Seus passos ecoaram no corredor vazio. Estava tão vazio que se podia ouvir o canto dos pássaros lá fora. Era fim de ano, o que significava que o campus da faculdade estava quase vazio. Só restavam os que ainda precisavam estar: vencedores e desesperados. Victor fazia parte do primeiro grupo.
Seguindo até o fim do corredor, uma porta à direita onde lia-se “Professor Jorge Ribeiro”. Victor entrou sem bater. O professor Ribeiro era um homem grande com quase sessenta anos. Encorpado, mas não gordo, tinha aspecto feroz que era salientado por uma cicatriz que ia do queixo até a orelha direita. Disfarçada por um óculos de aro grosso, a cicatriz era fonte de diversas teorias sobre o passado do professor. Nenhuma refutada ou confirmada.
Com um aceno de cabeça sério, Victor recebeu a permissão de sentar-se. Ele estava claramente nervoso. Era um rapaz de aspecto agradável, magro e em forma, bem arrumado e olhos que emanavam o estranho brilho daqueles que tem um futuro pela frente, um mundo a descobrir. O sorriso perfeito, que ele nesta tarde atipicamente fria de início de Dezembro exibia para esconder o nervosismo. Victor olhou para a familiar pilha de papéis que estavam à frente do professor. Jorge também olhou para ela, arqueou as sobrancelhas e afastou-a para um lado.
– E então? – perguntou Victor, a voz falhando. Mesmo aos 23 anos, a voz falhava como se ainda estivesse na puberdade.
– Bom. – disse Jorge, abanando a cabeça levemente. Sua voz era rouca, cansada, lenta – Muito bom. Acho que já está pronto. Só falta apresentar.
Victor quase pulou da cadeira.
– Minha tese de conclusão está pronta? Que bom, eu trabalhei muito pra isso…
Jorge fez uma careta. Era a sua tentativa de sorriso simpático. Ele pegou um maço de cigarros de uma gaveta da mesa e acendeu.
– Feche a porta. – ordenou.
Victor fechou a porta com um gesto rápido. Sentou-se novamente.
– Agora… – começou o professor – Eu vou lhe contar algo que aconteceu comigo há muitos anos… Você nem devia ter nascido ainda… A reitoria me proibiu de contar essa história porque da primeira vez que eu contei ela em público uma turma inteira de bixos largou o curso… Então tem que me prometer que não vai contar nada disso pra ninguém, ouviu?
Victor assentiu nervosamente. Jorge coçou a barba, bem em cima da cicatriz, antes de continuar:
– Vou pouco depois que eu me formei… Era meu primeiro trabalho como professor de Português… em uma turma de quinta-série de uma escola pública daqui mesmo da cidade… As crianças ainda estavam saindo do esquema de “tias” da quarta-série… Eu estava pronto para mostrar a elas que elas conseguiriam se virar sozinhas… descobrir o mundo por si mesmas… não precisavam do eterno cuidado de uma figura materna por perto… – ele deu uma tragada, a fumaça envolvia-o, contornava-o, coroava-o – Estimulei-as a perguntar… Sempre… Fiz um esquema em que, quando um dos alunos perguntava o significado de uma palavra, eu o entregava um dicionário e depois ele me explicava com suas próprias palavras… Assim, a criança aprendia a procurar por si mesma as respostas e também a internalizar e desenvolver conceitos… parecia uma boa idéia na época…
Victor assentiu. Parecia uma boa idéia. Ele estava pensando até em incorporá-la em sua própria aula. Jorge coçou o pescoço, fez uma nova careta, uma careta de quem relembra uma mágoa antiga, que finge esquecer todo dia, mas permea todas as ações de um dia. Um trauma antigo e eterno que jamais seria esquecido.
– Luis Marinho Colares… Era um dos meus alunos… Luizinho… Parecia um aluno promissor, fazia as perguntas certas, fazia os trabalhos, participava das aulas… até o elogiei para a mãe, quando a encontrei por acaso um dia no supermercado… – meneou a cabeça – Antes eu não o tivesse feito… eu testei o destino… Jamais teste o destino, Victor… entendeu?
Victor assentiu, ele estava teso na cadeira. Suava frio. Mal respirava.
– Um dia… Mais precisamente, dia vinte e três de Abril de mil novecentos e setenta e seis… Luizinho, o maldito, pediu a definição da palavra “ádito”… Eu lhe entreguei o dicionário… Ele começou a folhear avidamente… Adorava o jeito ávido como ele perseguia o conhecimento… Ele parou e começou a correr a página com os olhos… Ele levantou a mão… “Professor, posso fazer uma outra pergunta?”, ele disse… “Pode”, eu disse “claro que pode”… – Jorge respirou fundo – Ele perguntou “Como é que ‘adjetivo’ pode ser substantivo?”…
Victor não teve reação. Jorge olhou para baixo, apoiando a cabeça na mão. Conteve as lágrimas que lhe vinham.
– Merda… – Victor conseguiu dizer.
Jorge levantou-se e caminhou até a janela, observando a paisagem quieta lá fora. Apesar de nublado, algumas flores amarelas resplandeciam inocentemente. Alheias à história que acabara de ser narrada.
– Todos nós temos nossos demônios, Victor… A maioria das pessoas têm que se preocupar com os demônios internos… Mas os dos professores estão na sala de aula… esperando, disfarçados de crianças inocentes… dando-lhe esperanças de um futuro melhor… e então lhe atacam com ferocidade, fazendo-lhe perder a fé na humanidade… Uma pergunta tão estúpida, que é irrespondível à primeira vista… Maldito seja Luizinho… Maldito seja e que vá para o inferno!
Jorge bateu contra a parede. O som oco ecoou pela sala. Victor ainda estava grudado na cadeira.
– Não existe Deus, Victor… Ou, se existe, Ele é um sádico miserável… Francamente, prefiro acreditar que a nossa existência é vã e que tudo é obra do acaso… Pois não existe propósito maior que justifique tamanha barbárie… – ele voltou-se para a mesa – Você pode ir agora…
Victor assentiu e levantou-se, abrindo a porta o mais rápido que podia, mas foi interrompido.
– Vejo você na apresentação de tese… e, já posso adiantar, parabéns pela formatura…
Victor tentou conter as lágrimas enquanto saía, retornando por aquele corredor vazio que agora parecia mais escuro e cinzento. Seus passos ecoavam no corredor de novo, mas os pássaros não mais cantavam. E seus olhos não tinham mais aquele brilho…
segunda-feira, 28 de março de 2011
Luizinho, O Maldito
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