Parte I
Morrer em um lugar tão distante… não tava no esquema. As paredes impessoais de uma escola pública são bem diferentes do lugar familiar e confortável no qual eu sempre achei que iria morrer: numa cafeteria, fuzilado pela máfia italiana. Caminho por um corredor vazio e escuro de pé-direito alto. Meus passos ressoam. As gotas de sangue ressoam ao cair no chão. Eu aperto o ferimento. A dor, aguda e insistente, se espalha como uma onda pelo corpo. Não há mais nada a se fazer. Eu sei que não há. É o fim. Mas o instinto primitivo da sobrevivência, tolo, ingênuo e desesperado não me deixa parar. Uma criatura irracional que estava adormecida dentro de mim despertou e se recusa a aceitar o fim com dignidade.
Corro por este corredor. Tropeço naquela escada. O sangue deixa um rastro vermelho vivo neste mundo de tons terra, mancha os intricados arabescos no chão velho (como é estranho chamá-lo de “velho”) de porcelana. Me apoio numa parede de pedra, fria e áspera. Também a tinjo de vermelho. Tento forçar uma porta, uma janela, qualquer buraco que me leve ao mundo exterior, como se houvesse esperança.
Não há.
Desesperado, tonto e fraco, estou prestes a morrer como um animal baleado. Mas a caçadora já está longe, abdicou do direito de reclamar a carcaça. Desabo sobre algumas cadeiras escolares. O estrondo ecoa para não ser ouvido por ninguém.
Do outro lado da sala, uma janela aberta. Eu não tive tempo de checá-la antes. E não terei. Não antes que a morte chegue. Tento me levantar. Não consigo.
Desisto.
Resignado, observo o que posso do mundo lá fora. Esse mundo que mal conheci. Os prédios altos e imponentes mal discerníveis do céu do anoitecer. As inúmeras aeronaves cruzando a cidade. Os holofotes riscando os céus. Vejo um dirigível passar, anunciando uma marca barata de café. “SynCa: O único que existe!” Essas são as últimas palavras que leio antes da morte. Estranho: Nunca pensei quais seriam as últimas palavras que eu leria, embora tenha pensado muito nas que eu diria.
O dirigível se torna turvo. A sala também. Meu corpo pesa, mas a cabeça está leve. Tudo é engolido pela escuridão. Começa meu delírio de morte.
Meu delírio…
***
Vôo montado nas costas de uma galinha gigante. Ela passa veloz pelas montanhas de ferro e já posso ver a planície verdejante no horizonte.
Os relógios surgem. E se vão. Um corredor de estranhos relógios nas montanhas de metal. A galinha grande desvia de uma ampulheta voadora. O vento gelado bate no meu rosto.
Aparece uma garota. Ela voa num relógio de Sol. Atira engrenagens em nós. Ela diz: “Você é velho! Sua época já passou!” A galinha é atingida. Ela começa a cair. “Você é legal! Gosto daquele texto do ninja.”, diz a galinha, enquanto caímos “Vou proteger você.”
Atingimos o chão, mas as montanhas estão para trás. Alcançamos a planície. O céu está negro, mas a grama parece iluminada como se fosse meio-dia. Algo brilha mais adiante. Uma luz verde e mortiça.
“Vá!”, diz a galinha.
Eu corro. O brilho fica cada vez mais próximo. Logo o alcanço. Imenso e imponente em meio à pastagem, lá está o Ankh. O símbolo da morte. Ou da vida? O símbolo de algo entre a vida e a morte. E além deles. O Ankh sempre esteve lá. Absoluto. Ele esperava por mim. Desde a eternidade. Tudo passou. Tudo perece. Menos o Ankh.
Tem um copo de café na frente do Ankh.
Eu bebo. O café é bom. O café aqui nunca é bom.
Confuso, eu olho para o Ankh. Ele permanece. Impassível.
O Ankh: o símbolo…
***
… de morte.
Morte me aguarda. Está de pé, no meio da sala de aula escura, olhando para mim. Eu ainda sangro. Ainda dói.
– Olá, André. Que bom vê-lo de novo. – diz a Morte. A voz dela é agradável. Aveludada e andrógina.
– Nós nunca nos vimos antes. – eu digo, engasgando.
– Claro que já! Você não lembra? Tomamos café juntos.
– O café daqui é horrível.
– Não, não! Isso foi há quatrocentos anos, quando o café ainda era bom. Você não lembra?
– Eu lembraria… se tivesse acontecido!
A Morte pareceu confusa. Sentou-se em uma das cadeiras que ainda estavam de pé e coçou o queixo esquelético com a mão esquelética.
– Pensando bem… – disse Morte, lentamente – Eu já busquei você antes… Tem certeza de que está vivo?
– É que eu viajei no tempo. Escuta, dá pra levar minha alma logo? Essa facada dói pra caramba!
Morte saltou de sua cadeira:
– Viagem no tempo? Isso é terrível?
– Não tem nada demais numa viagenzinha no tempo…
– Mas você está morto! – gritou Morte – E agora está morrendo! Não vê o que isso significa?
– Que eu tenho muito azar?
– Quer dizer que vamos ter duas almas suas num mesmo reino dos mortos! Pode imaginar os problemas que isso acarreta?
– É, acho que isso contraria o princípio da Navalha de Ockham… Mas acho que o conceito inteiro de alma contraria o princípio…
– Dane-se a Navalha de Ockham! Estou falando de um paradoxo tão grande que é capaz de destruir todo o Universo!
Considerei brevemente a questão. É difícil se concentrar quando o estômago está vertendo sangue.
– Então… o que a gente faz agora?
Morte cofiou um bigode imaginário. Andou de um lado para outro da sala, pensativo.
– Acho que eu vou ter que poupar você. – concluiu.
– Quer dizer que eu sou imortal enquanto viajar no tempo? – perguntei, com minhas forças renovadas.
– Não! É mais fácil reescrever a estrutura do Universo para aturar um paradoxo do que lidar com um humano imortal…
– Então qual é o negócio?
– Você vive agora e trata de não morrer mais. Senão é o fim, entendeu?
– Tá. E quando começa?
– Já foi.
– Mas ainda tô sangrando…
– Eu sou a Morte, não médico. Se quer fazer um curativo, você só tem um caminho.
– Qual?
Do manto escuro emergiu uma mão escura e esbranquiçada (cuja melhor descrição seria “esquelética” mas que, em virtude da repetição do termo, não será descrita assim no momento). Com um gesto lento, porém firme a Morte apontou-me a janela do outro lado da sala. Uma janela do terceiro andar.
– Pule a janela. – disse a Morte.
Percebi então que eu tinha um problema.
***
– Tu precisas atualizar o blog. – disse o Miguxo.
Estávamos repetindo nosso ritual de café na nossa tradicional cafeteria. Eu tomava um expresso com creme. O Miguxo não pedira café, para combater a insônia, mas uma esfirra de carne e um refrigerante de guaraná. Pensei em comentar que um refrigerante à base de guaraná e açúcar talvez não fosse o melhor substituto ao café, mas desisti. Não estava com humor para uma discussão.
– Eu não tô com vontade… – e acrescentei apenas pra inocmodar – E tu não tens sido uma boa musa inspiradora!
– É, eu sei. Tava pensando a mesma coisa…
Ele soou bastante desanimado. Emendei:
– Não é culpa tua… O cinema não está inspirador, a literatura não está inspiradora, a música, os quadrinhos, TV… o café não está inspirador! – tomei um gole – Está bom, mas não inspirador… Sei lá… Acho que o mundo está deixando de ser inspirador… eu só estou seguindo o zeitgeist…
– Eu já tentei seguir o zeitgeist, mas ele não me deixou entrar na casa dele.
– Às vezes eu fico em dúvida se tu realmente escuta ou se só espera a deixa pra fazer uma piada espertinha…
Ele não respondeu.
Teria sido constrangedor se naquela hora não tivesse entrado o avestruz. Ele usava calças.
– André Darsie de Oliveira? – perguntou o avestruz, com voz rouca – Meu nome é Roberto e sou um fã do seu trabalho.
Consegui conter minha surpresa a fim de obter esclarecimentos:
– Duas coisas. Primeira: Que trabalho? Segunda: Não sou racista nem nada, mas avestruzes não falam.
– Acho que a palavra é “especista”. – corrigiu o Miguxo.
– Ah… Isso eu sou. Sem ofensa, Roberto.
– Hãn… Não ofendeu. – disse o avestruz – Sr. de Oliveira, eu sou um viajante do tempo e--
– Isso levanta mais perguntas! – interrompi.
– Todas serão respondidas. Eu venho de um futuro distante onde os avestruzes dominaram o mundo--
– Viajar para o passado é impossível. – afirmou o Miguxo.
– Avestruzes? – perguntei – Sempre achei que o mundo seria dominado pelos macacos, ou pelos cães, ou os gatos, ou os golfinhos, os ratos, as vacas…
– As baratas. – contribuiu o Miguxo.
– É! Ou as doninhas… Nunca esperei isso dos avestruzes. Como aconteceu?
– Acho que a nossa vantagem foi o elemento supresa.
– Faz sentido…
– Exceto a parte em que ele viaja pro passado… – murmurou o Miguxo.
– No nosso mundo, seus textos são os últimos vestígios de literatura humana que restaram. Eles ajudaram nossa cultura a se desenvolver, nos ensinaram a rir, a chorar e a não ter esperanças de um futuro melhor.
– Fico feliz em ter ajudado. Mas tem certeza que está falando dos meus textos?
– Sim, claro! Gosto muito deles! Aquele texto sobre o ninja--
– Eu nunca escrevi sobre um ninja.
Roberto calou-se. Encarou-me com seus gigantes e estúpidos olhos de avestruz. Conseguiu retomar a habilidade da fala:
– Mas o meu preferido é aquele sobre o garoto mudo!
– Tá… é um texto meu, sim… – eu disse, desanimado.
– O André não gosta da Suposta Mudez de Paulo. – informou o Miguxo.
– Não é que eu não goste. É só que não é, nem de longe, meu melhor texto! Não entendo porque é o favorito do povo…
– É que ele fala profundamente ao pequeno avestruz solitário dentro de cada um de nós! – protestou Roberto.
– É… talvez… Acho que o pequeno avestruz solitário dentro de mim morreu há muito tempo…
– O meu entalou. – disse o Miguxo.
– Como assim? – perguntou Roberto.
– Peraí, o que eu falei? Esqueci.
– Deixa pra lá. – eu disse – Está me dizendo, minha cara ave, que no seu mundo só há textos meus?
– Sim! Eles são os textos mais antigos conhecidos pelo mundo--
– Isso é terrível!
– Pelo menos não são textos da Glória Kalil. – disse o Miguxo.
– Ah… Isso é verdade.
– Até que eu encontrei um antigo livro humano de história. – Roberto continuou, como se jamais o tivéssemos interrompido – Encontrei-o dentro de um sarcófago, no deserto de sal. Pelo livro, descobri que seus textos pararam de ser produzidos a partir de maio de 2011, quando você parte com Samanta Vieira numa viagem através do tempo.
– O que é impossível. – reiterou o Miguxo.
– Samanta quem?
– Samanta Vieira. – repetiu Roberto – Ela inventou a viagem no tempo. Ou, pelo menos, inventará daqui a quatrocentos anos.
– Terá inventaído. – disse o Miguxo.
– E por que eu parei de escrever?
– O projeto de Samanta Vieira envolvia pegar diversos escritores, artistas e inventores da História Humana e levá-los até o ano 2423, para que eles ajudassem a criar um mundo melhor no futuro. Você, na verdade, não parou de escrever, apenas levou seus textos para o século XXV.
– E por que, digamos Shakespeare, não levou os textos dele pro Século XXV?
– Quem? – perguntou Roberto.
– Porque é impossível viajar para o passado! – gritou o Miguxo.
– Quem disse? – perguntei.
– Albert Einstein! – Miguxo bateu com o punho na mesa.
– Eu invoco a Primeira Lei de Clarke! – eu bati com o meu punho na mesa.
– Eu não sei que lei é essa! – ele quebrou um copo de vidro na mesa e me ameaçou.
– Quando um cientista distinto e experiente diz que algo é possível, é quase certo que tenha razão. Quando ele diz que algo é impossível, ele está muito provavelmente errado! – peguei a faca que o Miguxo estava usando para cortar a esfirra e brandi em sua direção.
– Eu não sei que é esse Clarke! – o Miguxo me pegou pela gola.
– Ele inventou a tecnologia de satélites!
Eu já ia enfiar a faca nas costelas do Miguxo quando fomos arrastados para fora da cafeteria por seguranças. Roberto também foi expulso baseado no fato de ele ser um avestruz. Malditos especistas donos da cafeteria!
(continua…)
5 Demonstrações de Atenção:
É, o meu texto preferido é o do garoto mudo.
A suposta mudez de paulo é a ana julia do Ado.
Ou a stairway to heaven
E o meu texto preferido é o da helena e dos cachorrinhos... ou o do cara q tomava cerveja sem álcool
Tudo faz muito sentido, viagens no tempo, avestruz falante (eu não sou especista), o Miguxo existir, a experiência de morte etc. Mas... A cafeteria tem seguranças?! Oo - ou estavam lá tomando um cafezinho? Explique-se melhor. O resto tá muito bom, vou procurar o texto do guri mudo e ler a parte II =)
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