terça-feira, 14 de junho de 2011

A Criatura Atrás da Porta

Eu estava enrolado em uma daquelas mantas quentes e macias que nos ajudam a esquecer dos sofrimentos do inverno. Seria bem mais eficiente se o gato estivesse em meu colo, ao invés de observando o mundo cinza, frio e ventoso pela janela. Um espirro meu fez com que ele se sobressaltasse e me lançasse um olhar assutado.

– Desculpe. – eu disse, em tom sarcástico, de que adianta ter um gato se ele se recusa a te esquentar um pouco no inverno?

– Tudo bem. – disse Pantufa, a voz tremendo.

– Eu não queria te assustar.

– Eu não me assustei… Eu só estava distraído…

– Então eu te assustei porque você estava distraído.

– Que seja… – disse ele, e voltou a observar a janela.

Uma rajada de vento agitou os vidros da janela. Pantufa oriçou-se. Eu espirrei de novo.

– O que tem de tão interessante pra ver nessa janela, afinal? – perguntei.

– O que tem de tão interessante ficar sentado no sofá enrolado numa manta?

– A culpa não é minha. Eu estou gripado! Eu tinha planos pra essa noite, mas a gripe me fez ficar aqui…

Pantufa saltou do parapeito da janela e ficou de frente pra mim no tapete da sala. Soltou uma risada felina.

– Planos! Odeio planos, sempre nos baseamos nos planos e achamos que a vida os atrapalha quando eles não dão certo! Mas na verdade são os planos que atrapalham a vida! Planos! Oras…

– O que você sabe sobre fazer planos?

– Eu já tive planos, não pense que não! – ele respondeu, sério – Já pensei em me acalmar, achar uma companheira e ter filhos e viver uma vida pacata e feliz… Mas os planos não aconteceram! Agora eu vivo uma vida bandida e feliz…

– Não sabia que os gatos eram capazes de fazer planos.

– Tem muitas coisas sobre gatos que você não sabe. E tem muito mais sobre mim que você não sabe!

– Só o que eu sei é que eu poderia estar em outro lugar agora… Se o plano tivesse dado certo…

– Ah é? Onde você estaria agora?

Suspirei.

– Definitivamente, eu não estaria atochado de remédios, enrolado numa manta e conversando com meu gato agora…

Olhei para o teto e perdi-me imaginando onde eu estaria… Todas as possibilidades, não tivesse essa gripe se colocado em meu caminho. Tudo por causa de uma gripe, droga! Algumas das possibilidades me apertavam o coração… Este ou aquele “se” mexiam comigo mais do que eu estaria disposto a admitir…

Eu teria divagado mais, não tivesse naquele momento vindo um estrondo grave de dentro do meu quarto. Como se um mamute tivesse caído no chão.

– O que foi isso? – perguntei, sobressaltado.

– Eu não sei… mas não é bom… – sussurrou Pantufa.

– Por que você está sussurrando?

– Porque algo grande e inesperado acaba de aparecer. E não quero chamar a atenção desse algo até que eu descubra exatamente o que é…

– Bem pensando… – sussurrei de volta.

Levantei-me do sofá e dirigi passos lentos e cautelosos em direção ao meu quarto. Pantufa caminhava entre meus pés. A porta do meu quarto estava fechada.

– Eu deixei a porta fechada quando saí?

Pantufa fez que não com a cabeça. Seus olhos amarelos arregalados. Houve um novo baque, e a porta tremeu.

– Tem alguém aí? – gritei.

A porta tremeu violentamente de novo. Parecia que um gigante estava pisando no chão com força, apenas para nos dar medo.

– O que você quer?

E o suposto gigante pulou, gritou, debateu-se. O chão tremeu e eu caí no chão. Pantufa perdeu-se dentro da manta na qual eu me enrolava. A porta continuava fechada. Os quadros da parede ainda estavam no lugar. O mundo não tinha se alterado, apenas tremido, chacoalhado. Todo ele, no mesmo ritmo, menos eu e Pantufa, ao que parece.

– O que você fez? – gritou Pantufa, tentando achar alguma saída da minha manta.

– Eu não fiz nada! Ele é que nos atacou!

– O que é “ele'”?

– Ele, oras! A… a coisa lá dentro!

– Deixe ele em paz!

– Mas ele invadiu meu quarto!

– Ignora que ele vai embora! – gritou Pantufa, finalmente mostrando os pequenos triângulos de suas orelhas numa das bordas da manta.

– Mas… mas…

– Ignore-o!

– Mas ele nos atacou sem motivo! Ele está sendo irracional!

E a coisa urrou lá dentro, algo como o urro de um touro, ou de um urso, sei lá. Mas me gelou a alma. E pude sentir uma brisa quente em meu rosto, como se atravessasse a porta fechada, sem o menor problema.

– Olha, seja lá o que isso for, apareceu do nada e vai sumir do nada. É só esperar… Não dê mais assunto a ele. – disse Pantufa, da forma mais calma e serena que pôde.

– Eu não quero que ele suma do nada! Eu quero que ele suma agora!

E o chão voltou a tremer…

***

Acordei com a língua áspera de Pantufa raspando meu rosto. Estava ainda atirado no chão, embolado na manta, sentindo frio.

– O que houve? – perguntei, desnorteado.

– Você apagou e caiu no chão. Nada sério. – ele disse, a voz tremendo. Os olhos arregalados. As orelhas atentas.

– O quê? Só isso?

– É. Esperava algo mais?

– Não… sei lá… como eu pude simplesmente cair no chão?

– Anemia! – ele gritou, prontamente – Vamos, levanta e vamos pra sala.

– Quer dizer que eu só sonhei que havia alguma coisa no quarto?

Ouvi um suave ronronar. Uma suave vibração percorria meu corpo, como se todo ele formigasse.

– É! Sonho! Vamos, levanta! Não pensa nisso! Quer ver um filme? Vai passar Huckabees  no 72.

– Nós vimos Huckabees semana passada… – disse eu, terminando de me levantar. E olhei pra frente – Por que a porta do quarto está fechada?

– Quê? Ah, a porta! Você deixou fechada. Vamos, já vai começar o filme!

Foi então que eu percebi: o ronronado, a suave vibração, não vinham de Pantufa. Vinham do outro lado da porta.

– Eu só quero ver uma coisa… – disse eu, enquanto girava a maçaneta.

– Não! – gritou Pantufa.

E tudo tremeu de novo. Tentei fechar a porta, mas a coisa do outro lado tentava abrir.

– Você disse que era um sonho!

– Eu também disse pra não pensar sobre isso!

A coisa e eu lutávamos para decidir o estado da porta. No momento, nenhum cedia. Mas eu sentia que ela viria a ganhar pelo cansaço.

– O que é essa coisa, afinal?

– Como eu vou saber? Está no seu quarto!

A fresta aumentou um pouco.

– Mas não fui quem a trouxe!

– Então como ela entrou, gênio? As janelas estão todas trancadas!

– Me ajuda a fechar a porta!

– Eu? Eu não tenho polegares!

A fresta aumentou ainda mais. Já era possível discernir os contornos dos móveis no interior do quarto.

– Essa coisa vai abrir a porta!

– Não pense nessa coisa!

– Como eu vou não pensar nessa coisa?

A fresta aumentou o suficiente para minha cabeça passar.

– Apenas não pense!

– Mas ela está puxando!

– Quando você me conheceu, qual era a cor da sua camisa?

–  Quê?

–  A cor da sua camisa! –  repetiu Pantufa –  Qual era?

–  Como isso pode ser importante?

–  É importante para mim!

–  Essa não é a mlehor hora, Pantufa!

–  Qual era?

–  Dá pra ser depois?

–  Você nunca tem tempo pra mim! –  protestou Pantufa, arranhando minha perna.

–  Isso dói, caramba!

–  Não tanto quanto em mim! Você não lembra qual era a cor da sua camisa quando me conheceu! Eu não sou importante pra você!

–  Do que você está falando? Claro que você é importante pra mim!

–  Então qual era?

–  Era… eu não me lembro!

–  Claro que lembra, pensa!

–  Era… era…

–  Vamos!

–  Cinza?

–  Sei lá. Acho que era… –  disse Pantufa.

Foi então que eu percebi que, nesse meio tempo, eu tinha fechado a porta e soltado a maçaneta sem querer. Apenas batidas erráticas, de algo não maior que um punho normal, vinham do outro lado da porta. Sentei-me no corredor.

–  Boa jogada. –  eu disse, suspirando.

–  Obrigado. –  disse Pantufa.

E pulou no meu colo. Afaguei sua cabeça. Ele ronronou. E dessa vez o ronronar vinha dele mesmo. E as batidas diminuíam.

***

Eu não tenho certeza de que horas eram quando acordei, mas algo me fazia crer que eram cerca de três da manhã. Aquela estranha sensação de ser a única pessoa acordada enquanto o mundo inteiro dorme. Estava ainda limpando o sono de minha mente… Pantufa ainda dormia em meu colo. Minha mão ainda estava sobre sua cabeça. Eu ainda estava sentado no corredor e…

… a porta ainda estava fechada.

Assim que este pensamento me veio à mente, tentei substituí-lo por um outro qualquer. Joguei a porta, meu quarto e a criatura que se escondia nele para um canto mais escuro da mente, enquanto tentava com o máximo de esforço citar o maior número de pokémons que eu era capaz de me lembrar.

Foram cerca de trinta, não muito mais do que isso, quando Pantufa acordou. Seus olhinhos ainda meio-fechados, ele me perguntou:

– Já é de manhã?

–  Não. –  respondi –  Ainda é madrugada.

–  Então ainda vou ter que esperar até que você faça café?

Olhei para ele, sorrindo.

–  Você não toma café!

–  É, eu sei. Mas eu gosto de quando você faz café. Gosto do cheiro… Me traz lembranças…

–  Tudo bem, vamos tomar um cafezinho então…

Levantei-me e Pantufa saltou do meu colo. Passos felinos ágeis me guiaram até a cozinha. Esquentei a água e fiz um café, servi um pires de leite para Pantufa. Ficávamos em silêncio, exceto quando a criatura do quarto ameaçava voltar à mente. Aí puxávamos qualquer assunto. Trivialidades. O tempo, o fato de o café estar bom, essas coisas. Mas a criatura sempre ameaçava voltar quando ficávamos muito tempo em silêncio.

–  Já chega! Vou dormir na minha cama! –  eu disse, batendo com as mãos na mesa.

–  O quê?

–  Eu vou lá e vou abrir a porta! –  levantei-me e fui para o corredor.

–  Não! Você não pode!

–  Olhe só! –  disse eu, parando em frente à porta – Eu estou pensando nisso, e ainda assim está silencioso lá dentro! Não tem mais nada aqui!

–  Não! A porta do quarto se fechou sozinha para impedir que essa coisa saísse! Ela vai abrir quando for a hora!

–  Isso não faz sentido!

–  Olha, eu sei que não faz… Mas a coisa está aí, e cada vez que você ameaçar soltá-la, vai ficar mais difícil prendê-la! Espere até que ela morra aí dentro e a porta vai se abrir sozinha!

Meneei a cabeça.

–  Olha, eu estou doente, com frio e cansado. Eu só quero dormir e, francamente, estou cansado de lutar com essa coisa. Ela nem deve estar mais lá…

–  Talvez, mas ela vai estar quando você abrir.

–  Eu estou cansado demais para me importar.

–  Não diga uma coisa dessas. –  disse Pantufa, friamente.

Toquei a maçaneta e, antes que eu pudesse reagir, a porta explodiu em milhares de pedaços. Caí prostrado no chão. Pantufa miou de dor. Tentei levantar, mas não conseguia me mexer. Vi um periquito azul nervoso sair voando do quarto.

–  O que houve? –  perguntei, ainda sem poder me mexer –  O que está acontecendo?

–  Acho que você conseguiu, cara. –  disse Pantufa –  Você enlouqueceu de vez!

3 Demonstrações de Atenção:

cazandreh disse...

Eita, bom pra caramba. haha,pensando no pássaro, me chamaram de Calapsita ontem! HUIAHIU

Bruna Caldart de Mello disse...

sempre acabo achando que todos os teus textos são conselhos pra mim... e nao estou errada.

C. disse...

já sabes de toda minha teoria correlacionando seu arquétipo do animal guia com sakura card captors, né? hahaha
muito bom o texto, A!