Os proscritos celebravam suas misérias e dissabores, naquela noite mais do que em outra qualquer. Músicas estrondosas bradavam contra um deus, qualquer deus, toda vez que as portas dos clubes se abriam, para expulsar um coitado que exagerara na noite ou para adicionar mais um diabrete nos inferninhos. Perdição era a palavra de ordem. A todos. Quando o Sol nascesse, cada um que buscasse a redenção da própria alma.
Uma mulher com ar de bibliotecária e cara de Joelma vaga pela cidade. Passos rápidos ao pular por sobre o corpo desacordado de um rapaz cheirando a tequila e cigarro. E indiferença ao aterrissar na poça de vômito que ele deixou ao seu lado. Ela segue firme em direção a um beco escuro com cheiro de urina. Bate em uma porta.
– Que é? –grita uma voz profunda e não-convidativa do outro lado. Não há janelinha com olhos nem nada. Só a porta.
– Klaatu barada nikto. – responde a mulher com um olhar pétreo desafiando a porta a não se abrir diante da ordem.
A porta abre-se. Não quer discutir com uma mulher com cara de bibliotecária. Uma música mais alta do que deveria escapa pela porta. Atrás dela, um homem negro e corpulento com cerca de dois metros, provavelmente o dono da voz profunda, esperava a mulher entrar. A mulher adentra o cubículo escuro e a porta se fecha atrás dela. Agora apenas
– Nome? – pergunta o homem, com uma voz surpreendentemente mais aguda e suave que a que vinha de trás da porta. O que faz a mulher franzir o cenho.
– Nome? – ele repete.
– Joelma. – ela diz.
– Tem cara memos... – murmura o homem – Que negócios você tem a tratar aqui?
– Só vim pela noite. – ela diz, dando de ombros.
O homem a olha de cima a baixo. É a vez dele franzir o cenho.
– Muito bem… Boa festa.
Ele abre uma cortina e os olhos de Joelma são bombardeados por luzes vermelhas, roxas e azuis. Um arco-íris lisérgico recortando a silhueta de uma miríade de pessoas dançando, bebendo e beijando. A música é mais alta que nunca. Tudo é exagerado. Todos os sentidos perfeitamente bombardeados para fingir que não há um mundo lá fora. A vida é lá, e você deve morrer jovem. Joelma tenta abrir caminho por entre as pessoas. O calor exala de cada uma delas, misturado de álcool e sabe-se-lá-o-que-mais. Um beijo-a-cinco atrás dela a empurra em cima de um homem, que derruba alguma bebida no chão. Ele vira-se rápido para ela, a raiva estampada na cara, como se todo o seu mundo tivesse sido derrubado no chão.
– Desculpe… – diz Joelma.
– Vai embora, coroa! – grita o homem. E desaparece no meio da multidão.
Ela abre caminho por mais algumas pessoas. Não deixa de notar uma quantidade anormal de mulheres sem qualquer blusa. Geralmente sentada no colo de homens bem-vestidos. Também há homens sem camisa. Também estão sentados no colo de homens bem-vestidos.
Ela chega ao balcão, onde uma drag queen ruiva prepara alguns drinques. A maquiagem pesada, as unhas grandes e pintadas e o fato de ela ser ruiva apenas por causa de uma peruca quase distraem do fato de ela também não estar usando uma blusa. Embora ela não dispensasse um boá de penas verdes.
– O que vai querer, meu bem? – perguntou a travesti quando Joelma chegou.
– Eu preciso falar com… ele! – disse Joelma, tentando misturar um sussurro com o tom de voz necessário para ser ouvida sobre a música.
– Ele? – perguntou a atendente.
– É, o dono deste lugar!
– Ih… Eu não sei não… – ela respondeu, terminando um drinque e estendendo-o no ar para alguém – O patrão é um homem ocupado…
Um dos homens sem camisa se espremeu para pegar seu drinque. O suor do corpo ficando no suéter marrom de Joelma. Ela não conseguiu reprimir uma cara de nojo. O homem agradeceu o drinque e foi embora.
– É um assunto urgente… – respondeu Joelma, tentando não pensar no estado de seu suéter.
– Sobre o que seria, querida?
Joelma garantiu que cada sílaba da palavra fosse perfeitamente entendida pela drag queen:
– Jörmungand.
Os olhos da drag queen esbugalharam-se, as sobrancelhas escuras escondendo-se na peruca ruiva.
– Eu já volto… – foi tudo o que conseguiu dizer.
***
– Joelma? – perguntei, quando a trouxeram a mim. Meu rosto abaixado, escondido pela aba do chapéu fedora, impedindo que eu visse o rosto dela. Não precisava, era um rosto familiar. Um que eu esperava nunca mais ver.
– Você sempre disse que eu tenho cara de Joelma… Resolvi usar o nome. – ela justificou.
– Muito justo. – então voltei-me para o segurança estrondoso que falhara em barrar pessoas indesejáveis em meus domínios – Montanha, não achou estranho que ela correspondesse exatamente à descrição de Valquíria, uma pessoa que eu lembro de ter deixado bem explícito que você não deveria deixar entrar?
Montanha gaguejou com sua voz estranhamente aguda.
– Eu… e-eu… Des-desculpe André… e-eu não pe-pensei--
– Exato, você não pensou. – interrompi-o – Você fracassou como segurança e como ser humano. Volte ao trabalho. E, dessa vez, trabalhe.
– Sim senhor.
Quando Montanha deixou a sala, reclinei-me em minha poltrona e, ignorando o fato de que os bolsos do meu colete são apenas decorativos, fingi procurar algo neles.
– Então… – comecei – Você veio aqui pra me levar de novo ao maravilhoso mundo da Blogosfera por uma determinação maior da Sagrada Ordem dos Blogs?
– Não. Na verdade é por uma determinação sua mesmo. – respondeu Valquíria.
– Minha, é?
– É, você deixou claro que ia atualizar o seu blog todas as terças ou quartas pela madrugada. Semana passada, você não fez isso. Você quebrou sua promessa e deve ser punido.
– É, tenho certeza de que os trinta seguidores do meu blog devem ter feito um grande protesto com relação à minha abstenção de postar semana passada… Com certeza recebi muitos comentários de apoio com relação à minha exaustão mental…
– Eles não levaram a sério. Você é famoso por exagerar.
– Eu nunca exagero. Eu prefiro a morte ao exagero. – protestei.
– Que seja… Você vai largar essa espelunca e vai voltar ao blog imediatamente!
Acendi um cigarro, para propósitos dramáticos. Comecei a tossir, me arrependi de acendê-lo e apaguei o mais rápido que pude.
– Eu não quero. – disse, tentando recuperar a dignidade perdida com o episódio do cigarro.
– Mas você vai.
– Force-me. – eu apontei para dois armários em forma humana que se postavam dos dois lados atrás da minha poltrona. Esses seguranças eram mais peças decorativas do que seguranças de verdade, uma vez que achavam que Krav Magá era o nome de algum DJ israelense.
Valquíria acendeu um cigarro, tragou-o com propriedade, apenas para debochar de mim. Tentei conter a tosse e a cara de nojo.
– Eu não preciso forçá-lo. – ela respondeu, tragando de novo, maldita – Você vai. Você adora se perder nas suas próprias ficções, escapar da realidade… Mas a sua necessidade de continuar a criar e reinterpretar, sua necessidade de seguir contando histórias vai fazê-lo voltar ao blog. Eventualmente você precisará contar algo a alguém algo que sente… E não será capaz de fazer isso diretamente… E então vai surgir mais uma ficção… Eu só estou dizendo que, quando você o fizer, vai ter que prestar contas por ter quebrado sua palavra.
– Eu acho que não… – levantei-me da poltrona e me dirigi a uma janela de onde eu podia observar as pessoas dançando e bebendo no salão lá embaixo. As luzes piscavam freneticamente. Fiz um sinal para que Valquíria se aproximasse – Olhe só isso! Você acha que eu vou precisar voltar a satisfazer qualquer necessidade minha com… textos? Eu criei um mundo de prazeres rápidos aqui! As pessoas não querem ler textos, comentar, discutir… Elas querem bebida, música e sexo… E eu criei aqui um lugar onde essas necessidades são satisfeitas em cinco minutos! É isso que as pessoas querem! É esse o tipo de ficção que elas desejam: apenas a ficção de que elas são felizes! Qualquer coisa mais complexa que isso é dispensável. Eu não vou voltar para aquele blog…
– Eles vêm até você e comentam a seleção de músicas, bebidas ou… prostitutas?
– Elas preferem o termo “secretárias”… E não. Não comentam. Eles pagam por essas coisas! É uma demonstração de aprovação instantânea!
– E o que acontece quando eles não podem pagar?
– Bom… Isso não é problema meu. A questão é que eu não mais escreverei. Não compensa. Financeiramente ou espiritualmente… Se já terminou de me ameaçar, pode ir embora agora.
Valquíria assentiu e dirigiu-se até a porta. Parou, e voltou-se para mim.
– Sabe, são trinta leitores. Eles podem não tomar tempo para escrever comentários ou sejá lá o que você quer… Mas eles tomam tempo para ler os textos… E é por isso, essencialmente, que você escreve. Porque você tem algo que quer compartilhar. Não importa se os outros entendem.
– É? Que se dane.
– Se você realmente acreditasse que uma pessoa pode ser feliz para sempre com prazeres simples, não estaria nessa sala, estar lá embaixo. Bebendo, com eles. E você fica ridículo de fedora!
E Valquíria saiu. Ficou um silêncio chato na sala. Para evitá-lo balbuciei:
– Tutti mi chiedono, tutti mi vogliono…
– O que foi, senhor? – perguntou um dos meus seguranças decorativos. Não lembro o nome dele. Chamarei-o de Armário 1.
– Tutti mi chiedono, tutti mi vogliono. Quer dizer “todos me chamam, todos me querem”.
– E por que não falou “todos me chamam, todos me querem”, senhor? – perguntou Armário 2.
– É uma citação. É do Barbeiro de Sevilha. Fígaro, o barbeiro, está reclamando que ele sempre está atarefado, correndo de um lado para o outro, com as diversas tarefas que cabem a ele enquanto barbeiro e enquanto faz-tudo da cidade.
– E por que ele não troca de emprego? – perguntou Armário 1.
– Porque ele exerce um cargo que lhe traz fortuna e prestígio. Apesar de tudo, ele gosta disso. É cansativo e às vezes ele pensa se não seria melhor ser outra pessoa, com uma vida mais tranqüila e menos responsabilidades. Mas aí ele não teria o prazer de entregar cartas secretas entre jovens enamorados, de fazer a peruca dos duques, de fazer a barba dos camponeses… Ele não largaria isso por nada…
– Então esse barbeiro devia parar de bichisse e decidir o que ele quer! – setenciou Armário 2.
E o assunto, por eles, estava encerrado.
E, relutante, tive que admitir que Valquíria estava certa… Exceto sobre o fedora. Maldita.
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Joelma
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5 Demonstrações de Atenção:
Curti esse. Só pra constar.
HAUHAUHAUHAUHAUHAUAHUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUHAUHAUAHUAHUAHUAHAUHAUHAUHAUHAUAHUAHUAHUAHUAHAUHAU
Não entendi.
Podes publicar um livro. Assim ficaria mais conhecido e aumentaria a popularidade do blog e então, compensaria financeiramente.
Se aumentar o número de visitantes do blog devido ao livro, seria por haver pessoas que gostaram muito dele, então compensaria novamente.
Desse modo você poderia trocar aquele local por outro, onde poderia vender seus livros, e usaria o Armário 1 e o Armário 2 para lhe proteger das fãs alucinadas, e o dinheiro poderia ser gasto em fedoras. Uma coleção de fedoras. Pra irritar a cara-de-Joelma. =P
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