A casinha de cachorro, vazia há três semanas, ainda ocupava espaço no fundo do pátio. Um prato de comida vazio e um prato de água pela metade. Rafael, em seus cinco anos de idade, olhava desolado para a cena, como se Bobby você sair da casinha a qualquer momento, carregando a velha bola de borracha na boca e abanando sua cauda cortada. Naturalmente, não foi o que aconteceu. Não aconteceria nunca mais. E essa era a primeira grande mudança a ocorrer na vida de Rafael em sua existência nesse mundo.
Engatinhando, entrou na casinha. Ainda tinha cheiro de cachorro. Pegou a bolinha de borracha do chão. As marcas de dente do pequeno cocker spaniel dourado. Ainda segurando a bolinha, saiu da casa de cachorro e entrou na casa de gente.
Essa gente, no caso, era a família Veloso. Constituída de três seres humanos, um do sexo feminino e dois do sexo masculino. O ser humano do sexo feminino era Amanda Ferreira, 33 anos, casada, católica praticante, dona-de-casa. Cabelos castanhos, olhos castanhos, humor castanho. Atualmente com cabelos tingidos de vermelho e humor tingido de cinza. Os seres humanos do sexo masculino são Rafael Veloso, 5 anos, solteiro, católico por tradição familiar, atualmente desempregado (condição que ainda durará cerca de 14 anos), cabelos castanhos, olhos castanhos e perpetuamente arregalados. O outro é Douglas Veloso, 34 anos, casado, católico para agradar aos sogros, famacêutico, cabelos pretos, olhos castanhos e dirigidos a um aparelho de TV exibindo um programa sobre reforma de carros. Pelo menos, assim estavam quando Rafael entrou na sala.
– Paiê…
De fato, os olhos de Douglas continuaram dirigidos à TV mesmo depois de Rafael entrar.
– Humm?
– O que aconteceu com o Bobby?
– Você já sabe, Rafa. Ele se soltou da coleira no parque e… você lembra da moto, não?
– Não é isso, paiê! O que aconteceu com ele?
– Filho, ele… – Douglas desviou os olhos da TV e olhou nos olhos do filho – Ele morreu, filho.
– Eu sei! – o garoto já estava ficando impaciente – O que acontece quando a gente morre?
Douglas tentou comprar tempo.
– Ãh… O quê?
– O que acontece quando a gente morre, paiê?
– É uma boa pergunta… sabe? Muito boa mesmo!
– Tá, e o que acontece?
– Pergunte à sua mãe.
Rafael fechou a cara, mas sabia que não tinha jeito. Aparentemente, a atenção do pai estava agora totalmente dirigida para o Camaro repintado na TV. Era típico perguntas mais complexas necessitarem do esclarecimento materno. A busca de conhecimento levava ao místico mundo da cozinha. Muitas vezes pleno, como estava naquela manhã, do vapor perfumado que emanava das panelas sobre o fogão. A sapiente progenitora-oráculo estava sentada à mesa, lendo o indecifrável montoado de páginas chamado jornal que ela diariamente lia.
Galgando uma intransponível cadeira, Rafael debruçou-se na mesa, tentando ficar à altura dos olhos da mãe.
– Manhê!
– Que foi, filho? – perguntou Amanda, virando uma página.
– O que acontece quando a gente morre?
Amanda pensou um pouco na resposta.
– A gente vai pro purgatório… não, espera, o Papa Bento XVI aboliu o purgatório. Acho que a gente vai pro céu direto se for bom, então…
– E se a gente é um cachorro?
– Aí a gente… – Amanda pensou que, talvez, fosse cruel demais dizer que cães não tem pós-vida, ela afinal não tinha coragem de falar isso sobre seres humanos – vai pro céu dos cachorros!
– E é perto do céu das pessoas?
– Acho que é, não sei…
– E tinha pur… – ele tentou lembrar da palavra complicada – …gatório dos cachorros?
– Quê?
– Purgatório dos cachorros, tem?
– Bom, agora não tem, com certeza.
– E antes tinha, manhê?
– Não sei…
– Não sabe?
– Eu já não sei de nada, filho… tanta coisa mudou… o Brasil agora é potência… quando eu era criança, Plutão era um planeta e eu era de Capricórnio. E olha eu aqui lendo Sagitário! – ela indicou uma página do jornal.
Rafael franziu o cenho. Desceu da cadeira e foi embora da cozinha, com a sensação de ter mais perguntas do que antes.
Na época, ele não tinha como saber que seria assim por toda a sua vida.
2 Demonstrações de Atenção:
- Bobby! Bobby!
- O nome dele é Thor.
- Bobby! Bobby!
Ah, e quanto a mudança de signos é tudo boato. Os astrólogos já disseram que as características de cada signo são modificadas adequadamente com a rotação. A história da mudança foi inventada por um astrônomo metido a besta.
E acho que se a mulher é católica praticante, ela não deveria ser horóscopo! A não ser que ela seja brasileira...
E legal o texto, cara!!!
Pois, como são as coisas, não é? Fazer o quê?! Provavelmente, muito logo Rafael Veloso vai estar em frente ao computador votando no próximo futuro eliminado da casa mais vigiada do país, ou, pior!, no celular.
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