sexta-feira, 18 de março de 2011

Emocionautas

Eram emocionautas, na falta de um termo melhor. E, sendo este o termo melhor, depreende-se que não há muitas palavras para descrevê-los. Eram inúteis, simplesmente. Amontoados de carbono sem nenhuma perspectiva futura ou glória passada para dar sentido às frágeis faíscas que eram suas vidas. Para redimir-se um pouco, simulavam um ócio criativo, debatendo os grandes problemas da humanidade. Sem, claro, chegar a qualquer conclusão ou tomar qualquer providência.

– Você acha que a vida imita a arte ou a arte imita a vida? – perguntou Clara, enquanto caminhavam por uma alameda.

– Existia arte antes da existência da vida? – rebateu Alexandre.

Os menestréis da inutilidade caminharam ainda em silêncio até que Clara retomasse:

– Mas a arte estabelece padrões, não? Quantos namoros não acabam porque as mulheres esperam que seus namorados invadam aeroportos para se declararem ou quantas tecnologias não sugiram primeiro em uma ficção científica?

– Isso tem algum propósito ou é só pra não ficar um silêncio constrangedor?

– Olha, eu só quero dizer o seguinte: Talvez a arte um dia tenha sido pura e unicamente imitadora da vida, mas isso já era. A arte dita a moda. A moda é uma arte, não é?

– Não sei. Acho que é, sei lá.

– Certo. Vamos esquecer a moda. Até porque, nenhum de nós entende disso mesmo. – Clara apontou para as pantufas de Alexandre. Alexandre usava pantufas sempre, mesmo em público. As achava confortáveis – Eu só tô dizendo que os primeiros homens, quando pintaram as paredes de suas cavernas não conheciam, por exemplo, o amor. O ser humano teve de inventar o amor, que nunca tinha sido retratado nas artes deles. A vida seguia seu caminho sem a arte. A arte era mera cópia, a sombra na parede da caverna. Hoje, as pessoas querem romances de cinemas, querem grandes emoções, querem “aprontar altas confusões que até Deus duvida com uma galerinha pra lá de esquisita”.

– Hummm…

– Sabia que no dia das bruxas de 2008 foi planejada uma reencenação da cena de Twist and Shout do Curtindo a Vida Adoidado numa parada em Nova Iorque?

– Curtindo a Vida Adoidado não é em Chicago?

– É! É em Chicago! O ponto é: As pessoas querem recriar a arte em suas vidas e, assim, a arte se torna cópia de uma arte mais antiga. E a própria vida se estagna.

– Acho um exagero. – disse, Alexandre, enquanto eles passavam por um chafariz – Arte e vida se completam. Tipo… um cara vê uma coisa, acha legal, e tentar inventar o seu próprio jeito de imitar isso. Sabia que os personagens do aquário em Procurando Nemo foram pensados como uma homenagem cômica a Um Estranho No Ninho?

– Sério?

– É, mais ou menos…

– Sei lá, parecem que as pessoas não conseguem mais ser originais. As pessoas citam músicas ou autores famosos na internet porque não conseguem descrever a si mesmas ou seus sentimentos. Elas querem que pessoas que não as conhecem, e algumas que morreram há séculos, as definam! Como se a falta de definição fosse um problema, não uma chance para elas aprenderem a falar suas próprias palavras ou cantar suas próprias músicas… Isso me deixa triste, saber que tudo é cópia do que já foi… Me deixa ansiosa e angustiada… Então eu grito às vezes quando estou na minha cama, só pra tirar tudo o que ocupa minha mente e eu… eu me sinto um pouco peculiar…

Alexandre fanziu o cenho. Receoso, perguntou:

– Isso não é uma música do 4 Non Blondes?

Clara deu de ombros.

– Só porque é deles, não quer dizer que eu não sinta exatamente isso…

Então ela mudou de assunto.

2 Demonstrações de Atenção:

Helena disse...

Tu é a pessoa mais original que eu conheço. (sério)

Apesar de afirmar que é o Ken, claro.

Carlos Flies disse...

Pow, esse texto é mtu afu! Talvez seja o melhor que já tenha lido por aqui. Talvez...