sexta-feira, 25 de março de 2011

As Estranhas Aventuras de Ozymandias e André: Garotas Mortas

Parte I

Parte II

Parte III

Parte IV

Parte V

Caía uma fina e insistente chuva no fim daquela tarde. A robô-garçonete colocou um longo casaco verde-musgo ao sair. Era estranho, mas aquela máquina protegia-se e vestia-se como se houvesse nela alguma nudez a esconder. Caminhamos pelas ruelas sufocadas pelos prédios assim que ela terminou o expediente.

– Renata. – ela respondeu à minha pergunta.

– Legal… tenho algumas amigas com esse nome… e algumas inimigas… – eu disse – Achei que robôs teriam nomes como C-3PO ou R2-D2…

– Ah, sim… Eu fui… Adotada.

– Adotada por humanos? – perguntei, surpreso.

– É… Não exatamente. Eu fui, na verdade, encomendada. É isso.

– Encomendada?

– É… Existia uma Renata antes de mim. A mãe morreu no parto e o pai era muito apegado à garota, como se uma centelha da vida da mãe estivesse viva na garota…

Se olhos robóticos vertessem lágrimas, ela teria feito uma pausa para secar uma.

– Não precisa contar se não quiser. – eu disse.

– As pessoas raramente perguntam… Não vou desperdiçar essa chance…

Assenti.

– A garota era a razão de existir do pai… Dizem que ela era muito inteligente e animada… Estava sempre observando o mundo com grandes e curiosos olhos azuis, fazendo perguntas certeiras, arrancando do pai um sorriso… Mas… Mas…

– Mas…?

– Mas a garota tinha um raro problema no sangue que destruía as CARA… Ela sofreu um acidente… Carro, se não me engano. Mas não foi atendida à tempo. Não sabiam que ela tinha deficiência de CARA até ser tarde demais…

– Eu… ãhn… Sinto muito… – eu realmente não sabia o que dizer.

– Alguns hospitais particulares, como o hospital no qual a Renata original nasceu, oferecem um implante no cérebro que retém todas as memórias de uma pessoa… Dá pra imaginar o resto…

Cruzávamos por alguns tipos curiosos, a rua estava lotada. Por vezes, era difícil escutar um ao outro.

– Você veio do interior, não é? – perguntou ela.

– É… Acho. Sim, vim sim!

– Qual o seu nome?

– André Darsie de Oliveira.

– Belo nome, já tive alguns amigos chamados André. E alguns inimigos também.

– Imagino que sim.

Ficamos em silêncio por alguns momentos, enquanto seguíamos nosso caminho em meio à multidão.

– O que foi aquilo? – perguntei.

– “Aquilo” o quê?

“Aquilo”  era, para mim, algo difícil de descrever. Havia tanta coisa estranha e incomum sobre “aquilo” que eu mal conseguia decidir por onde começar a pergunta, mas me esforcei o máximo que pude.

– Aquilo na cafeteria! Lei de Godwin, os homens que aparecem do nada… A mulher…

– Ah sim! O Código de Civilidade! Vocês não têm isso lá no interior?

– Depende… O que é isso?

– Bem, no caso… a Lei de Godwin, diz que--

– Eu sei o que a Lei de Godwin diz. – interrompi.

– Bom, se alguém cita algo em uma conversa que faz com que o outro alguém tenha motivos para invocar a Lei de Godwin, a polícia capta o chamado e é imediatamente acionada. Dependendo da gravidade do caso e reincidência, uma pessoa pode ficar de duas semanas a nove anos em estado de animação suspensa.

– Espera um pouco! Está me dizendo que a polícia tem o poder de aparecer imediatamente para punir uma pessoa por causa da Lei de Godwin, mas não pode impedir um… – pensei um pouco antes de dizer, mas decidi que a próxima palavra não revelaria minha origem temporal – assassinato?

Renata deu de ombros.

– A tecnologia atual permite que a polícia seja ativada imediatamente apenas para umas poucas leis… No caso, foi escolhido o Código de Civilidade. Se uma pessoa viola a Lei de Godwin, joga lixo pela janela do carro ou tenta colocar uma música para tocar automaticamente quando se acessa um site da internet, a polícia aparece imediatamente… nos outros crimes, é preciso esperar…

– Faz sentido, a polícia pune imediatamente pessoas que precisam ser imediatamente punidas.

– Exato!

– Legal. – disse eu, franzindo o cenho. Embora gostasse da idéia, ela provocava em mim um sentimento de estranheza. Um choque cultural causado não pelos limites geográficos, mas pelos limites temporais.

Os olhos azuis dela me analisaram de cima abaixo. Curiosos.

– O que um interiorano como você faz por aqui, afinal? Não quero me intrometer, mas você se impressiona facilmente como eles, mas age e fala diferente. Como se soubesse o que está fazendo…

– Ha! Quem me dera eu soubesse o que estou fazendo! Sei, no máximo, o que estou tentando fazer…

– E o que você está tentando fazer?

– Estou aqui tentando salvar a literatura e--

– Você é escritor? – ela perguntou, entusiasmada.

– É… pelo jeito… acho que sou, sim…

– Isso explica porque você é excêntrico…

– Excêntrico? Eu? – me senti elogiado.

– Sim! Que tipo de pessoa anda por aí pagando café com moedas de quatrocentos anos de idade? – ela retirou a moeda do bolso, como que para me lembrar o que era uma moeda de R$0,50 – Só não sabia que escritores ganhavam tanto…

– É, bom, não se preocupe. Tenho várias dessas. – respondi, meio sem pensar. Ela recolocou a moeda no bolso. Ainda sorrindo.

Dobramos uma esquina. Eu não sabia direito para onde estava indo, mas parecia que era ela quem me seguia.

– Você disse que já estava fazendo planos sobre onde gastar essa moeda. – eu disse – Pode me contar que plano é esse?

Senti que ela corava, mesmo não havendo qualquer mudança na cor metálica de seu rosto. A alma dela corava. Uma alma artificial composta dos fragmentos de memória de uma garotinha morta há anos. Uma coisa estranha em vários níveis. Mas não pensei sobre isso na hora. Estava conversando com uma pessoa.

– Bom, pra começar… Eu vou fazer uma viagem…

– “Pra começar”? – tentei calcular quanto aquela moeda valeria.

– Sim… Pro deserto do Atacama.

– Atacama?

– É… Sempre quis ir para lá.

– Por que o Atacama?

– Eu não posso chorar, mas lágrimas sempre me fascinaram… Uma grande extensão de sal me lembra as lágrimas de muitas pessoas.

– O mar me lembra as lágrimas de muitas pessoas.

– É… mas prefiro o Atacama… me dá a idéia de que, não importa o quanto você chora, as lágrimas vão secar um dia…

“Que bobagem sentimentalóide”, pensei.

– É poético. – eu disse.

– É uma bobagem sentimentalóide… – ela replicou – Mas é uma bobagem sentimentalóide que eu sinto muito intensamente dentro de mim… Não posso ignorá-la pra fingir um pouco de sobriedade…

– Acho que tem razão…

– Sabe… O pai da Renata… da Renata original… nunca entendeu que eu não era a mesma pessoa que a Renata original… Mesmo que tivesse todas as memórias dela… eu sempre fui ciente de ser uma máquina. Eu sempre soube que eu era uma réplica. Eu cresci ouvindo pessoas dizendo isso a ele… “Eu sei disso!”, ele respondia, “Mas, robô ou não, ela é e sempre será a minha princesinha!”… Mas as pessoas insistiam… Por isso, ele se isolou de todos os amigos… Por anos, vivemos num mundo mágico, só eu e ele… Longe de todos… Bom, faz parte da minha programação aprender e crescer… um dia, eu me tornei uma pessoa independente, alguém que ele não tinha planejado… Ele começou a perceber que, não só eu não seria pra sempre a sua princesinha, como que também eu não era a Renata original… Eu era minha própria Renata… Ele me expulsou de casa…

– Eu sinto muito…

– Mas o pior é que eu tenho essas memórias dentro de mim… Eu lembro do rosto dele, do jeito como ele falava com a Renata original… do sorriso dele quando ela o orgulhava… Antigamente, eu pensava que tudo o que ele sentia pela Renata original ele sentia por mim… Hoje eu sei que essas memórias não me pertencem… aquele sorriso nunca foi dirigido a mim… Ele nunca me amou… Ao menos não por quem eu era, mas por quem ele queria que eu fosse… E ele se isolou de todos para proteger essa fantasia… e me levou junto… Meu pai, que era a única pessoa que conheci por muito tempo, nunca me amou… Ninguém nunca me amou… – ela suspirou, um suspiro profundo e cheio de angústia, cheguei a pensar que ela de fato respirava – E eu não posso nem chorar por isso!

Ela sentou-se (ou, antes, desabou-se) na soleira de uma porta. Ficou ali, sentada, encarando os próprios pés. Coloquei a mão sobre seu ombro, o casaco protegendo-me do frio de sua “pele”.

– Desculpe, você não tem nada a ver com isso… – ela disse, com a voz baixa, quase não se ouvindo sob o som do tráfego infernal de aeronaves na hora do rush – É que ninguém fala com robôs… Quase ninguém… Nos tratam como simples aparelhos… muitos de nós são programados sem sentimentos, é verdade, mas há muitos robôs que são como eu, fantasmas aprisionados em corpos mecânicos, abandonados por famílias egoístas demais para respeitar a memória de um ente que se foi… E mesmo nós robôs não falamos sobre isso… nunca sabemos se quem está do nosso lado é um robô-aparelho ou robô-fantasma… Vagamos por aí, apenas cumprindo nossas tarefas e nunca falando com ninguém… Afinal, dizem, robôs não nascem com almas…

Ajoelhei-me a fim de poder encará-la olho a olho. Então disse:

– Renata, já vi muitos humanos perderem sua alma. Não há porque duvidar que uma máquina possa ganhar uma.

– Então… Você acha que eu valho tanto quanto um ser humano?

– Até mais que alguns.

Ela abraçou-me forte, daqueles abraços que as pessoas em desespero dão quando encontram um ombro amigo. Pude sentir que ela nunca antes tinha sentido a sensação de dar um desses abraços.

– Se todas as pessoas fossem como você… – ela deixou a frase no ar. Dando-me espaço para cogitar o que aconteceria com o mundo se todas as pessoas fossem como eu.

Não foi um pensamento agradável.

***

– VOCÊ FOI ESFAQUEADO? – perguntou-me Ozymandias, O Absoluto.

– Fico surpreso que você não saiba! – esbravejei, minha voz ecoando no loft vazio.

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU SEI DAS COISAS-QUE-SÃO E DAS COISAS-QUE-SERIAM! NADA ME ESCAPA!

– Aparentemente, você não sabe das coisas-que-foram! Eu fui esfaqueado por uma mulher fingindo ser a diretora da escola de Samanta! Me explique quem é essa pessoa!

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU… NÃO SEI…

– Não sabe? Não faz idéia? Ah, ótimo! Ótimo, oh poderoso Ozymandias, O Abusoluto! O que você ficou fazendo nesse meio-tempo, hein? Porque, desde que fui esfaqueado eu tive uma conversa com a Morte que causou uma pequena mudança na programação do Universo para que, se eu morresse, o Universo não entrasse em colapso, pulei de uma janela de dois andares, me arrastei até o “consultório” de um médico aparentemente não-licensiado, recebi uma injeção de células regenerativas, presenciei uma pessoa sendo destituída de sua própria consciência por ter violado a Lei de Godwin e realizei os sonhos de uma robô-garçonete no que parece ter sido uma grande violação do status quo na relação homem-máquina nessa sociedade! E o que você fez?

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU… VERIFIQUEI OS RECADOS DA SECRETÁRIA ELETRÔNICA.

– Verificou os recados da secretária eletrônica? Oh! Ótimo! Sabe, acho que percebo uma pequena falha no seu plano: eu não posso mandar recados para uma secretária eletrônica quando meu estômago está vertendo sangue! E sabe do que mais? Não faz sentido uma criatura onisciente precisar checar uma secretária eletrônica para receber recados! Então me diz agora que porra tá acontecendo, porque eu não quero arriscar de novo um encontro com a Morte!

– AGSUTE.

– Agsute?

– SIM, AGSUTE!

– Agsute, a entidade que controla a mente dos gênios que são levado pro futuro por Samanta e eu? O que tem ela?

– ELA ESTÁ SE ESPALHANDO.

– “Se espalhando”?

– DE ALGUMA FORMA, AGSUTE ESTÁ SE ENTRELAÇANDO AO TECIDO TEMPORAL, ESTICANDO-SE AO PASSADO E AO FUTURO. ESSA ENTIDADE CONSEGUE LIMITAR MINHA VISÃO DAS COISAS, ATÉ CONFUNDIR-ME, POR VEZES. MAS O PRÓPRIO UNIVERSO ESTÁ TENTANDO RESISTIR A INCORPORÁ-LA EM SI! HÁ MILÊNIOS E MILÊNIOS EU OUÇO, COMO UM SUSSURRO DO PRÓPRIO UNIVERSO, O NOME DE AGSUTE, UM AVISO PRESO JUNTO À RADIAÇÃO DE FUNDO, DE QUE O PERIGO ESTÁ PRÓXIMO, DE QUE AGSUTE ESTÁ SE ESTICANDO. E QUE, SE ALGO NÃO FOR FEITO, ELA HÁ DE CONTAMINAR TODO O UNIVERSO!

– Mas Agsute não pode ser tão poderosa! Essa entidade é destruída, certo? Os avestruzes não estão sob domínio dela!

– AGSUTE SE ESPALHA PELO PASSADO E PELO FUTURO. SIM, ELA É DESTRUÍDA, MAS ELA ESTÁ CONTORNANDO ISSO, ALTERANDO O TECIDO DO TEMPO PARA QUE ELA SEJA ETERNA E INDESTRUTÍVEL!

– Por isso você precisa da secretária eletrônica…

– SIM. EU MESMO NÃO TENHO COMO SABER QUE LOCAIS AGSUTE CONTAMINOU, MAS ATENDO-ME A UM PONTO NO ESPAÇO TEMPO, A SECRETÁRIA ELETRÔNICA, POSSO MANTER-ME INFORMADO DE QUALQUER COISA QUE ACONTEÇA NO PASSADO OU NO FUTURO, DESDE QUE VOCÊ TENHA TEMPO DE ME INFORMAR NA SECRETÁRIA.

– Isso não é muito confortador.

– A REALIDADE RARAMENTE É CONFORTADORA.

– Isso significa que eu já perdi muito tempo. Agsute está se espalhando agora mesmo… Chega de ser evasivo: vou agora mesmo falar com Samanta e dizer exatamente porque ela não pode descobrir a viagem no tempo!

Peguei minha bolsa, chequei a bateria e o sinal do celular. Respirei fundo e, antes de sair, virei-me e disse:

– A propósito, depois disso eu ainda vou me despedir de uma amiga no aeroporto, ela está indo pro Atacama. Não me espere acordado.

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! ESTÁ BEM…

– Fique de olho na secretária eletrônica.

– FICAREI.

***

Samanta Vieira jogou despreocupadamente seu casaco numa poltrona quando chegou em casa. Estava quase subindo as escadas quando ouviu alguém dizer:

– Boa tarde, Samanta.

Ela estacou e voltou à sala. Na poltrona em frente àquela na qual jogou o casado, um homem estranho sentava-se com o queixo repousando nas mãos.

Samanta gritou.

– Por favor, não grite! – eu disse, tentando parecer calmo, apesar de não conseguir ficar perto de uma pessoa gritando.

Ela dirigiu-se à porta, pulei da poltrona e consegui interceptá-la. Tranquei a porta. Ela me deu um soco no estômago.

Eu gritei.

– Aí não! Acabei de me recuperar de uma facada aí!

Ela respondeu me dando um chute entre as pernas.

Enquanto eu tentava me recuperar da dor, Samanta correu escada acima, rumo ao seu quarto. De forma um tanto quanto torpe, segui-a. Ela trancou a porta do quarto, deixando-me de fora.

– Samanta Vieira! Abra, eu só quero conversar com você! – gritei, batendo na porta.

– Por favor, leve o que quiser, mas não me machuque! – ela gritou, à beira de lágrimas, do outro lado.

– Eu não vou fazer nada! Eu só quero conversar! Abra a porta ou eu vou ter que arrombá-la!

– Eu vou chamar a polícia!

– Você não pode chamar a polícia, eu cortei os cabos do telefone! – eu gritei, sem perceber que isso me fazia parecer um perfeito maníaco psicopata.

– Eu tenho um celular! – ela respondeu.

– Droga!

Ela gritou do outro lado da porta. Abriu-a, tentando fugir, mas eu a segurei. Ela se debatia. Percebi que Ozymandias, O Absoluto, estava no quarto dela, a cabeça tocando no teto.

– Calma, calma, garota… – eu disse, tentando contê-la.

– O que é aquela coisa? – ela gritou.

– Esse é o Ozymandias, minha máquina do tempo!

– Você é louco!

– Não sou não!

– Não… não existe uma máquina do tempo!

– Existe sim e eu vou provar. – eu peguei o telefone e disquei o número da secretária eletrônica, após ouvir o bip, disse – Ozymandias, venha há uns quarenta segundos atrás no quarto de Samanta Vieira, antes que ela chame a polícia!

Desliguei o telefone, apontei para o sarcófago gigante que estava há uns quarenta segundos no quarto da garota:

– Viu só?

Os olhos arregalados dela ainda mostravam uma quantidade insana de medo.

– Por favor, não me machuque! – ela repetiu – Meu pai tem dinheiro, ele não vai pagar nada se você me machucar!

– Eu não vou machucar você, eu já disse! Só vim impedir você de destruir o Universo!

Aquilo não pareceu acalmá-la. Ela começou a chorar. Puxei-a até seu quarto e a sentei em sua cama, eu sentei-me numa cadeira.

– Olha, é o seguinte… Sabemos que você está tentando descobrir um jeito de viajar no tempo. O que queremos é que você desista dessa idéia para sempre e deixe o futuro como está, ok?

Ela assentiu. Não parecia estar muito certa de que ela teria que realmente se comprometer com essa promessa, mas assentiu.

– Ótimo! – eu disse, tentando colocar minha voz mais mansa possível em ação – Então… nada de voltar no tempo pra me visitar, tá bom?

Ela assentiu de novo.

– Eu sei que deve ser difícil pra você. Afinal, eu sou seu escritor favorito mas--

– Por favor! Por favor, vá embora! – ela gritou.

– Tá bom, vamos, Ozy. Nossa missão acabou.

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! – esbravejou Ozymandias, Samanta quase caiu da cama, seus olhos mais arregalados do que nunca – NOSSA MISSÃO AINDA NÃO ACABOU! SAMANTA AINDA NÃO CRÊ QUE VAI DESENVOLVER A VIAGEM TEMPORAL!

– Essa coisa… ela… ela… falou! – ela balbuciou.

– É, ele faz isso. É difícil fazê-lo parar…

– EU SOU OZY--

– Tá, já sei… – interrompi-o.

Samanta pareceu recobrar um pouco a sanidade. Enxugou os olhos, respirou fundo. Agora parecia uma pessoa normal. Uma garota com cerca de 16 anos, que eu nunca adivinharia que poderia colocar os maiores gênios da História sob controle de uma entidade maligna que se estica através do espaço-tempo colocando em risco a existência, de estatura mediana, cabelos castanhos e olhos verdes. Uma garota comum, que me despertava uma sensação de familiariedade. Culpei meu cérebro querendo encaixar a garota do delírio de morte no rosto de uma pessoa reconhecível.

– Vocês… vocês são mesmo viajantes do tempo! – ela disse, já mais calma.

Assenti.

– E… e como é o futuro?

– Na verdade, eu vim do passado. – eu disse.

– Do passado? Máquinas do tempo no passado?

– É, pode ser difícil de acreditar, mas eu sou André Darsie de Oliveira.

Ela franziu o cenho:

– Quem?

– André Darsie de Oliveira! Seu escritor favorito!

Ela meneou a cabeça.

– Meu escritor favorito é John Green.

Aquilo era estranho para mim.

– Mas… Você já leu algum texto meu, não?

– Não sei… sinto muito… O que você escreveu?

– Até agora, não muita coisa…

– Desculpe, eu não lembro.

Fiquei estupefato. Aquilo não fazia sentido. Eu só estava naquilo porque ela era fã dos meus futuro livros e me visitaria em uma semana caso eu continuasse no passado. Era esse todo o meu envolvimento com essa aventura.

– ELA AINDA NÃO LEU SEUS TEXTOS! ELA LERÁ, ANTES DE INVENTAR A MÁQUINA DO TEMPO!

Ela deu um pulo na cama.

– Ah! Claro! Acho que me lembro! Acho que está por aqui… – ela caminhou até a escrivaninha, pegou um livro pequeno de capa verde e me entregou – Minha avó me deu de aniversário semana passada. Ainda nem toquei nele…

Na capa, lia-se o título “Pedras na Ampulheta” e, abaixo, o meu nome. Era estranho. Fiquei com vontade de ler aquele livro, mas se eu o lesse, eu estaria destruindo o ato da criação do texto e plagiando a mim mesmo, o que seria bastante… dei uma olhadinha.

– Isso parece meu mesmo… não o meu melhor, mas ainda assim meu…

– ESSE DEVE SER O PRIMEIRO DE MUITOS QUE ELA LERÁ.

– E então ela se torna minha fã…

– Prazer em conhecê-lo, Sr. de Oliveira. – ela disse, com um meio sorriso – Ouvi falar muito do senhor…

Sorri de volta, mas então lembrei de nossos assuntos.

– Samanta… Já que você está convencida de que somos viajantes do tempo, então deve imaginar que temos um motivo muito sério para vir aqui e dizer: Por favor, nunca invente a máquina do tempo!

Ela retirou o livro de minhas mãos.

– Ora… isso não é um pouco hipócrita? – perguntou ela, num tom ofendido – Vocês dois vêem aqui, numa das minhas máquinas do tempo--

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU ESTOU INCRUSTADO NA PROGRAMAÇÃO DO UNIVERSO! EU SOU SETE VEZES MAIS VELHO QUE O UNIVERSO! NÃO HÁ HUMANO QUE TENHA ME CRIADO!

– Que seja! – ela disse – Vocês dois, vêem aqui, viajando no tempo e dizem que eu não posso viajar? Por quê?

– Porque você vai desenvolver um projeto utópico que acabará por colocar as mentes dos maiores gênios da História sob o controle de uma perigosa entidade que quer se emaranhar no tecido espaço-temporal e que destruirá a raça humana e, mais importante, a Literatura Humana!

– Então eu vou tomar o cuidado de não fazer isso… Agora, impedir-me deviajar no tempo? Isso é simplesmente errado!

– Mas se você criar a viagem no tempo, ela ficara disponível para os seres humanos, para os governos e as empresas e, eventualmente, essa entidade acabará por ter acesso a ela!

– Então é o destino que quer isso! Não tenho como impedir!

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! EU JÁ VI O UNIVERSO COMEÇAR E TERMINAR SETE VEZES! EU CONHEÇO O QUE É DESTINO E O QUE É MUTÁVEL! EU SEI AQUILO QUE É PARTE DA EQUAÇÃO E AQUILO QUE É CAOS! A ENTIDADE QUE CONTROLARÁ SUA MÁQUINA DO TEMPO É FILHA DO CAOS! DESTRUIÇÃO É O QUE ELA TRARÁ SE TIVER A CHANCE!

– Vocês não podem fazer isso! – ela protestou – E quanto ao que eu quero? É a minha chance de fazer algo que importa! Vocês têm idéia de quem eu sou? Ninguém! Acabo de descobrir que eu tenho a chance de mudar a História do mundo e vocês me dizem pra desistir da minha chance?

– Eu sinto muito, Samanta…

– Não! Vocês não podem fazer isso! Eu tomo cuidado, eu prometo!

– É MUITO ARRISCADO!

– Mas… mas… não vale a pena? Pense no que a Humanidade pode atingir se pudermos voltar atrás e corrigir nossso erros!

– EXTINÇÃO!

– Ozymandias está certo. Pode parecer boa idéia, mas uma tecnologia tão poderosa não pode ser colocada nas mãos dos humanos. Eu só estou aqui com a permissão de Ozymandias.

– Isso é errado, é errado… Eu não posso desistir disso…

– VOCÊ É QUE ESTÁ ERRADA! PENSE EM TUDO QUE VOCÊ SACRIFICARÁ PARA MANTER SEU SONHO EGOÍSTA DE SER ALGUÉM! PENSE EM TUDO QUE VOCÊ DESTRUIRÁ PARA CONSTRUIR SUA PEQUENA FAMA! PENSE NO QUÃO INSIGNIFICANTE VOCÊ É SE COMPARADA AO VALOR DO UNIVERSO!

Ponderei um pouco… Apesar de tudo, eu entendia o que Samanta estava sentindo. Se eu tivesse que parar de escrever para salvar o Universo (ou, pior ainda, parar de tomar café), talvez pensasse em tudo o que o Universo vale e chegaria à conclusão de que não há nada que realmente precise ser salvo… Seria preciso buscar muito por algo que eu acreditasse ser realmente bom o suficiente para danificar meu Universo pessoal a tal ponto.

– Ela tem razão.

– O QUÊ?

– Não podemos exigir dela que sacrifique seu sonho! – eu disse.

Ela me encarou com aqueles olhos profundamente verdes. Eles vibravam.

– Sério? Muito obrigada!

– Mas… podemos pedir que você considere isso com cuidado. – eu lhe entreguei o caderno que estava na minha bolsa, onde eu costumo escrever os textos antes de postar – Dizem que eu sou seu escritor favorito. Leia aqui, depois pense em outros autores, todos eles serão destruídos se você continuar. Em milênios de Literatura, deve haver algo pelo qual deva valer a pena desistir de um sonho… Promete que vai pensar com cuidado?

– Prometo.

Assenti com a cabeça.

– Te vejo amanhã nessa mesma hora, então. Agora, vou embora antes que seus pais cheguem.

– EU SOU OZYMANDIAS, O ABSOLUTO! VOCÊ NÃO PODE FAZER ISSO!

– Estamos lutando contra Agsute porque ela controla a mente das pessoas! De que adianta lutar contra ela se nós tiramos o poder das pessoas de decidirem o que querem?

– ESTAREI NO LOFT. – foi tudo que Ozy respondeu.

E sumiu.

***

A falsa diretora Schulz me esperava na esquina da casa de Samanta Vieira. Na verdade, creio que ela não me esperava, mas estava apenas vigiando Samanta. Quando me viu, foi como se tivesse visto um fantasma.

– Acho bom você ficar fora disso! – ela gritou, assim que me viu. – Você deveria estar morto!

– Injenção de CARA. – expliquei, lançando-lhe um sorriso de vítima-que-sobrevive-ao-assassinato-e-depois-quer-debochar-do-assassino – Quem é você afinal? E por que tentou me matar?

– Eu sou uma agente da AST, e apenas agi sob o protocolo de proteção temporal.

– AST?

– Agência de Supervisão Temporal. Sou de quarenta anos no futuro.

– Você tem um nome?

– Carol.

– Carol do quê?

– Apenas Carol! É tudo o que você precisa saber por enquanto! E o que eu sei é que você está interferindo na ordem das coisas! Você deveria estar no passado! Aliás, você deveria estar morto!

– Eu estou protegendo o Universo! Samanta vai destruir o Universo se ela desenvolver a viagem temporal!

– Mas a viagem temporal já está desenvolvida! – protestou a mulher – Você vai destruir o futuro se impedir que ela desenvolva a viagem temporal!

– Mas uma entidade maligna vai dominar as mentes dos gênios no futuro! Ela usará isso e a viagem temporal para destruir o tecido espaço-temporal!

– Os gênios estão seguros com o computador central da AST!

– Por enquanto! Se não acredita em mim, vá ao futuro e veja como é lá!

– Os agentes da AST devem limitar-se a supervisionar o passado e impedir que ele seja alterado. – ela afirmou, mecanicamente – Nem mesmo eu, que sou a agente-mor tenho autorização para ver o futuro. O futuro deve serguir como deve seguir.

– Isso é ridículo, quem inventou essa regra?

– O programa de inteligência artificial do computador central da AST.

– Use sua inteligência real! Por que eu mentiria?

– Há muitos motivos porque uma pessoa alteraria o fluxo do tempo, não cabe a mim julgar.

– Então acho que vamos continuar discordando, Carol da AST. – eu disse.

– Parece que sim, Tempo-terrorista! – disse ela, encarando-me com aqueles olhos verdes e profundos.

Foi quando um pensamento me ocorreu:

– Como é ser babá de sua própria mãe, Carol Vieira?

Ela estremeceu:

– Apenas fique longe dela!

(continua…)

0 Demonstrações de Atenção: