– Parece coisa de cinema! – disse o Corrêa.
– É. – respondeu o Veloso, sem muito interesse.
– Tipo… dois policiais à paisana de tocaia em um carro esperando o assassino na porta da próxima vítima… Achei que isso só acontecia nos Estados Unidos!
– É.
O Corrêa calou-se. Olhou para a rua deserta, as ilhas de luz em meio às trevas, as janelas acessas refletindo as estrelas do céu parcialmente encoberto.
– Será que chove? – perguntou.
O Veloso bufou. Jogou as mãos pesadas sobre o painel do carro.
– Você não consegue ficar quieto, né? Não dá pra ficar dez minutos em silêncio? No caminho pra cá você comentou “e a Líbia, hein?” e eu fiquei falando por quarenta minutos sobre a situação política do país até você dizer que não sabia nada sobre o que tava acontecendo!
– Eu li no jornal que tava acontecendo alguma coisa lá e quis comentar, só isso! – resmungou o Corrêa.
– É! Exatamente isso! Você fala só por falar! Se não tem nada de interessante pra dizer, então fecha essa boca e não fala merda!
– Tá bom, tá bom!
Braços cruzados, os dois observaram a rua em silêncio. Com atenção redobrada à porta do prédio número 316. O lar de uma das doze mulheres na cidade a serem apotadas como prováveis vítimas do assassinato daquela sexta-feira.
– Sabe… – começou o Corrêa, e não parou quando o colega fuzilou-o com os olhos – o que nós vamos fazer se ele estiver certo?
– Se quem estiver certo?
– O assassino!
– Tá falando do Exorcista?
– Sim! É possível que ele esteja certo… O que vamos fazer se ele estiver?
– Isso só pode ser brincadeira! Eu disse pra não falar merda!
– Qual o problema?
– “Qual o problema?” Sério? Quer saber qual é o problema? Vamos ver… – Veloso fingiu esforçar-se para achar seus argumentos – O cara é um maluco que, toda sexta-feira, mata uma mulher ruiva e divide o corpo dela ao meio, fazendo questão de escrever na parede o nome de um demônio com o sangue da vítima… Tem razão, ele deve estar certo! Como eu não vi isso antes?
– Pensa por um minuto! Na carta que ele deixou na casa da quinta vítima ele explicou todos os motivos dele! Tá bom, são motivos estranhos, ele culpa as mulheres por todos os problemas do mundo, faz questão de lembrar que foi Eva quem introduziu o pecado na raça humana… Depois ele ainda diz que as ruivas são servas do diabo e que, essas mulheres em especial, estão possuídas por demônios e querem dominar o mundo… Ele explica que as está matando para exorcizá-las e salvar a humanidade.
– E você diz que ele deve estar certo? – os olhos do Veloso estavam extremamente arregalados, o parceiro estava assustando-o de verdade com aquela conversa.
– Eu não disse que ele deve estar certo! Mas… Ele poderia estar certo! E se todos os preconceitos contra os pagãos, todo o machismo, todo o medo medieval de pessoas ruivas fossem, na verdade, certos?
– Você não pode acreditar nisso…
– Eu não acredito! Mas e se…? E se a gente prende o cara hoje e daqui a três dias sai Belzebu da mulher do 316 e destrói a cidade? O que a gente diz? “Foi mal, a gente fez o melhor que pôde…”
– Pra começar, ele avisou que o próximo não era Belzebu, era Astaroth! E, depois, essas coisas não existem…
– Certo! Você não acredita nelas, e eu não acredito nelas! Beleza! Somos pessoas esclarecidas e razoáveis… Quem diz? E se tudo que acreditamos estiver errado? E se existir no mundo deuses e demônios lutando pelo mundo e pelas nossas almas?
– Mas não existem, Corrêa!
– Como você sabe?
O Veloso desabou em seu assento. O Corrêa estava exultante com essa discussão, devia ser a conversa mais longa que tivera com o Veloso desde que começaram a trabalhar juntos. Um sorriso gigantesco estampava sua cara.
– Vamos, me diz: como você sabe? – repetiu.
Veloso suspirou.
– “Como você sabe?”, “e se…?”… Essas perguntas parecem boas, mas não são. – protestou o Veloso.
– Por que não?
– Porque, a partir delas, eu só posso me basear em coisas que eu sei com certeza… Só que, quanto mais eu fizer essa pergunta, menos eu sei com certeza…
– E isso é bom, não? Ter certezas demais é perigoso!
– Não! Porque aí, chega em um ponto em que eu percebo que não tenho como ter certeza que você existe. Só eu sei que eu existo. E o resto posso estar alucinando! Eu estou alucinando você e, por isso, não preciso responder essas merdas dessas perguntas!
E o Veloso voltou a se calar. O Corrêa empunhou a sua arma.
– Se eu não existo, então não tem problema eu te dar um tiro… – e encostou-a na têmpora do colega.
O Veloso, com toda a calma do mundo, empunhou a sua arma e repetiu o gesto, encostando-a na têmpora do Corrêa
– Eu não me importo, mas eu provavelmente vou te dar um tiro antes… Porque eu alucino a dor… E não gosto dessa alucinação…
– Mas se você me matar, você vai para a prisão, Veloso…
– A prisão só existe em minha mente, Corrêa…
– Mas você está preso na alucinação da sua mente… Ao alucinar a sua morte, você pode finalmente se libertar desse mundo irreal…
– Ou posso simplesmente alucinar um outro…
– Jamais saberemos.
– Jamais saberemos.
E foi aí que o Corrêa esbranqueceu.
– A menos que… Você percebe o que fizemos? Levamos uma experiência do pensamento longe demais! Se guardarmos as armas agora, vamos ser hipócritas! Precisamos atirar para provar um ponto!
– Corrêa, não fala merda! Já te disse! Eu vou guardar essa porra… – E o Veloso começou a guardar a arma, mas o Côrrea não fez qualquer menção de imitá-lo.
– Vamos lá, no zero a gente atira! – disse o Corrêa, sério.
– Corrêa, pára com essa brincadeira!
– Cinco…
O Veloso botou a arma de volta na têmpora do Corrêa.
– Corrêa, sério! Eu vou atirar se você mexer esse dedo!
– Quatro…
– Corrêa, pára com isso que eu posso atirar só de cagaço!
– Três…
– Corrêa, cada vez que você conta eu fico mais nervoso!
– Dois…
– Eu vou atirar, hein Corrêa!
– Um…
– Corrêa!
– Zero!
terça-feira, 3 de maio de 2011
O Rigor Científico de Corrêa e Veloso
Postado por
ADO
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1 Demonstrações de Atenção:
Sir Will e André trabalhando juntos... @.@ (Sir Will não teria guardado a arma)
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