Os sentimentos eram fortes, e não havia palavras para descrevê-los. Por isso o silêncio os consumia. Até que o silêncio começou a soar como tambores de batalha, incessantes e enlouquecedores. Foi num dos primeiros dias de inverno, e ele sentiu que a cama estava mais fria do que deveria estar. Encontrou-a na sala, aquecendo as duas mãos numa caneca de café, que em breve também esfriaria.
Ela não bebia o café, apenas observava a fumava dançando, sumindo no mundo frio e cinzento. Os vidros da janela estavam úmidos da neblina que invadia a casa e enregelava os ossos. Mas ela preferia aquecer-se com o café do que junto a ele. Não que ela o odiasse, mas já não chegava a sentir por ele o mesmo que sentia pelo café.
O Sol incendiava o mundo cinza lá fora. Mas não aquecia.
Ele pensou que devia falar alguma coisa. Mas não conseguiu achar as palavras. De novo. Bocejou. Um bocejo barulhento.
Ela acordou de seu sonho induzido pelo vapor do café. Olhou para ele. O rosto inchado de sono, o cabelo levantado e revolto da noite de sono, a camiseta branca encardida. Notou o como ele se sentia fragilizado naquele momento, mas não conseguiu simpatizar. Se ele sentia que devia dizer algo, por que não dizia? Ela olhou para aquele homem apático, tolo, tremendo de frio por causa dos pés descalços sobre o chão frio. Sentiu-se mais do que nunca diferente dele. Lembrava-se das risadas, dos olhares, da perfeição, das mordidas, do cheiro, do beijos, das piadas, dos sussurros… Claro que lembrava. Era impossível esquecer. Mas pareciam mais uma fantasia do que o passado.
Ela continuou observando-o, esperando, os olhos fazendo questões que a boca não sabia fazer. Ele coçou a cabeça e foi preparar o próprio café.
As portas do armário batendo, ela suspirou, a porcelana da caneca batendo no balcão, ela estalou a língua. A água esquentando na chaleira. Ela levantou-se e foi para o quarto.
Ele mediu cuidadosamente a quantidade de café, água e açúcar. Caminhou em círculos pela cozinha, como animal enjaulado. Tremendo de frio e de nervoso. Ele não sabia o que dizer. Não sabia. Só. Era tão terrível assim não conseguir achar palavras? A chaleira apitou. Ele desligou o fogão. Ela apareceu na porta da cozinha antes que ele despejasse a água. Estava vestida e trazia uma pequena mala.
Os dois não se moveram por alguns minutos. Parados, um observando os olhos do outro. Esperando que um dissesse ao outro as palavras mágicas que fizessem voltar o tempo e aquecessem o mundo novamente.
Os dois permaneceram em silêncio. E nada mágico aconteceu.
– Eu volto quarta-feira pra buscar o resto das coisas. – ela ouviu-se dizer.
E ele só ouviu os passos dela e a porta abrindo-se. E fechando-se novamente.
E, de novo, o silêncio. Um silêncio diferente.
Ela ouviu-se suspirando, descendo as escadas, cruzando o asfalto, ouviu um carro dando partida ao longe, alguns poucos pássaros cantando. E todos os rumores de uma cidade que despertava. E o Sol começou a aquecê-la. A neblina ainda gelava os ossos, mas não onde o Sol tocava.
Ele desistiu do café e, não sabendo mais o que fazer, voltou para a cama. Estava fria. Revirou-se. A cama estalou um pouco sob o peso do seu corpo. Pequenas explosões insignificantes. Enrolou-se no edredom, mas ainda sentia frio. Olhou para o lado da cama agora vazio, de onde provinha o calor. Suspirou. Então levantou-se, foi até o armário e retirou de lá um leçol térmico. Colocou-o na cama. Ligou e voltou a deitar-se.
E dormiu.
terça-feira, 19 de abril de 2011
Silêncio
Postado por
ADO
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5 Demonstrações de Atenção:
Lençol térmico! Eu sabia que o texto ia ter um final feliz! :D
Pô cara, o texto se difere aos outros...principalmente no que diz respeito ao tema...
...curti muito...é triste...principalmente a descrisção do silêncio....
...tú escreve muito bem cara!
Muito bom mesmo... e realmente o lençol térmico salvou toda a história. Toda.
Nada como pessoas descartáveis e substituiveis...
Teu texto ficou mt bom! as palavras milimetricamnete bem colocadas...gostoso de ler. Tu ta ficando muito bom nisso :)
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