguém se importa com pontes, ou estradas. Não importa quantas vezes por dia as pessoas as usem. Não importa o quão mais fáceis as coisas se tornem com pontes, ou estradas ou ferrovias. Todos as usam, ninguém se importa.

– Era essa a tua mais alta?

Então, dividia-se. Entre ser bem-sucedido fazendo uma coisa que amava, ou ser um fracasso monumental fazendo algo que almejava. Sentia-se idiota só de fazer-se essa pergunta.

– Eu te cutuquei por baixo da mesa! Eu não tenho nada!

Mas, por mais tola que fosse a pergunta, era preciso fazê-la… Para não se arrepender depois.

– Tu não me cutucou!

Seria feliz sendo um engenheiro?

– Cutuquei sim!

Sendo um poeta?

– Na verdade, tu me cutucou! Tu não cutucou ele!

Talvez… sendo um advogado?

– Ah, isso explica…

Mas, naqueles momentos de intervalo, jogando truco com os amigos, isso não lhe passava pela cabeça. Não se preocupava com o que seria. Sequer se preocupava em ser.

Apenas era…

6 Demonstrações de Atenção:

Bruna Caldart de Mello disse...

Adorei, Dedé! Adorei mesmo, me reconheci de levinho no meio de tudo.

Andrade disse...

Não é aceito, porra, é quero! fraco

Felipe Vargas disse...

Por isso eu vo fazer uma armadura de ferro que voa.

Andrade disse...

Eu sempre vou saber.

Ian Lehmann disse...

e vai dar a armadura pra mim.

Felipe Vargas disse...

Eu vou ter que fazer a armadura com pancinha?