Na Lista de Coisas Antigas Semi-Inúteis Espalhadas Pela Casa, organizada em ordem alfabética, existe (entre “Aspirador de pó velho que raramente funciona” e “xícara lascada que corta o lábio de quem bebe”) uma “Máquina de escrever portátil”. Uma parte intrigante do fato é o uso do termo “portátil”. Isso se deve a uma caixa preta de plástico resistente com uma alça que cobre a máquina propriamente dita, tornando-a vagamente carregável. Contudo, nota-se também que o aparato tem mais ou menos o tamanho e as dimensões da CPU do meu computador de mesa, que não é (salvo grave erro, e neste caso não estou aproveitando todo o potencial dele) o que se descreveria como “portátil”.
Mais intrigante do que isso, porém, é encontrar três folhas de papel dentro da caixa da máquina. Uma delas, a única que contém alguma coisa vagamente intrigante sobre a qual escrever quando todas as outras idéias não andam, possui o início de texto que, dada a colocação na página, imagino ser uma tentativa de poesia.
Escrita por este mesmo André Darsie de Oliveira, de algum vago lugar no passado, encontra-se isto:
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Não sou poeta (e não aprendi a amar). Logo nota-se por estas três tristes linhas para três tigres tristes. Porém, vejo mais uma vez a confirmação da minha tese de que “a ironia é a força motriz do universo”: A segunda linha diz “E [ainda] que as pessoas esqueçam” e eu não tenho a mais vaga lembrança do que deveria ser este texto.
Aparentemente, em algum momento do passado, um mini-André (doze anos? Talvez treze? É por esta idade que tentamos virar poetas frustrados, certo?) tentou flertar com a poesia e, talvez tomado por um súbito reconhecimento de sua incapacidade, desistiu em três linhas. Muito mais sábio que eu, que insisto na prosa, apesar das sucessivas demonstrações de fracasso (há 77 até agora, só neste blog). Maldito sábio mini-André do passado metido a esperto!
Se eu pudesse falar com ele, com certeza perguntaria qual o complemento daquelas três linhas enigmáticas. E depois lhe daria uns bons sopapos! Que desaforo, nem deixar um esboço decente para que eu pudesse entender minhas próprias intenções em um futuro distante!
O início de outubro produziu, em quase todas as redes sociais na internet, um crescimento de pessoas usando fotos de si mesmas como bebês/crianças como avatares. Eu mesmo me uni à onda, selecionando uma foto que me provocou o estranho desejo de apertar minhas próprias bochechas do passado. Talvez o movimento tivesse o intuito de convencer os pais de que todos nós ainda éramos crianças e merecíamos presentes. Não sei. No meu caso, não funcionou.
Mas me provocou uma meditação (o que é o oposto de um presente): O quão bem eu me daria com o mini-André?
Claro, a resposta depende o quão “mini” é o André. O mini-André das bochechas gordas provavelmente me odiaria por apertar as minhas bochechas do passado. Lembro até que o mini-André das bochechas gordas, em um ato de desespero, formulou uma teoria sobre qual tipo de pessoa deveria ter suas bochechas gordas apertadas… Realmente, não seríamos amigos.
O mini-André que escreveu as três linhas na máquina de escrever “portátil” estava no início da adolescência. Francamente, alguém se daria bem com o seu eu-adolescente? Eu provavelmente praticaria bullying contra o meu eu-adolescente. Por mais que eu seja contra o bullying…
A verdade é que eu e meus eus-passados somos muito diferentes. Ou éramos. Ou seríamos. Ou seja lá qual for o tempo verbal correto.
Talvez isso seja o resultado de uma longa jornada de auto-conhecimento, busca espiritual e bagagem de vida de forma geral. Minhas experiências vividas, preconceitos quebrados, conhecimentos adquiridos e tudo mais seriam simplesmente incompatíveis com uma criança de bochechas gordas que só é capaz de formar uma teoria que divide o mundo entre pessoas apertáveis e pessoas não-apertáveis. Tampouco poderiam ser aceitos pelo universo maniqueísta sabe-tudo do mini-André-adolescente-que-tenta-escrever-poesia-numa-máquina-de-escrever-“portátil” (ainda não aceito esse “portátil”!).
Talvez isso seja apenas porque crianças me assustam. Sei lá.
Em resumo, sou daquelas pessoas que gostam de si mesmas e não respeitam o caminho que as levou onde estão.
***
Depois de cinco dias encarando a folha de papel com as três linhas, percebi que no verso da folha, o mesmo mini-André escreveu:
É, talvez pudéssemos ser amigos, afinal de contas.
P.S: Sim, estou ciente do erro gramatical que o mini-André cometeu ao escrever em inglês. Mesmo assim ele era legal. E agora ele está morto.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
André E Os Eus-Passados
Postado por
ADO
5
Demonstrações de Atenção
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