A cidade estava morta como um Tiradentes ou um Cristo. Mas parecia não querer ressucitar no terceiro dia. Léo vagava pela cidade sepulcral, beliscando uma caixa pequena de chocolates. Auto-presente de Páscoa. A caixa já estava meio-vazia. Não meio-cheia.
Ele pegou o celular de novo e checou, apenas para desencargo de consciência, os contatos.
Este, em Dom Pedrito. Aquela, em São Paulo. Esses três, acampamento no forte. Este, precisando fazer sala para os parentes hopedados. E assim em diante.
Passos errantes, buscando rostos familiares nas poucas almas que também erravam por este mundo vazio. O sol aquecendo as costas, esporádicas lufadas frias no rosto. Teria ficado em casa, mas era um daqueles dias em que o mundo parece gigante até que você sai pela porta. E aí parece só aquilo. E mais nada.
Sentou-se no píer. Mãos no bolso, sem mais chocolate. Sem chocolate, não era mais Páscoa. Apenas um domingo deprimente. Pleonasmo.
E aí, do nada, vem aquela manchinha marrom, pulando em direção a Léo. Ele achou estranho, mas aceitou a companhia. O cusquinho abanava a cauda e trazia nos olhos a alegria de quem revê um velho e querido amigo. Pulou, cheirou, brincou. Léo não fazia idéia de quem ele era.
– Oi… Tino… – ele disse – Vou te chamar de Tino. Tu parece o meu tio… A gente chama ele de Tino…
O Tino canino parecia estar mais interessado em lamber os dedos de Léo.
– Mas o nome dele é Adolfo… Estranho, né?
Tino não pareceu intrigado. Sentou-se em frente a Léo e admirou-o com o olhar de admiração que apenas um bom cão é capaz de expressar.
– Tu também não tem o que fazer, né? Eu não tinha dinheiro pra voltar pra Novo Hamburgo. Pelo jeito, eu sou a única pessoa que ficou sem nada o que fazer na Páscoa. E tu, agora.
Tino respondeu pulando no banco. E gentilmente exigindo carinho atrás da orelha.
– Semana que vem começam as provas. As pessoas ficam loucas nessa época. Nada pode acontecer de importante. Só as provas. Ninguém tem tempo pra ninguém, só se for pra estudar. É meu primeiro ano aqui. O meu colega de quarto viajou também. Eu ainda me sinto numa cidade estranha. Mal conheço ninguém. Às vezes parece que passo dias sem falar com ninguém…
Tino apoiou a cabeça no colo de Léo.
– E aí eu penso que pelo menos tô investindo no meu futuro… Mas eu não sei nem se Biologia é o que eu quero… E seu eu só estiver desperdiçando tempo e dinheiro ficando nessa cid--
Léo olhou para o cão que, alegremente mordia suas mãos enquanto abanava a cauda. Léo parou de falar e decidiu-se por mexer energicamente as mãos ao redor de Tino. Tino enlouquecia-se, tentando decidir qual das duas era a presa mais fácil. Pegava uma, mas a outra chegava por trás e lhe dava um tapa na orelha. Ele soltava e trocava o alvo. E tudo recomeçava.
Quando o píer tornou-se frio demais, Léo levantou-se e adentrou na cidade. Tino seguindo-o. Andaram lado-a-lado. Quando um parava para cheirar um poste e marcá-lo, o outro parava e esperava. Quando o outro parava para ver uma vitrine de loja fechada, um parava e esperava.
Os passos de Léo o levaram a uma cafeteria, onde entrou e pediu um café e uma torrada. Sua mente vagou por locais interessantes. Muitos diferentes dos quais vagava naquela manhã. Nem percebeu isso. Ao sair, notou Tino esperando-o, como um amigo fiel.
Caminharam mais, por outras ruas não particularmente interessantes. Às vezes, Léo parava para mais uma vez fazer Tino atacar suas mãos.
Quando escureceu, Léo sentou-se na parada de ônibus. Tino ao seu lado.
Com um suspiro mecânico, o ônibus parou e abriu a porta. Léo subiu. Tino observou-o subir, passar pela roleta e sentar-se. Em pé, a cauda abanando, exigindo que ele volta-se. Quando o ônibus partiu, Léo abanou para Tino. Sentiu-se ridículo quando percebeu que o cachorro não compreendia o gesto.
E Tino, sem compreender o gesto, esperou que o ônibus voltasse.
terça-feira, 26 de abril de 2011
A Páscoa de Léo
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2 Demonstrações de Atenção:
Pois conheço uma coleção de "Tinos" que esperam o ônibus voltar. Não por não saberem que haverão outros "Léos" que irão embora noutros ônibus, mas sim pelo fato de que alguns ficam mais do que outros. Mesmo assim, ficar atrelado ao desTino de não procurar outro alguém ao Léo nem sempre traz as doçuras da Páscoa. Esperar ou ficar? Eis a questão. E a resposta é outra pergunta: Não tem como juntarmos os dois?
Me sinto como o tino , esperando o ônibus voltar.
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