Eu estava enrolado em uma daquelas mantas quentes e macias que nos ajudam a esquecer dos sofrimentos do inverno. Seria bem mais eficiente se o gato estivesse em meu colo, ao invés de observando o mundo cinza, frio e ventoso pela janela. Um espirro meu fez com que ele se sobressaltasse e me lançasse um olhar assutado.
– Desculpe. – eu disse, em tom sarcástico, de que adianta ter um gato se ele se recusa a te esquentar um pouco no inverno?
– Tudo bem. – disse Pantufa, a voz tremendo.
– Eu não queria te assustar.
– Eu não me assustei… Eu só estava distraído…
– Então eu te assustei porque você estava distraído.
– Que seja… – disse ele, e voltou a observar a janela.
Uma rajada de vento agitou os vidros da janela. Pantufa oriçou-se. Eu espirrei de novo.
– O que tem de tão interessante pra ver nessa janela, afinal? – perguntei.
– O que tem de tão interessante ficar sentado no sofá enrolado numa manta?
– A culpa não é minha. Eu estou gripado! Eu tinha planos pra essa noite, mas a gripe me fez ficar aqui…
Pantufa saltou do parapeito da janela e ficou de frente pra mim no tapete da sala. Soltou uma risada felina.
– Planos! Odeio planos, sempre nos baseamos nos planos e achamos que a vida os atrapalha quando eles não dão certo! Mas na verdade são os planos que atrapalham a vida! Planos! Oras…
– O que você sabe sobre fazer planos?
– Eu já tive planos, não pense que não! – ele respondeu, sério – Já pensei em me acalmar, achar uma companheira e ter filhos e viver uma vida pacata e feliz… Mas os planos não aconteceram! Agora eu vivo uma vida bandida e feliz…
– Não sabia que os gatos eram capazes de fazer planos.
– Tem muitas coisas sobre gatos que você não sabe. E tem muito mais sobre mim que você não sabe!
– Só o que eu sei é que eu poderia estar em outro lugar agora… Se o plano tivesse dado certo…
– Ah é? Onde você estaria agora?
Suspirei.
– Definitivamente, eu não estaria atochado de remédios, enrolado numa manta e conversando com meu gato agora…
Olhei para o teto e perdi-me imaginando onde eu estaria… Todas as possibilidades, não tivesse essa gripe se colocado em meu caminho. Tudo por causa de uma gripe, droga! Algumas das possibilidades me apertavam o coração… Este ou aquele “se” mexiam comigo mais do que eu estaria disposto a admitir…
Eu teria divagado mais, não tivesse naquele momento vindo um estrondo grave de dentro do meu quarto. Como se um mamute tivesse caído no chão.
– O que foi isso? – perguntei, sobressaltado.
– Eu não sei… mas não é bom… – sussurrou Pantufa.
– Por que você está sussurrando?
– Porque algo grande e inesperado acaba de aparecer. E não quero chamar a atenção desse algo até que eu descubra exatamente o que é…
– Bem pensando… – sussurrei de volta.
Levantei-me do sofá e dirigi passos lentos e cautelosos em direção ao meu quarto. Pantufa caminhava entre meus pés. A porta do meu quarto estava fechada.
– Eu deixei a porta fechada quando saí?
Pantufa fez que não com a cabeça. Seus olhos amarelos arregalados. Houve um novo baque, e a porta tremeu.
– Tem alguém aí? – gritei.
A porta tremeu violentamente de novo. Parecia que um gigante estava pisando no chão com força, apenas para nos dar medo.
– O que você quer?
E o suposto gigante pulou, gritou, debateu-se. O chão tremeu e eu caí no chão. Pantufa perdeu-se dentro da manta na qual eu me enrolava. A porta continuava fechada. Os quadros da parede ainda estavam no lugar. O mundo não tinha se alterado, apenas tremido, chacoalhado. Todo ele, no mesmo ritmo, menos eu e Pantufa, ao que parece.
– O que você fez? – gritou Pantufa, tentando achar alguma saída da minha manta.
– Eu não fiz nada! Ele é que nos atacou!
– O que é “ele'”?
– Ele, oras! A… a coisa lá dentro!
– Deixe ele em paz!
– Mas ele invadiu meu quarto!
– Ignora que ele vai embora! – gritou Pantufa, finalmente mostrando os pequenos triângulos de suas orelhas numa das bordas da manta.
– Mas… mas…
– Ignore-o!
– Mas ele nos atacou sem motivo! Ele está sendo irracional!
E a coisa urrou lá dentro, algo como o urro de um touro, ou de um urso, sei lá. Mas me gelou a alma. E pude sentir uma brisa quente em meu rosto, como se atravessasse a porta fechada, sem o menor problema.
– Olha, seja lá o que isso for, apareceu do nada e vai sumir do nada. É só esperar… Não dê mais assunto a ele. – disse Pantufa, da forma mais calma e serena que pôde.
– Eu não quero que ele suma do nada! Eu quero que ele suma agora!
E o chão voltou a tremer…
***
Acordei com a língua áspera de Pantufa raspando meu rosto. Estava ainda atirado no chão, embolado na manta, sentindo frio.
– O que houve? – perguntei, desnorteado.
– Você apagou e caiu no chão. Nada sério. – ele disse, a voz tremendo. Os olhos arregalados. As orelhas atentas.
– O quê? Só isso?
– É. Esperava algo mais?
– Não… sei lá… como eu pude simplesmente cair no chão?
– Anemia! – ele gritou, prontamente – Vamos, levanta e vamos pra sala.
– Quer dizer que eu só sonhei que havia alguma coisa no quarto?
Ouvi um suave ronronar. Uma suave vibração percorria meu corpo, como se todo ele formigasse.
– É! Sonho! Vamos, levanta! Não pensa nisso! Quer ver um filme? Vai passar Huckabees no 72.
– Nós vimos Huckabees semana passada… – disse eu, terminando de me levantar. E olhei pra frente – Por que a porta do quarto está fechada?
– Quê? Ah, a porta! Você deixou fechada. Vamos, já vai começar o filme!
Foi então que eu percebi: o ronronado, a suave vibração, não vinham de Pantufa. Vinham do outro lado da porta.
– Eu só quero ver uma coisa… – disse eu, enquanto girava a maçaneta.
– Não! – gritou Pantufa.
E tudo tremeu de novo. Tentei fechar a porta, mas a coisa do outro lado tentava abrir.
– Você disse que era um sonho!
– Eu também disse pra não pensar sobre isso!
A coisa e eu lutávamos para decidir o estado da porta. No momento, nenhum cedia. Mas eu sentia que ela viria a ganhar pelo cansaço.
– O que é essa coisa, afinal?
– Como eu vou saber? Está no seu quarto!
A fresta aumentou um pouco.
– Mas não fui quem a trouxe!
– Então como ela entrou, gênio? As janelas estão todas trancadas!
– Me ajuda a fechar a porta!
– Eu? Eu não tenho polegares!
A fresta aumentou ainda mais. Já era possível discernir os contornos dos móveis no interior do quarto.
– Essa coisa vai abrir a porta!
– Não pense nessa coisa!
– Como eu vou não pensar nessa coisa?
A fresta aumentou o suficiente para minha cabeça passar.
– Apenas não pense!
– Mas ela está puxando!
– Quando você me conheceu, qual era a cor da sua camisa?
– Quê?
– A cor da sua camisa! – repetiu Pantufa – Qual era?
– Como isso pode ser importante?
– É importante para mim!
– Essa não é a mlehor hora, Pantufa!
– Qual era?
– Dá pra ser depois?
– Você nunca tem tempo pra mim! – protestou Pantufa, arranhando minha perna.
– Isso dói, caramba!
– Não tanto quanto em mim! Você não lembra qual era a cor da sua camisa quando me conheceu! Eu não sou importante pra você!
– Do que você está falando? Claro que você é importante pra mim!
– Então qual era?
– Era… eu não me lembro!
– Claro que lembra, pensa!
– Era… era…
– Vamos!
– Cinza?
– Sei lá. Acho que era… – disse Pantufa.
Foi então que eu percebi que, nesse meio tempo, eu tinha fechado a porta e soltado a maçaneta sem querer. Apenas batidas erráticas, de algo não maior que um punho normal, vinham do outro lado da porta. Sentei-me no corredor.
– Boa jogada. – eu disse, suspirando.
– Obrigado. – disse Pantufa.
E pulou no meu colo. Afaguei sua cabeça. Ele ronronou. E dessa vez o ronronar vinha dele mesmo. E as batidas diminuíam.
***
Eu não tenho certeza de que horas eram quando acordei, mas algo me fazia crer que eram cerca de três da manhã. Aquela estranha sensação de ser a única pessoa acordada enquanto o mundo inteiro dorme. Estava ainda limpando o sono de minha mente… Pantufa ainda dormia em meu colo. Minha mão ainda estava sobre sua cabeça. Eu ainda estava sentado no corredor e…
… a porta ainda estava fechada.
Assim que este pensamento me veio à mente, tentei substituí-lo por um outro qualquer. Joguei a porta, meu quarto e a criatura que se escondia nele para um canto mais escuro da mente, enquanto tentava com o máximo de esforço citar o maior número de pokémons que eu era capaz de me lembrar.
Foram cerca de trinta, não muito mais do que isso, quando Pantufa acordou. Seus olhinhos ainda meio-fechados, ele me perguntou:
– Já é de manhã?
– Não. – respondi – Ainda é madrugada.
– Então ainda vou ter que esperar até que você faça café?
Olhei para ele, sorrindo.
– Você não toma café!
– É, eu sei. Mas eu gosto de quando você faz café. Gosto do cheiro… Me traz lembranças…
– Tudo bem, vamos tomar um cafezinho então…
Levantei-me e Pantufa saltou do meu colo. Passos felinos ágeis me guiaram até a cozinha. Esquentei a água e fiz um café, servi um pires de leite para Pantufa. Ficávamos em silêncio, exceto quando a criatura do quarto ameaçava voltar à mente. Aí puxávamos qualquer assunto. Trivialidades. O tempo, o fato de o café estar bom, essas coisas. Mas a criatura sempre ameaçava voltar quando ficávamos muito tempo em silêncio.
– Já chega! Vou dormir na minha cama! – eu disse, batendo com as mãos na mesa.
– O quê?
– Eu vou lá e vou abrir a porta! – levantei-me e fui para o corredor.
– Não! Você não pode!
– Olhe só! – disse eu, parando em frente à porta – Eu estou pensando nisso, e ainda assim está silencioso lá dentro! Não tem mais nada aqui!
– Não! A porta do quarto se fechou sozinha para impedir que essa coisa saísse! Ela vai abrir quando for a hora!
– Isso não faz sentido!
– Olha, eu sei que não faz… Mas a coisa está aí, e cada vez que você ameaçar soltá-la, vai ficar mais difícil prendê-la! Espere até que ela morra aí dentro e a porta vai se abrir sozinha!
Meneei a cabeça.
– Olha, eu estou doente, com frio e cansado. Eu só quero dormir e, francamente, estou cansado de lutar com essa coisa. Ela nem deve estar mais lá…
– Talvez, mas ela vai estar quando você abrir.
– Eu estou cansado demais para me importar.
– Não diga uma coisa dessas. – disse Pantufa, friamente.
Toquei a maçaneta e, antes que eu pudesse reagir, a porta explodiu em milhares de pedaços. Caí prostrado no chão. Pantufa miou de dor. Tentei levantar, mas não conseguia me mexer. Vi um periquito azul nervoso sair voando do quarto.
– O que houve? – perguntei, ainda sem poder me mexer – O que está acontecendo?
– Acho que você conseguiu, cara. – disse Pantufa – Você enlouqueceu de vez!
terça-feira, 14 de junho de 2011
A Criatura Atrás da Porta
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3 Demonstrações de Atenção:
Eita, bom pra caramba. haha,pensando no pássaro, me chamaram de Calapsita ontem! HUIAHIU
sempre acabo achando que todos os teus textos são conselhos pra mim... e nao estou errada.
já sabes de toda minha teoria correlacionando seu arquétipo do animal guia com sakura card captors, né? hahaha
muito bom o texto, A!
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