segunda-feira, 11 de abril de 2011

Chá com a Rainha

No coração da imensa cidade, em meio aos estreitos e intricados caminhos de eterno cinza onde correm todos os dias veículos velozes e os gritos de protesto são sufocados, fica o Palácio. Majestoso, imponente e frio. Como o coração da própria Rainha.

Em um longo corredor cinzento, marchavam alguns lacaios, conduzindo dois homens algemados. Ao cruzarem imensos portões pouco convidativos de prata, depararam-se com ela. Assentada em seu trono, em posição de comandante do mundo, ela já apresentava alguns sinais da idade, mas ainda era bela e elegante, com certeza.

– Excelentíssima majestade, senhora de nossos corações e mentes, peço-vos audiência. – gritou um dos lacaios, prostrando-se.

– Prossiga, capitão. – respondeu a Rainha, segurando um bocejo, como se a função de governar o mundo lhe fosse entediante.

– Caputuramos dois membros do Movimento para Libertação da Humanidade: Marcos Queiroz, um dos líderes do movimento e José Brasiliano, um dos seus agentes.

Ela baixou o olhar para os dois homens algemados com não mais atenção que se daria a uma formiga caminhando sobre a mesa.

– Bem, senhores, há algo que queiram dizer antes que eu os condene à morte?

– Você pode nos matar, mas não pode matar os ideais do Movimento! – bradou Marcos. José tentava mostrar-se tão valente quanto seu líder, mas suas pernas e mãos tremiam.

– Vamos ver quantos permanecem fiéis ao Movimento – a Rainha levantou-se – quando exibirmos seus corpos em praça pública e as pessoas tremerem só de imaginar como foram os seus últimos momentos nesta minha Terra!

José encolheu-se. Marcos permaneceu ereto, o peito estufado em desafio. Disse:

– Quanto mais você oprime o povo, mais ele clama pela liberdade! Um dia, não falta muito, nós --

– Com licença… – disse uma voz simpática atrás deles, já os empurrando.

Era um senhor com seus quase 70 anos, não muito mais velho que a rainha. Usava uma camisa de um amarelo tão desbotado que beirava o branco, cuja gola saía de um blusão de lã verde-musgo, calças cáqui e trazia uma bandeja florida de porcelana e duas canecas do mesmo conjunto. E biscoitos.

Mal o viram, alguns guardas correram para lhe trazer uma poltrona e uma mesinha.

– Você pediu de frutas silvestres, né? – pergunta o senhor, sentando-se ao lado da Rainha.

– Hã… Sim, acho que sim. – ela respondeu. Depois voltou-se para o líder rebelde – Continue, por fav--

– Você não vai me apresentar às visitas?

– Hã… Senhores, este é… o meu marido. – a Rainha esperava que isso bastasse, mas viu no olhar do cônjuge que ele queria mais – Querido, esses são Marcos Queiroz e… – a voz dela parou de ressoar na sala. Ela fechou os olhos, estalando os dedos várias vezes, nervosamente.

– José. – respondeu José, a voz falhando.

– Isso! José Brasiliano. Eles são membros do Movimento pela Libertação da Humanidade.

– Ah! O Movimento! – disse o homem, exultante – Adoro o trabalho que vocês desenvolvem, até pensei em em juntar. Mas sabe como é, né? A patroa não deixa… Você é casado, Marcos?

Marcos fuzilou a Rainha com o olhar.

– Já fui. Minha esposa e meu filho foram mortos quando o exército invadiu nossa cidade para destruir nosso espírito livre e fome de justiçã.

– Ah, então você sabe bem como é1 São sempre elas que mandam, né?

Marcos estacou, surpreso:

– É… ela era bem exigente às vezes…

– Você é casado, José?

– Não… Não sou casado não, senhor. – José abanava a cabeça e olhava para o chão, como se fosse acusado de algum crime.

– Ótimo! Não case! Pelo menos, não tão cedo! Elas dominam tudo! Começam pedindo pra lavar uns pratos, você faz de favor e, quando se dá conta, não pode nem mais escolher o que vai vestir!

– Não fui eu quem escolheu esse blusão… – murmurou a Rainha, cruzando os braços.

– É que eu sou um rebelde! – disse o homem, lançando uma piscadela para os dois prisioneiros – Vocês querem chá?

– Hein? – Marcos já não exibia metade da postura de desafio de antes, mas o sêxtuplo de confusão.

– Chá. Vocês querem? Temos maçã com canela, pêssego e frutas silvestres.

– Amor, eu estava prestes a ordenar que estes homens fossem executados pela manhã… – protestou a Rainha, ainda de braços cruzados.

– Então eles têm o resto da tarde livre! Jaime, traz mais duas cadeiras!

O capitão (cujo nome, ao que parece, era Jaime) hesitou mas, ao notar que a Rainha assentiu contrafeita, providenciou as cadeiras. Canecas também. Os prisioneiros tiveram as algemas retiradas.

Começou, então, o inusitado chá. Marcos pediu maçã com canela. José pediu pêssego, acresentando “majestade” ao final da frase.

– Não sou rei, ela que é Rainha. Fizemos separação total de bens. Combinamos isso 25 anos antes do nos casarmos.

– Vocês noivaram por 25 anos? – perguntou José.

– Não. Nós combinamos um casamento de apoio, sabem?

Marcos e José fizeram que não. A Rainha sorriu, constrangida.

– Bem, quando eu tinha 20 anos, – começou o não-Rei – eu e ela éramos amigos e estávamos solteiros. Um dia, pensando no futuro, eu propus a ela o seguinte: se nós dois estivéssemos solteiros aos 45 anos, nós nos casaríamos. Afinal, as chances para os solteiros diminuem muito depois dos quarenta…

– É um bom plano… – amitiu Marcos, mordendo um biscoito amanteigado.

– No início, ela não quis. Mas depois que combinamos o negócio da separação de bens, ela aceito. Bem, o tempo vai, perdemos contato, 25 anos depois, eu ainda estou solteiro e procuro o nome dela na lista telefônica e não é que eu descubro que a mulher que tinha tomado posse das Américas e planejava a invasão da Rússia era a mesma que eu conheci quando jovem? E pensar que quando eu a pedi em casamento ela queria ser médica…

– Médica? – exclamaram Marcos e José em unissono.

– Ah, é… – a Rainha sorriu, os olhos brilhando ao lembrar do passado – Eu era jovem e idealista… queria ajudar pessoas, trabalhar como voluntária… A vida é engraçada: você sonha em um dia prestar assistência médica no Haoioti e, quando vê, está dizimando a população da ilha para criar um depósito de ogivas nucleares… Quantos anos vocês tem, José? Vinte, vinte e um?

– Vinte e três, Majestade.

– Vinte e três! – ela exclamou, balançando a cabeça, pensando no tempo que fazia desde que ela própria tivera vinte e três – Sabe, estou fazendo um favor mandando te executar amanhã. Não há nada como envelhecer e perceber que não realizou metade dos seus sonhos…

– Mas também tem as coisas boas. – protestou o marido – Os domingos chuvosos dentro de casa, debochar de cada cabelo branco que você acha no outro e perceber que, na verdade, você não se importa, as palavras cruzadas na cama… as pequenas coisas que são tão belas quando se tem alguém com quem dividí-las.

– Ah, claro! – rebateu a Rainha – É ótimo isso tudo! Mas de vez em quando todos olham para trás e pensam: “O que aconteceu com aquela jovem que sonhava em ser médica em comunidades carentes?”

O não-Rei sorriu e completou:

– Ou: “O que aconteceu com aquele jovem que sonhava em fazer uma réplica em tamanho real da Torre Eiffel com palitos de picolé?”

– Mas a Torre Eiffel é feita de palitos de picolé. – disse José.

– Ah, é… Isso eu concluí. Você é jovem demais para lembrar, mas nem sempre foi assim.

O chá continuou por mais um bom tempo, até que outros assuntos importantes exigissem a atenção da Rainha. Os dois prisioneiros foram, então, novamente algemados e encaminhados para as câmaras de tortura, onde permaneceram pelo que pareceu a eternidade para eles.

Mais tarde, jogados em uma cela escura e úmida, os corpos doídos e mal tratados, as pernas e os braços mal sustentando o peso do corpo, Marcos escorou-se na janela gradeada e observou a cidade fria de torres altas.

– Sabe… Nessa tarde, mesmo sendo minha inimiga, pude conhecê-la melhor, apreciar a companhia dela… até cheguei a vê-la como humana. – disse Marcos.

– É, ela é humana. – concordou José.

Na manhã seguinte, os dois foram executados.

3 Demonstrações de Atenção:

Felipe Vargas disse...

Isso lembra a minha mãe :D

Evelise G. disse...

Foi a dificuldade de passar p/ Medicina que fez isso com ela...é culpa do sistema! TUDO é culpa do sistema! (cri cri cri)

paquiderme disse...

uiahauahauhauha
que doentio! XD
adorei!