As formigas não mereciam o que lhes acontecia, o que não impedia que as coisas lhes acontecessem. Não era nada pessoal, mas elas estavam ali e ele também.
As formigas não tinham a clara noção de que moravam num jarro de vidro na estante de um garoto de 11 anos, mas sabiam que o mundo ia além daquele campo invisível que as aprisionava. Podiam ver o mundo lá fora, davam nomes – nomes que apenas as formigas são capazes de pronunciar – às formas que discerniam.
Chamavam o Sol por um nome especial. Chavam o garoto de 11 anos – cujo nome era Miguel – por um nome duplamente especial. E a lâmapada que Miguel acendia quando o Sol ia embora era chamada por um nome menos especial que estes dois, algo como “segundo Sol” ou “Sol de apoio” em sua limitada linguagem.
Haviam mitos de que as formigas já viveram em um mundo maior, mas como a rainha que teria vivido nesse mundo morrera há era, não era possível a verificação. Ninguém sabia explicar porque elas agora tinham de viver em um mundo menor. Também diziam que, antigamente, Miguel fazia cair dos céus presentes para todas as formigas, pedaços de algodão embebidos em água e mel, folhas de diversos tipos e um efentual gafanhoto.
Isso não mais acontecia, agora toda a comida era plantada nas fazendas de fungos no interior da terra. Muitos diziam que era a prova de que antes ouvera algodão embebido, mas outros diziam que as leis naturais do jarro não necessitavam de algodão embebido para explicar a existência de fungos.
Não muito depois que os presentes deixaram de cair do céu, surgiu na língua primitiva das formigas a palavra “destruição”. Surgida na forma de uma criatura de três cores que eventualmente pulava na estante e era capaz de derrubar o jarro, ou derrubar coisas sobre ele. A terra tremia, alguns túneis desabavam, milhares morriam. As formigas conseguiam reestruturar-se, mas não havia em seu pequeno idioma, por mais que tentassem, palavras para descrever o sofrimento que ocorria quando “destruição” chegava. Miguel chamava “destruição” de “Mimi”, mas isso as formigas não entendiam.
Sempre após um ataque de Mimi/destruição, o jarro voltava para seu lugar. Muitos diziam que era a mão de Miguel que os levava lá, muitos diziam que era conseqüência das leis naturais que regem o jarro.
Elas tentavam se preparar, tentavam prever quando Mimi/destruição voltaria para retirar seu pequeno mundo de sua estática órbita na terceira prateleira. Mas por mais que se preparassem, por mais que estudassem os padrões do aparecimento de Mimi/destruição, sempre aconteciam perdas irreparáveis.
Houve até certa vez em que houve uma chuva de Mimi/destruições, apresentando a própria Mimi/destruição original e mais cinco em tamanhos menores e cores diversas. Até mesmo o jarro foi rachado. Alguns viram naquilo o princípio do fim.
Muitos se perguntaram o que Miguel, cujo nome não era mais tão especial, fazia para impedir esse sofrimento. Muitos disseram que ele não existia. Essa corrente crescia dia após dia. Outros diziam que até podiam vê-lo do lado de fora do jarro. Mas as deformações do vidro tornavam difícil saber se aquela forma que se movia pra lá e pra cá diariamente (seguindo quase sempre um padrão de rota e horários) era um “Miguel” ou apenas mais uma das “Coisas-lá-de-fora”. Acabou-se por decidir que não havia prova concreta da existência de um Miguel, assim como não havia prova concreta da não-existência de um Miguel.
Cabia a cada formiga decidir se existia ou não um Miguel.
Aconteceu que, um dia, uma formiga estava contemplando o universo além do jarro, próxima à rachadura, buscando evidências de qualquer coisa que lhe desse sentido para a existência do jarro. Seu nome era um nome que significava algo como Pequeno-Que-Sonha, embora não soasse tão estranho na língua das formigas, e tinha a firme convicção de que o jarro deveria fazer algum sentido, embora todas as teorias que ele já ouvira sobre o sentido do jarro falhassem em algum quesito quando cuidadosamente observadas.
Olhava na direção do segundo Sol, imaginando que força poderosa do universo o mantinha lá em cima, impedindo-o de incinerar o jarro e obliterar a raça formiga. Com o canto do olho, percebeu um brilho secundário, menor do que o segundo Sol, mas com uma propriedade única: o brilho muita de cor e intensidade. Aproximou-se da barreira de vidro, colocando quatro de suas patas sobre ele, inclusive duas sobre a rachadura. Pensou sobre como era poderosa a Mimi/destruição para ter criado tamanha falha no tecido do jarro, mas voltou a atenção para o brilho.
Contido em profundo silêncio, daquele silêncio referente que só os que já tiveram contato com algo numinoso conhecem, sentiu pequenas vibrações passando do vidro para suas patas. Perbeceu que as vibrações vinham daquele brilho errante que nunca antes tinha sido visto. Percebeu que uma forma escura se movia em frente ao brilho, a mesma forma que tinha sido, em outra época, tida como a prova da existência de Miguel. Aparentemente, existia uma interação entre as duas forças.
Pequeno-Que-Sonha ficou extasiado. Fosse o que fosse a sua descoberta, era uma descoberta nova e podia trazer mais luz à grande questão da existência das formigas e do jarro.
Ele correu para os túneis para contar aos seus semelhantes.
***
Miguel atirava contra alienígenas. Eventualmente, ele também era alienígena. Ele viajava pelo espaço e conhecia criaturas peculiares e vivia histórias emocionantes. Desde que estivesse devidamente sentado frente ao computador.
Às vezes desejava viver aquela vida, ou uma vida semelhante em que ele fosse um herói, mas o mundo parece tão vasto aos 14 anos como parecem grandes os desafios. Ele sentia que jamais seria um herói. Jamais viajaria para muito longe e jamais veria um alienígena.
Eventualmente, antes de dormir, olhava para o céu e imaginava se havia alguém lá fora. Talvez alguém que, naquele exato momento, estivésse olhando para a Terra e imaginando o mesmo. Sabia, pelos estudos que, se os dois olhassem um para o planeta do outro ao mesmo tempo, seus olhares só se cruzariam no meio do vazio do espaço daqui a anos. Provavelmente, depois que os dois sonahdores estivessem já mortos. Isso o deprimia e assombrava. Significava que, mesmo que a humanidade não estivesse sozinha no universo, ela estava sozinha no universo.
Por isso jogava, para disfarçar a realidade, para evitar as questões que o fizessem perceber o quão pequeno e insignificante ele era. Como se não houvesse criatura na Terra abaixo dele.
Desviou o olhar e observou o jarro onde ele colocara sua fazenda de formiga três anos antes. Talvez fosse bom colocar um pedaço de algodão embebido em água e mel, como fazia antes. Mas as formigas pareciam estar indo bem sem ele.
De qualquer maneira, Mimi entrou no quarto naquela hora e pulou no colo dele. E a questão ficou para depois.
1 Demonstrações de Atenção:
Uau! Estou me surpreendendo com que leio aqui. Esse texto é ótimo! Isso me lembrou a aquela frase "Deus é uma criança numa fazenda de formigas", não lembro de quem é isso.
Até a primeira parte eu li pensando "Nossa! Uma fábula moderna brilhante!" da segunda parte em diante achei que quebrou um pouco essa visão, o texto deu uma ginada filosofica mais explícita. Acho que podias ter deixado só mais um pouquinho do sentido nas entrelinhas. Mas é só minha humilde opinião, de qualquer forma é um texto excelente.
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