sexta-feira, 1 de abril de 2011

As Estranhas Aventuras de Ozymandias e André: O Fim

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Aeroportos no futuro são quase como aeroportos atualmente, apenas mais lotados. Portanto, imagine um aeroporto genérico e multiplique a multidão por… onze. É difícil se encontrar com alguém no aeroporto. Mas, de alguma forma conveniente, eu consegui. Renata estava lendo sentada num banco, encasacada e carregando apenas uma maleta branca pequena.

– Só isso? – perguntei, apontando a mala.

Ela deu de ombros. Sorria roboticamente, os olhos azuis tinham um brilho mais claro.

– Eu já não tinha muita coisa… E as poucas que tinha eram mais por necessidade do que por afeto… Sempre desejei ir um dia embora… Então foi fácil me desfazer de tudo…

Assenti.

– Sabe… – ela disse – Eu estivesse pensando… sei que você tem que… “salvar a literatura” e tal mas… Não existe a chance de você vir comigo?

Meneei a cabeça.

– Eu sinto muito… Não posso, nem sei direito se eu devia estar aqui.

– O que quer dizer?

– Nada, pensei em voz alta.

Ela olhou para o chão.

– Você foi a primeira pessoa a ser gentil comigo… como se para você não houvesse diferença entre robôs e humanos… Você é sempre assim com robôs?

– Não posso dizer que seja. – respondi, honestamente – Não conheço muitos robôs. Mas sei que eles são tão capazes e únicos quanto qualquer ser humano. Não consigo imaginar porque alguém os trataria de forma diferente.

O vôo de Renata foi anunciado. Ela suspirou.

– Por que você tem que ser assim? Me faz me sentir mal por ir embora…

Aquilo me pegou de surpresa. Dei uma risada nervosa.

– Não! Vá, é o seu sonho! Você precisa ir!

Ela pegou a maleta, virou-se e me puxou para si. Eu a empurrei.

– Não! Desculpe, mas não! Isso é muito estranho! – protestei – Eu… Eu sou um humano e você é um robô! E… E essa coisa de você ser uma garotinha morta é… é… Não dá! Simplesmente não dá!

Os olhos dela perderam muito do brilho, estavam mais próximos de um azul marinho do que nunca antes.

– Eu entendo… Eu entendo! Sabe, achei que você era diferente! Que você era melhor do que os mecanófobos por aí, mas você é só mais um deles… Pode aceitar nossa presença mas está preso aos mesmos preconceitos que qualquer um! – ela pegou a mala do chão e virou-se de novo para sair – Obrigado pela gorjeta…

E foi embora. Sumindo na multidão.

Eu suspirei. Sentei-me num dos bancos. Observei a multidão passando apressada, partindo para seus destinos misteriosos. Lugares que, mesmo que eu já tivesse conhecido, estariam mudados. Uma diferença de quatrocentos anos. Senti-me novamente longe de casa… Mas de uma forma desesperadora… Aquele não era o meu mundo… Não era o meu lugar… Eu deveria estar em casa, em um mundo em que as pessoas ainda discutiam se os e-books substituiriam os livros, onde os carros estavam presos ao chão e onde só os humanos conversavam com você… Queria estar de volta em minha mesa, tomando café e discutindo banalidades ou qualquer outra coisa que parecesse importante com o Miguxo. O mundo era estranho e misterioso. E isso me assustava. E eu me odiei por sentir isso. Por desejar o conhecido, a zona de conforto, uma concha pequena e segura onde não existissem muitos mistérios. Recobrei as forças para levantar. Juntei-me ao cardume humano que saía do aeroporto.

Foi quando senti uma pontada nas costas.

– Continue caminhando, Tempo-terrorista… – sussurrou Carol Vieira em meu ouvido.

– Olha, eu já estou tendo um péssimo dia encontrando você só uma vez hoje, precisamos fazer isso de novo?

– Continue caminhando!

– Sabe, eles devem ter detectores de tiro em aeroportos, não? Se você atirar, a polícia chega num segundo…

– Isso é uma faca. – disse ela rispidamente, enquanto fincava um pouco minhas costas.

– Ah… Faz sentido.

Daquela forma gentil, ela me guiou até o estacionamento, onde entramos em um pequeno carro não-voador preto. Senti-me decepcionado, queria andar de carro voador. Ela colocou um pequeno aparelho semelhante a um telefone celular no painel do carro e deu a partida no carro.

– Agente Um reportando. – ela disse – Peço identificação do prisioneiro.

– Com quem você está falando? – perguntei.

– Prisioneiro identificado. – respondeu uma voz no aparelho – Leonardo Similton. Um dos cabeças da Coalizão da Lineariedade.

– Qual o Quociente Punitivo? – perguntou Carol ao aparelho.

– Vigésimo.

– Obrigado, Central. Agente Um desligando. – ela virou-se pra mim – Então… Seu nome é Leonardo Similton?

– O quê? Eu? Eu sou o prisioneiro?

– Não! Você foi gentilmente convidado a entrar no carro…

– Mas o meu nome é André Darsie de Oliveira!

– Você certamente fez uma plástica convincente… – ela disse – Isso se consegue fácil… Sabe, por um tempo até achei que você era ele… Mas como ele estaria aqui? Não fazia sentido! Aí você apareceu com CARA no sangue… É claro que o André Darsie de Oliveira não tinha CARA no sangue… Ele é de um período muito primitivo!

– Mas eu injetei as cara depois que você me esfaqueou!

– Ah, claro! Muito conveniente, Sr. Similton!

– Quem era aquela pessoa no aparelho e como ela me identificou como esse tal Similton?

– Ele era apenas um dos operadores. Foi o computador central quem o identificou.

– O computador errou!

– O AST-1 não erra!

– Eu exijo um advogado quando chegar na central! – protestei.

O carro estava quase saindo da cidade. Estávamos indo em direção a uma ponte que aparecia ao longe, no meio do nada.

– Nós não vamos para a central! Nós não temos central aqui…

– Onde fica essa central?

– No futuro, oras! Esse aparelho se comunica através do tempo e você sabe.

– Então quando vou poder falar com o meu advogado?

Ela me encarou, estava séria. Muito séria.

– Não há advogado! O computador central AST-1 é juiz e júri!

Demorei um pouco até formular a pergunta que devia ser feita a seguir:

– E… o executor?

Ela estacionou. Estávamos debaixo da ponte. Não havia ninguém nos arredores. Ela me apontou uma arma. Não faço idéia de onde ela guardava a arma.

– Desça do carro. – ela ordenou.

– Eu exijo que o computador cheque minha identidade novamente!

Ela suspirou, meneou a cabeça. Ligou novamente o aparelho.

– Agente Um reportando. Peço indentificação de prisioneiro.

– Prisioneiro identificado, Agente Um. – disse o mesmo operador de antes, sem se abalar – Leonardo Similton. Um dos cabeças da Coalisão da Lineariedade.

– Peço que ele seja levado sob custódia. – disse ela.

– Agente Um, Leonard Similton possui Quociente Punitivo de número vinte. A ordem é de execução imediata.

– Peço revisão da ordem.

– A ordem é de Nível A, Agente Um. – informou o operador.

– Entendido. Agente Um desligando. – ela desligou o aparelho, ela voltou a apontar a arma – Desça do carro.

Desci, ela postou-se atrás de mim, o cano da arma na minha nuca. Caminhamos.

– Isso é um erro!

– AST-1 nunca erra!

– Mas… Eu não sou um tempo-terrorista! Eu nem sequer sou perigoso.

– A ordem de execução foi reenforçada com Nível A! É reenforçada pessoalmente pelo programa de inteligência virtual do computador central. É inquestionável!

– Essa é sua definição de inquestionável? Seu computador mandou fazer?

– Todos os agentes da Agência de Supervisão Temporal seguem à risca as ordens do computador central. O computador central é quem coordena a lista de procurados, quem monitora o fluxo do tempo, quem comanda o envio de agentes e a comunicação inter-temporal. O AST-1 é a própria Agência de Supervisão Temporal! Quase como uma entidade própria! Ele é o nosso líder supremo.

Então, tudo ficou claro para mim. Carol me fez parar perto do rio. Deu alguns passos para trás e disse:

– Leonardo Similton, pela Lei Universal de Manutenção Temporal, e pela autoridade da Agência de Supervisão Temporal, você foi condenado à execução imediata. Suas últimas palavras?

– Sinto apenas que, não importa o que eu faça, os judeus continuarão a manipular o dinheiro para apoiar seu governo sionista e oprimir a minoria branca…

– Não sabia que você era nazista…

Gritei o mais alto que pude:

– Lei de Godwin!

Quando virei-me. Os policiais esguios que eu já haviam visto já a tinham cercado.

– Senhorita… Ãhn… – disse um dos dos policiais – Ela não tem identificação.

– Nos preocuparemos com isso depois. – disse o segundo homem, que estalou os dedos. Após o flash verde, Carol tombou no chão.

– Central, requisito identificação. – disse o primeiro policial, colocando a mão no ouvido.

Eu corri para o carro, a chave estava lá. Eu não tinha muito tempo.

***

Se você criar uma máquina… – eu gritei, entrando no loft – Digamos… um computador… cuja função seja monitorar o fluxo do tempo, como ele faria isso?

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! ELE… HUM… PODERIA OS DADOS DO PRESENTE E FAZER CÁLCULOS ESTIMATIVOS?

– Certo, mas isso é demorado e ineficiente… O computador precisa tomar decisões rápidas e eficientes. Que outra forma ele faria isso?

– BOM, SUPONDO QUE FOSSE UM COMPUTADOR QUÂNTICO, ELE PODERIA SE ENTRELAÇAR AO TECIDO DO PRÓPRIO TEMPO…

– E, digamos que ele comece a enviar gente através do tempo… Ele se comunica através delas… Elas carregam telefones celulares com a mesma programação do computador central, não seria o plano perfeito para espalhar-se através do espaço-tempo?

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! ESTÁ DIZENDO QUE AGSUTE SE INFILTROU NA AGÊNCIA DE SUPERVISÃO TEMPORAL PARA AUMENTAR SEU PODER?

– Não é isso que eu estou dizendo, exatamente… última pergunta… Se você pegar as duas primeiras letras de cada palavra de Agência de Supervisão Temporal, o que você tem?

– AGSUTE!

Assenti.

– Samanta Vieira precisa ser impedida a qualquer custo! Agsute sabe que está aqui e está manipulando informações pessoalmente para acaba com a gente. Se nós não a impedirmos de criar essa sociedade utópica, Agsute pode me apagar totalmente do Universo e, depois disso, se espalhar por tudo!

Ozymandias abriu-se.

– ENTRE!

Entrei no sarcófago.

***

Um homem lia tranqüilamente um jornal sentado na poltrona da sala. Não um jornal de papel, claro, mas ainda assim era um jornal. Tinha cerca de cinqüenta anos, mas não aparentava muito mais que quarenta. Uma mulher de cabelos curtos e cerca de mesma idade e aparência lia jornal na poltrona do lado oposto da sala. Nenhum dizia uma palavra e estava tudo bem.

Até que surgiu o sarcófago em sua sala.

– Desculpe, estou só passando para falar com sua filha! – disse eu ao sair de dentro de Ozymandias.

– O que é isso? – gritou a mulher, histérica.

– Máquina do tempo incrustada na programação do Universo.

– Isso é impossível!

– Segunda Lei de Clarke: O único caminho para desvendar os limites do possível é aventurar-se além dele, através do impossível. A Samanta pode sair para brincar?

Os dois desmaiaram. Resolvi subir as escadas. Samanta estava no quarto, escutando música. Usava um pijama verde com vaquinhas. E pantufas de ovelhinhas. Ficou surpresa quando me viu.

– Você não pode vir aqui! – ela protestou – Meus pais vão ver!

– Seus pais já me viram. Eu e Ozy chegamos no andar de baixo. Eles… Ãhn… Desmaiaram.

Os olhos verdes me lançaram chamas de ódio.

– O quê? Por que não vieram direto pro meu quarto?

– Você poderia estar se vestindo ou algo assim, não queríamos invadir sua privacidade…

Ela meneou a cabeça em direção aos céus, em sinal de incredulidade. Eu gritei avisando a Ozymandias que podia subir. Ele materializou-se ao meu lado.

– VOCÊ JÁ FALOU COM ELA?

– Calma, calma… Samanta… Você leu algum dos textos?

– Li sim…

– Então, você já chegou a uma decisão com relação ao--

Interrompi-me Samanta olhava por sobre meu ombro, com olhar espantado. Senti um impacto no meu ombro direito, seguido de uma dolorosa pontada. Virei-me para trás. Carol Vieira, a Agente Um, me apontava uma arma. Alcancei o ombro dolorido com a outra mão. Retirei dele um dardo. Então o disparo. Samanta gritou. Carol atirara no meu estômago. Caí no chão, agonizante.

– O dardo contém um vírus raro que destrói as CARA. – disse, com tom casual. Havia ódio em seus olhos. Ela não devia ter gostado nem um pouco de ficar em estado de animação suspensa por conta da Lei de Godwin. Ela caminhou até onde eu estava deitado, desesperadamente tampando o ferimento com as mãos. – A justiça foi feita, tempo-terrorista.

– Faça alguma coisa! – gritou Samanta, para Ozymandias – Volte no tempo e impeça isso!

– EU SOU OZYMANDIAS… EU NADA POSSO FAZER… AGSUTE ESTÁ AQUI.

– O que é um Agsute…?

Carol olhou para Samanta, com o olhar de quem compartilha seu filme favorito com alguém querido que nunca ouviu. Afinal, ela era filha de Samanta e sabia do futuro dela.

– Está tudo bem agora, Samanta Vieira. Eu--

Samanta a empurrou violentamente em direção à parede. Pega desprevinida, Carol cambaleou e caiu. Soltando a arma. Samanta foi rápida. Um tiro na testa. Carol começou a levantar-se, reflexos, as CARA estavam agindo. Samanta procurou nos bolsos da Carol zumbi pelos dardos. Achou um enfiou a ponta no braço de Carol. E mais um tiro na testa. Para garantir.

– Por que… você fez isso? – perguntei, respirando com dificuldade.

– Eu não sei… – Samanta parecia estar recobrando a sanidade – Não era pra fazer? Ela atirou em você…

– Não, está ótimo por mim.

– BOM TRABALHO!

Ela se abaixou para conversar comigo.

– Eu li os textos. Eu não vou construir a máquina do tempo. Vale a pena desistir disso…

Animado, virei minha cabeça para Ozymandias.

– Você ouviu, Ozy? Agsute nunca existirá! Podemos voltar! Ou você pode me levar ao médico! – tentei rir, mas isso doía muito.

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU AINDA NÃO POSSO ME MOVER, AGSUTE ESTÁ PERDENDO PODER, MAS AS ALTERAÇÕES TEMPORAIS DEMORAM PARA CAUSAR TODOS OS SEUS EFEITOS.

Aquilo me causou um calafrio na espinha. Eu poderia não ter tempo. Meu espanto foi maior quando eu vi um familiar vulto escuro e esquelético do outro lado da sala.

– Não! Não agora! – eu gritei – Eu estava tão perto! Eu consegui! Você não pode me levar!

Samanta virou-se para trás, mas não viu o que eu vi. Não era sua hora. Confusa, virou-se para mim.

– Morte? A Morte está aqui?

– Vá embora! – gritei.

– ESPERE MAIS UM POUCO! – protestou Ozymandias, com o tom familiar de quem é tão parte do Universo, quanto a Morte. Ele havia me dito a verdade, ele me provaria sua essência – EU POSSO LEVÁ-LO PARA SR CURADO, SÓ ESPERE MAIS UM POUCO!

– Eu sinto muito, Ozymandias, O Absoluto. – disse Morte – Este aqui já passou muito de seu tempo!

– Leve a mim! – gritou Samanta para o ar – Eu sei que você está aí, leve a mim!

– ISSO! LEVE A GAROTA!

Morte estacou. Olhou para Ozymandias.

– Normalmente, eu não faria isso… Por que eu faria agora, Ozymandias?

– EU VEJO QUE AINDA DEVO FAZER OUTRAS VIAGENS COM ANDRÉ. EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU EXIJO QUE A LINHA DO TEMPO SEJA RESPEITADA!

– E quanto à garota? – perguntou Morte.

– CUMPRIU SEU PAPEL.

Morte estalou os dedos. Entendo que foi o sinal para que Samanta pudesse vê-lo, pois ela cobriu a boca com as mãos e, olhos arregalados, suspirou:

– É verdade…

– Garota, está disposta a trocar sua alma pela dele?

Ela assentiu, nervosa.

– Tem certeza?

– Sim.

– Por quê?

Ela foi até uma cômoda. Pegou o meu caderno, abriu numa página e entregou-o à Morte. Morte assentiu. Colocou o caderno em outra cômoda.

– Assim será, então.

Segurou-a com cuidado com uma das mãos e, com a outra, fechou os olhos dela. Seu corpo amoleceu. Morte depositou o corpo com cuidado no chão. O pijama aumentava a impressão de que ela estava dormindo.

– Ela teria uma vida pela frente… É uma pena… Aproveite bem esse tempo, André Darsie de Oliveira… Eu o verei de novo. Com certeza. – e foi embora.

Arrastei-me até onde Morte tinha deixado meu caderno.

– Merda…

– O QUE FOI?

– “A Suposta Mudez de Paulo”. Ela morreu pela Suposta Mudez de Paulo…

– ISSO É RUIM?

– Eu já nem sei mais… – olhei para o cadáver de Samanta, que agora pouco era a própria Samanta – Os pais dela estão lá embaixo…

– E A NETA DELES ESTÁ AQUI.

Ele estava certo. Lembrei-me de uma coisa. Fui até o corpo de Carol. Retirei o celular dela. Joguei-o pela janela.

– A presença de Agsute está fraca o suficiente?

– ESTÁ.

– Ótimo… Acabo de ver uma garota que jamais existirá ser morta pela própria mãe… Preciso de um hospital. Um bom hospital, dessa vez…

Arrastei-me até dentro de Ozymandias. Ele fechou-se.

– Ozy? – perguntei, antes de partirmos.

– SIM?

– Podemos comprar um café antes de voltarmos pra casa?

***

A Borda do Mundo, o pior lugar para se estar. O ponto mais distante de qualquer civilização, cultura ou emoção. Marrom e tediosa. Eu estava feliz de estar de volta! Encontrei Roberto e Miguxo jogando jogo da velha na areia. Roberto ganhara.

– Quantas partidas vocês jogaram enquanto eu estive fora?

– Uma. – disse o Miguxo, como se a resposta fosse óbvia.

– Você conseguiu o qu queria? – perguntou Roberto, um pouco hesitante.

– Eu salvei a Literatura. Quanto ao que isso fará ao seu mundo, eu não sei.

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU SEI DAS COISAS-QUE-SERÃO! EU CONHEÇO O MUNDO ONDE AVESTRUZES E HUMANOS VIVEM EM HARMONIA! TRABALHAM EM HARMONIA, COMEM EM HARMONIA, LÊEM EM HARMONIA!

– Ótimo, tudo deu certo no final! – disse Roberto.

Coloquei a mão sobre o estômago, em um reflexo. O ferimento já estava curado. Eu havia passado cinco dias no hospital. Me trataram, com todos os remédios que podiam. As injeções de CARA não funcionaram, o vírus ficaria em mim pra sempre. Mas os remédios surtiram efeito. Eu estava vivo. Diferente de Samanta e Carol Vieira. Nem tudo tinha dado certo.

– É, deu tudo certo. – eu disse.

– VAMOS, ROBERTO! ESTÁ NA HORA DE VOLTAR.

O avestruz nos deu um abraço. A mim e ao Miguxo. Não falou nada. Não havia o que falar. Entrou no sarcófago.

– ADEUS, FELIPE! – disse ele, o Miguxo abanou de volta – ATÉ MAIS, ANDRÉ!

E foi-se.

– Viu só? – perguntei pro Miguxo – A Primeira Lei de Clarke estava certa, Einstein estava errado ao dizer que a viagem temporal pro passado era impossível.

– Cara, Einstein não era idoso quando disse que era impossível. A Primeira Lei de Clarke não se aplica.

Ele estava certo, mas eu não ia admitir.

– Eu te trouxe um café. – eu disse, passando-lhe o copo que eu comprara na volta.

Ele tomou um gole, fez uma careta.

– Esse café é muito ruim!

– É o único que existe no futuro.

– Cara, o futuro me assusta muito.

E eu tive de concordar…

 

 

 

 

***

Epílogo:

Sozinha, longe de qualquer pessoa. Ela começara a caminhar até sair dos limites da cidade e encontrar-se onde sempre queria estar. Totalmente perdida, mas mais feliz que nunca. Era noite. Ela podia até morrer ali. Ninguém choraria por ela. Mesmo que chorassem, as lágrimas secariam e o sal delas não representaria nem um milésimo do sal que a cercava: o deserto do Atacama.

Caminhou errante. Sentia-se bem. Estava num lugar onde queria estar. Renata sabia que um dia teria de sair dali, mas até lá tinha tempo. Poderia se reinventar na página em branco na qual caminhava. Mas, por ora, as lágrimas secas bastavam. Era como se ali estivesse o sal de todas as lágrimas que ela não pôde chorar. Mas agora ela já poderia secá-las, se fosse humana. Já podia deixar o passado para trás.

Tropeçou.

Alguma coisa escura manchava a branca página do deserto. Uma espécie de pedra. Mas tinha um formato estranho. Curioso. Renata começou a cavar em volta. Ficou surpresa quando cavou o suficiente para identificar o objeto.

Ela tropeçara na cabeça de um gigantesco sarcófago.

FIM

3 Demonstrações de Atenção:

NEEBS disse...

Queria saber o que passa na tua cabeça quando tu escreve algumas coisas...

Adorei o texto. :)

Felipe Vargas disse...

Tu sabe que eu não sei da metade das leis que tu faz eu citar? Assim como na vida real... @.@

Stéphanie disse...

Bom texto