quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A Obra Derradeira – Capítulo V

YHWH

Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V

Em meu quarto, eu remoia cuidadosamente minhas conclusões. Se eu estava certo, Sekisusai era um louco megalomaníaco. Se eu estava errado, ele era apenas louco. Caminhei de um lado para o outro naquele pequeno quarto, revendo tudo o que tinha acontecido desde que eu chegara ao templo. Minha conclusão era a única possível. Eu não podia mais ficar naquele templo. Não com o que Sekisusai estava planejando.

O Sol estava se pondo, tingindo nosso pequeno mundo celestial de vermelho. Sekisusai estava em frente ao templo do Orangotango Eterno, meditando. Interrompi-o:

– Um orangotango, munido de tempo de vida, tinta e papel suficientes, acabaria por escrever todas as obras do mundo. E mais algumas de sua própria autoria. – eu disse, Sekisusai sobressaltou-se – Você não exagera quando diz que está criando “A Obra Derradeira”, não é?

Sekisusai sorriu:

– Você descobriu, então?

– Sim. – continuei – Há um número finito de todos os caracteres de escrita de todos os povos da Terra, e um número finito de combinações possíveis desses caracteres. Eventualmente, o Orangotango Eterno acabaria por escrever O Nome Secreto de Deus, aquele que contém a essência Dele. O que o tornaria passível de ser pronunciado pelos humanos… maculado por eles. Tornando o nome de Deus impuro e, assim, destruindo o Universo…

– É uma bela teoria, André…

– Mas você quer torná-la prática. Você se empenha em fundir realidade com ficção para que, na sua ficção, quando o último personagem disser sua última frase, aquela que contém O Nome, assim aconteça na realidade.

– Uma obra para acabar com todas as obras: A Obra Derradeira. – divagou Sekisusai.

– Como você pode ser tão egoísta? – eu gritei.

– A arte é egoísta. A Literatura mais que todas.

– Não! Não é a mesma coisa! Uma coisa é tentar enganar a Morte fazendo a obra viver, outra completamente diferente é destruir o Universo só para terminar seu jogo no auge!

– No auge? – gritou Sekisusai, pulando e me agarrando pela gola da camisa – Eu estava acima do auge! Eu recebi a Epifania, uma obra de caráter divino! Eu servi ao propósito que me era reservado e o que aconteceu? Destruíram minha obra, todas as minhas obras! Minha tentativa de enganar a Morte morreu antes de mim! Me condenaram a uma morte prematura! Eu derramei minha alma na Epifania e eles a destruíram para salvar o que? A Literatura! Um capricho humano triunfou sobre uma obra divina! Pois eu vou acabar com tudo, humano e divino! Eu vencerei a todos!

– Você é louco, sabia?

– E você? Você não sentiu o mesmo? Vindo me procurar porque achou que seu auge tinha sido 2009? Você sabe o que eu sinto! Você esteve no topo, não pode voltar!

– Eu posso sim! – gritei, mas não estava muito certo disso.

Sekisusai soltou minha camisa. Afastou-se, lentamente.

– Não pode… O sucesso vicia… Após ser genial, você não pode ser mediano! As pessoas esperam que você seja genial…

– Que se danem as pessoas! A Literatura é egoísta, não é? Eu serei mediano toda vez que eu me sentir mediano! Eu nunca fui genial, aliás… textos de auto-referência sobre café? Desde quando isso é genial?

Sekisusai tirou das dobras do seu quimono uma pistola e apontou para mim:

– Você vai tentar me impedir?

A pistola foi uma surpresa. Eu não esperava que Sekisusai chegasse a esse ponto. Por outro lado, porém, ele tinha chegado ao ponto de destruir o Universo e Deus apenas para satisfazer seu ego.

– Não, não vou. – respondi.

Sekisusai pareceu surpreso.

– Se Deus é tão frágil que possa ser nomeado e destruído por você, – continuei – não vale a pena protegê-lo. Se Deus é sábio, eu não preciso protegê-lo. Só não posso continuar com você aqui.

– E o que você vai fazer então?

– Vou descer as escadas, e tentar deixar de ser mediano. Mas se eu for pelo resto da minha vida, que seja.

Voltei-me e tomei meu caminho. Ouvi, atrás de mim, Sekisusai gritando:

– Aproveite sua vida mediana enquanto lhe resta! Eu estou perto de descobrir O Nome, André! Tão perto!

E desci as escadas.

 O Nome

(FIM)

2 Demonstrações de Atenção:

vIrgo disse...

O capítulo IV foi bom. Mas o V foi uma mordida amarga no final da refeição. Se isso importa ou não ao cozinheiro, é outra história. :)

IV > III = II >> I >> V

Matheus disse...

Se liga:

Yahweh = Deus dos Hebreus.
O nome de Deus pode ser esse mesmo que o Sekisusai tá tentando escrever, mas segundo os próprios hebreus, é um nome impronunciável, e nem se tem a necessidade de pronunciar, já que Deus é Deus.

Mas me parece óvio demais isso.
Fazendo um paralelo, na mitologia sumérica, temos uma gama de fatos que se equiparam com a história bíblica. Nessa mitologia, Yahweh equivale a Enlil.
Talvez o Sekisusai já tenha tentado todas as possibilidades com essas letras, mas não tenha percebido a coisa da dimensão correta.

Fica a dica, quem sabe é só questão de ponto de vista.