Parte III
A cafeteria não tinha muita gente, apenas o suficiente para uma pequena balbúrdia. Entrei correndo, com nada na minha mente a não ser uma tentativa desesperada de formular os próximos passos. A minha primeira tentativa de aproximação com a jovem Samanta Vieira tinha se mostrado extremamente infrutífera. E dolorosa. Sentei ao balcão do café, apesar de escuro e triste, retirei de um bolso um bloco de notas, para rabiscar enquanto a mente não engrenava.
– Tá bom, eu sei porque você veio… – disse uma voz robótica à minha frente. Era a mesma garçonete-robô que me atendera quando eu estive lá da primeira vez – Toma aqui a sua moeda de volta.
Ela colocou uma moeda de R$0,50 sobre o balcão. A mesma com a qual eu pagara o café no dia anterior. Eu não tive reação, não estava entendendo direito o que estava acontecendo.
Ela suspirou. Um suspiro robótico.
– Como você descobriu que isso vale uma fortuna?
– Eu tenho meus meios. – respondi, mecanicamente.
– Ontem você me jogou essa coisa como se não valesse nada! Pensei em aproveitar a chance… Não é todo dia que se pode ganhar tanto dinheiro… Já estava fazendo planos…
A postura dela, ombros caídos e cabeça baixa, era de total decepção. Como se, dentro daquele corpo de metal frio existisse uma alma sonhadora já acostumada com decepções. Percebi então como era intricado aquele projeto. Embora claramente não-humano, seu rosto havia sido moldado de forma delicada no metal, como um bronze, mas em linhas mais simples. Seu corpo também seguia esse estilo de humanidade artificial simplificada. Se existe tal termo.
– Talvez você devesse ficar com ela. – eu disse, empurrando a moeda para longe de mim.
A garçonete pegou a moeda, estudou-a com seus luminosos olhos azuis. Seu rosto metálico sorria.
– Lei de Godwin! – ouvi um homem gritar atrás de mim.
Voltei-me para a direção do som. Numa das poucas mesas ocupadas, um casal estava discutindo. O homem se levantara bruscamente e apontava para a mulher, que parecia atônita. Seu pavor não diminuiu quando uma luz verde invadiu a cafeteria e dois homens esguios em uniformes pretos se materializaram no ar.
Como mágica.
– Não! Esperem! – gritou a mulher – Nós estávamos debatendo os movimentos extremistas da Europa do Século XX! Não é justo!
– Senhorita Cavalcanti, – disse um dos homens esguios, em voz séria e autoritária – você violou o Código de Civilidade, Artigo N°16, parágrafo 3.
– Mas o contexto… – protestou a mulher.
– Conhece a lei, senhorita. Três meses em suspensão das faculdades mentais. – repreendeu-a o homem. Ele virou-se para o outro homem uniformizado. Os dois assentiram. O segundo homem estalou os dedos. Um novo flash verde tomou conta do café. E a mulher tombou no chão, como uma mulher de pano.
E os homens desapareceram, de forma tão mágica como surgiram.
– O que diabos foi isso? – exclamei.
A garçonete-robô tirou seus olhos da moeda, aparentemente o que acabara de suceder não lhe impressionara. Ela me olhou diretamente nos olhos, confusa.
– Você não é daqui, é?
***
– Eu estou muito longe de casa! – exclamei, observando a cidade aos meus pés.
– QUATROCENTOS ANOS LONGE DE CASA! – concordou Ozymandias, com sua voz trovejante.
Estávamos em uma espécie de loft abandonado e escuro. Meus pés deixavam pegadas na poeira acumulada no chão. Já o mundo lá fora parecia vibrante e vivo. Luzes piscavam, torres de concreto, metais e vidro, embora frias e distantes, pareciam um convite de um mundo novo de aventuras. Os céus pululavam com os mais diversos tipos de aeronaves passeando apressadas por entre essas torres. Holofotes riscavam o céu escuro. E o som persistente de aglomeração humana permeava cada centímetro do que estava diante de mim.
– É simplesmente incrível! – exclamei de novo.
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU JÁ VI DIVERSAS CIDADES, DAS MAIS PODEROSAS ÀS MAIS HUMILDES! NO PRINCÍPIO E NO FIM DOS TEMPOS, EU AS VISITEI! APRECIE-A, HUMANO, MAS ESTA É APENAS MAIS UMA ENTRE TANTAS!
– Eu estava falando da viagem temporal… – corrigi-me, virando para Ozymandias – É simplesmente incrível.
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! HUM… MUITO OBRIGADO!
– Agora, o que me deixa curioso é que você precise daquele avestruz para viajar…
– EU NÃO PRECISO DELE! EU SOU OZYMANDIAS, O --
– O Absoluto, eu sei… Mas… Corrija-me se eu estiver errado, mas Roberto disse que te encontrou em um deserto de sal… é verdade?
– É!
– Diga-me, oh Ozymandias, O Absoluto: O que uma criatura tão poderosa como você estava fazendo trancado num deserto de sal com um livro de História Humano dentro de si, tão necessitado que precisava ser resgatado por um avestruz?
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! OBSERVE-ME, MORTAL! HÁ EM MIM DIVERSAS INSCRIÇÕES, SÍMBOLOS DE DIVERSOS TIPOS! É DELES QUE TIRO MEUS PODERES! EU TRANSFORMO AS ATRIBUIÇÕES DOS SÍMBOLOS EM PODER PURO! O ESCARAVELHO REPRESENTA A ETERNIDADE, AS ASAS O ESPAÇO! ESSES SÍMBOLOS ME FALTAVAM QUANDO FUI ENCONTRADO, ROBERTO OS SUBSTITUIU POR OUTROS NOVOS. EM TROCA, PROMETI DAR A ELE UMA VIAGEM NO TEMPO PARA CONSERTAR O QUE QUISESSE! QUANTO AO LIVRO, COMPETE APENAS A MIM SABÊ-LO!
– Tira poder dos símbolos? Uma máquina movida a energia conceitual?
– PRECISAMENTE!
– E o que o ankh significa? – perguntei, apontando para o símbolo que havia abaixo do escaravelho alado.
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU VIAJO PELOS LIMITES DA VIDA E DA MORTE, QUANDO AS COISAS-QUE-SÃO SE TORNAM COISAS-QUE-SERIAM, É POSSÍVEL QUE O VIAJANTE TEMPORAL PROVOQUE A PRÓPRIA MORTE, ESTE SÍMBOLO PROTEGE OS QUE ESTÃO DENTRO DE MIM DESTE PERIGO!
– Então quem está dentro de você é imortal?
– NÃO, APENAS NÃO É APAGADO OU MORTO NUMA REFORMULAÇÃO TEMPORAL.
– E quem prendeu você no deserto de sal?
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! DIVERSOS REINOS, RAÇAS E PESSOAS JÁ ME PRENDERAM NO DESERTO DE SAL! ELE ME CHAMA, ESTOU LÁ INFINITAS VEZES, CADA VEZ PARA UMA PESSOA, APENAS À ESPERA. AGORA MESMO ESTOU LÁ, ESPERANDO UM PRÓXIMO VIAJANTE, A QUEM OFERECEREI A CHANCE DE MUDAR A HISTÓRIA.
– Então, qual é a utilidade do que eu possa fazer aqui?
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU VEJO OS FLUXOS DO TEMPO! EU SEI ONDE ELES VÃO DAR! E NO MOMENTO ELE ESTÁ TORTO, SEM SENTIDO, SÓ COM UMA QUANTIDADE QUASE INFINITA DE ALTERAÇÕES ELE SE AJEITARÁ PARA FORMAR O PADRÃO PERFEITO!
– Então você é uma espécie de programa de desfragmentação do HD do Universo?
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! MAS, DE CERTA FORMA, SOU ISSO TAMBÉM, SIM…
Encarei aquele gigantesco sarcófago, sete vezes mais antigo que o Universo, deslocado para um loft abandonado quatrocentos anos no futuro. Era realmente impressionante.
– Isso é muito impressionante… – eu disse – Se for verdade…
– COMO ASSIM?
– Bom, você me descreveu o seu funcionamento e função… Até agora, tudo o que eu posso dizer é que tudo isso que você me disse parece bastante mágico… Mas a Terceira Lei de Clarke diz que “qualquer tecnologia suficientemente desenvolvida é indistingüível de mágica”…
– E DAÍ?
– Diga-me, Ozymandias, O Absoluto: Deus é um mago ou um cientista?
– COMO ASSIM?
– Eu adoraria acreditar que você é parte da programação do Universo, porque isso significa que uma força consciente criou o Universo. No entanto, sua existência infinitas vezes em um deserto de sal me parece não fazer sentido. E, mesmo que eu acredite na existência de um Programador do Universo, eu não posso aceitar uma prova falsa para provar a verdade… Então, Ozy, quem o criou?
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! COMO OUSA UM HUMANO DUVIDAR DE MEUS PODERES MESMO AO VER-SE QUATROCENTOS ANOS A FRENTE NO FUTURO, COMO PROMETI?
– Não duvido de seus poderes, Ozymandias! Duvido de sua origem! Prove-me que você é parte da programação do Universo!
Minha voz ecoou pelo loft. Por alguns instantes, Ozymandias não respondeu. Mas pude sentir uma forte energia emanando dele, como se um raio estivesse prestes a disparar de dentro dele. Ele então respondeu:
– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU PROVAREI QUE SOU PARTE DA PROGRAMAÇÃO DO UNIVERSO, QUANDO FOR A HORA!
– E quando será a hora?
– DEPOIS! AGORA, VOCÊ PRECISA IR ATRÁS DE SAMANTA VIEIRA E, DE ALGUMA FORMA, CONVENCÊ-LA A NUNCA ESTUDAR A TECITURA DO TEMPO!
– Legal… Enquanto isso tu fica descansando aí, né? – suspirei – Vou precisar de um café.
***
Encontrei uma cafeteria aberta no caminho para a escola de Samanta Vieira. Era um café escuro e pequeno. Estava cheio àquela hora. Barulhento, ninguém ouvia o som da pequena TV que ficava próxima ao balcão. Abafado. Sentei-me ao balcão e pedi um café a uma garçonete robótica que me atendera. Eu teria prestado mais atenção àquela figura, não é todo dia que se vê um robô, mas ouvi a palavra “avestruz” vindo da TV. Apurei os ouvidos.
– … e você diz que eles são dotados de extrema inteligência, Doutora Cardoso? – perguntou um apresentador de talk show de tarde preguiçosa, de trás de seus grossos óculos bifocais.
A garçonete me trouxe a xícara de café.
– Mais do que qualquer outro animal já estudado! – respondeu a entrevistada, uma senhora elegante de cabelos curtos e olhos azuis bastante vivos – De fato, já conseguimos fazer dois de nossos avestruzes desenvolverem um vocabulário de mais de trezentas palavras. Um deles é capaz inclusive de articular algumas palavras em língua humana, em contextos que ele certamente reconhece.
– Me desculpe, Dra. Cardoso! – disse o apresentador – Mas é difícil acreditar que logo os avestruzes sejam criaturas capazes de desenvolver essas habilidades!
– Tenho a impressão de que eles são muito mal aproveitados. Se dermos a chance, suas habilidades se desenvolvem de maneira exponencial. – assegurou a cientista.
– Será que um dia eles serão capazes de ser tão inteligentes quanto nós? – brincou o apresentador.
– Não, creio. – disse a distinta cientista, no alto da sabedoria adquirida com a idade – Por mais esperto que o avestruz seja, é impossível que ele seja tão esperto quanto o ser humano.
Dei uma risada sarcástica para ninguém especial na cafeteria. E tomei um gole de café. Cuspi quase metade de volta na xícara. Era como se um comitê de pessoas tivesse se juntado, decidido as características básicas do café e tentado recriá-las misturando qualquer coisa que encontrassem na frente que não fosse café. E depois adicionassem plástico.
– Desculpe, mas que café é esse? – perguntei, chamando a garçonete-robô.
– É SynCa, é claro! – ela respondeu.
– Desculpe, mas isso não é café! Vocês não têm outro?
Ela lançou-me um olhar confuso.
– SynCa é o único café que existe, senhor!
Dei de ombros.
– Tá, que seja. Eu tenho que ir mesmo. – revirei os bolsos, tirei uma moeda de R$0,50 centavos – Isso paga?
Ela hesitou antes de responder.
– Paga. Paga sim.
E fui embora.
***
Samanta Vieira, a garota que destruiria a raça humana estaria na escola naquele horário. Pelo menos por mais cerca de meia hora. Decidi que eu faria uma abordagem direta através da diretoria. Ela poderia não gostar de ter um estranho perseguindo-a na rua chamando-a pelo nome. Pediria para falar com ela em particular, sob um pretexto qualquer e explicaria a minha louca história. Se necessário, poderia chamar Ozymandias pelo celular para confirmar tudo. Aparentemente, ele também checa eternamente a secretária eletrônica de um certo número que permanecerá em secreto.
Entrei na escola. Parecia uma escola bastante organizada, embora antiga. Chão de porcelana com delicados arabescos, paredes de pedras cinzentas, ecos a cada passo. Aquilo devia ser um inferno na hora do intervalo.
Encontrei a sala da diretoria, uma porta com o nome “Diretora Schulz”, protegido por um vestíbulo para a secretária. Não havia secretária, embora houvesse uma cadeira para ela, e o computador de sua mesa estivesse ainda ligado. Devia ter dado uma saída rápida, resolvi sentar-me e esperar. Mas a porta da diretoria se abriu, revelando uma mulher alta e magra com pouco menos de trinta anos, de olhar firme e cabelos castanhos curtos. Olhos de um verde escuro e denso.
– O senhor pode entrar. – ela disse, em tom de ordem.
– Eu não tenho hora marcada.
– E eu não tenho nenhum compromisso agora.
Levantei-me e entrei na sala. Uma mesa de mogno e uma poltrona de couro descansavam à frente de uma prateleira de livros que ia do teto ao chão. Sobre a mesa havia uma pilha de papéis, uma placa que dizia “Diretora Maria Schulz”, porta-canetas e porta-retrato. Muito organizados, mas não a tempo de serem intocados. Havia uma cadeira de plástico do outro lado da mesa, para os alunos. Diplomas e recortes de jornal, entre fotos de eventos cobriam uma das paredes laterais.
– O que o senhor deseja? – perguntou ela, me indicando a cadeira de plástico.
– Não, obrigado, prefiro ficar de pé. Diretora Schulz, eu preciso falar com uma de suas alunas, Samanta Vieira, do quarto ano.
– O senhor é parente dela? – perguntou ela, analisando-me de cima abaixo com o olhar.
– Sou… Sim! Primo dela. Preciso tratar sobre um assunto familiar com ela. É urgente.
– Pra quê a pressa? Você tem todo o tempo do mundo! – ela perguntou-me, em tom ríspido, indo em direção á mesa e retirando algo da gaveta.
– O que a senhora disse?
– Que o senhor tem todo o tempo do mundo, Sr. de Oliveira.
Meus olhos procuraram os dela para saber o que ela estava pensando, mas pararam no caminho, bateram numa das matérias de jornal na parede. A manchete lia-se “Diretora Schulz recebe prêmio de excelência acadêmica” e apresentava uma mulher segurando um troféu. Uma mulher de meia-idade.
– A senhora está certa… – eu disse, dando alguns passos para trás – é melhor eu voltar depois!
Ela avançou sobre mim. Nunca senti tamanha dor como quando a faca entrou em meu estômago.
– Não há depois. – ela disse, sem qualquer emoção.
Eu caí no chão. Ela simplesmente saiu e trancou a porta. Pude ouvir o sinal tocando e a alegria dos estudantes e dos professores ao verem-se livres daquele lugar até o dia seguinte. Eu estava certo, o barulho de mil pés naqueles corredores era ensurdecedor.
Ninguém podia me ouvir gritar.
terça-feira, 15 de março de 2011
As Estranhas Aventuras de Ozymandias e André: Má Direção
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