Círculos
Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V
O Sol é um círculo. Claro que você sabia disso. Mas também havia um círculo no chão do pátio do templo. Uma xícara sem alças, contendo um líquido escuro e fumegante. Eu e Sekisusai formando um círculo ao redor deste círculo menor, iluminados por um círculo maior, que era o Sol, que estava iluminando um outro círculo, que é a Terra. Este último círculo, maior que o formado pela xícara e também do que o formado por mim e Sekisusai, mas menor do que o Sol. Apesar de não parecer para as pessoas que moram no círculo que é a Terra.
Mas me desviei do assunto.
– O que vamos fazer agora é um ritual sagrado. – disse-me Sekisusai, em tom solene – Você entende?
– Sim, mestre.
Sekisusai estava em posição de lótus. Tentei imitá-lo, mas é mais difícil do que parece, então limitei-me a sentar-me de pernas cruzadas. Eu estava de peito nu o que, na minha atual condição física, era um tanto quanto constrangedor. Muito constrangedor, na verdade. Olhos fechados, inspirando e expirando lentamente.
– Todo o culto tem uma bebida, um alimento, uma droga sagrada que o aproxima de seus deuses. Esta é a nossa.
– Sim, mestre.
– Mas não pense que isso te torna especial. Você não é. Ninguém é. Somos todos a mesma coisa, viemos todos do mesmo lugar e voltaremos ao mesmo lugar. Você é humano e morrerá, só a obra viverá.
– Sim, mestre.
– O tudo é apenas uma alteração do nada. Não importa no grande plano cósmico. Houve uma falha no Nada e o nosso Universo teve início, a Entropia fará com que Tudo volte ao Nada.
– Sim, mestre.
– A vida é só isso. Um soluço entre um nada e outro nada. A Arte é apenas um jeito de tentar prolongá-la. A arte é puro egoísmo. É uma negação da morte.
– Sim, mestre.
– A literatura é a mais egoísta de todas as artes. Ela força a pessoa a viver dias, às vezes meses apenas apreciando a sua tentativa de tornar-se imortal.
– Sim, mestre.
– Mas você não é, nem sua obra é. Tudo é passageiro. Como as nuvens, como o coração humano. Até como a mente.
– Sim, mestre.
– Não há como escapar. Não há como evitar nem a morte, nem a entropia. Qual a solução?
– Não sei, mestre.
– Medite sobre isso. Então poderá tomar a bebida sagrada.
Inspirei mais fundo dessa vez do que estava inspirando antes. Como se o ato de inspirar o ar pudesse me inspirar à resposta ao enigma. Não havia solução. A morte é inevitável, mas nossas obras sobrevivem a nós para que outros as leiam. Esse outros inevitavelmente morrem, mas outros sobrevivem para ler. Todos iluminados pelo mesmo Sol. Mas o Sol e todas as estrelas morrem. E todas as criaturas morrem junto. E no universo não haverá mais lugar onde a vida seja viável. E, assim, a própria obra morre.
Não há solução para quem aceite esses fatos.
– Nós mentimos. – respondi.
– Desenvolva.
– Nós nos enganamos. Fingimos que a obra é importante, porque é tudo o que sabemos fazer. Não podes impedir o avanço do Nada, então fazemos o que sabemos. E assim fingimos que fazemos o suficiente.
Sekisusai ponderou a resposta.
– Beba. – ordenou.
Respeitosamente, levei a xícara até os lábios e sorvi a bebida sagrada. Era uma café muito bom, de fato. Mas não sei se o chamaria de “sagrado”. “Mágico”, talvez. “Exótico”, com certeza. Mas dificilmente “sagrado”.
Seja como for, o café fez o que um bom café faz: estimulou minhas sinapses. Eu senti o desejo de escrever.
– Você está sentindo o desejo de escrever? – perguntou-me Sekisusai.
– Sim, mestre.
Sekisusai retirou das dobras do seu quimono o meu caderno.
– Sabe, há várias formas de escrever… – disse Sekisusai – Uma delas é vivendo. O que você escreveu no primeiro dia que esteve aqui, enquanto contemplava as nuvens?
Abri o caderno, eu nem lembrava mais:
– “As nuvens escondiam um monstro, como jamais se viu”.
– Ótimo. Procure pelo monstro nas nuvens, então. – disse Sekisusai, apontando os fundos do templo, onde o nevoeiro era deveras denso.
– Eu devo procurar um monstro?
– É.
– Vestido assim? – perguntei, chamando atenção ao fato de eu estar de peito nu.
– Por que você tirou a camisa, afinal?
– Achei que daria um ar mais zen à meditação…
Sekisusai encarou-me com ar incrédulo:
– Desde quando ficar sem camisa é zen?
***
Depois de uma parada no meu quarto para me vestir, aventurei-me a ir ao meio do nevoeiro. Carregava como única arma o meu caderno. O santuário onde a enigmática estátua do orangotango repousava servia de fronteira entre o mundo real e o ilusório mundo dominado por nuvens tão inconstantes quanto o coração humano. Tão inconstantes quanto o universo, enfim.
Tudo branco.
Como uma folha de papel que espera por letras a lhe darem um sentido.
E, aos poucos, o rugido do monstro.
Era, na verdade, uma mistura de rugido com ronronar. Mas, em meio àquela névoa, não pude deixar de sentir medo. Hesitei, porém eu sabia que devia continuar com aquilo. Era o meu texto, afinal.
Logo, tão branco quanto a névoa em minha volta, surgiu um dragão, não muito alto, mas extremamente comprido. Seus olhos vivos e espertos captavam cada movimento meu. Suas garras poderosas faziam marcar profundas no solo. Seu corpo se perdia no nevoeiro. Ele usava um chapéu do tipo fedora.
Tentei aproximar-me, mas ele me bloqueou com a cauda, que surgiu não sei de onde.
– Já está perto o suficiente. – disse o dragão.
– É só isso? – perguntei – Eu só tinha que vir até aqui e encontrá-lo?
– Talvez. O que você acha que devia fazer?
– Sei lá… talvez matá-lo…
– Matar-me? – o dragão parecia ofendido – Por que matar-me?
– Você parece perigoso.
– Você vem aqui procurando um monstro que sequer conhece, mas já pensando em matá-lo e eu sou perigoso? Não creio que o perigo seja quem se esconde no nevoeiro, mas quem busca no nevoeiro um perigo.
– Talvez…
– Ademais, eu me preocuparia mais com quem está lá fora. Quem te mandou aqui.
– Por que eu me preocuparia com Sekisusai?
– Se você não sabe, eu também não sei. Sou a sua ficção. Mas você sente que há algo errado, caso contrário eu não diria nada…
Pensei um pouco no que o dragão me disse. Era verdade. Aquela ficção estava me dizendo uma verdade que eu não queria admitir para mim mesmo.
– Você está certo, dragão… Humm… Vou te chamar de Bogart.
– Obrigado. Agora, o que é tão estranho sobre Sekisusai?
– As coisas escritas na parede da sala dele. “YAHWAH, YUHWEH, YAHWUH”…
– Certo. – ponderou Bogart, levando sua gigantesca garra ao queixo – É como uma fórmula… uma fórmula mágica… E tem também a estátua do orangotango… O que é aquilo?
– Um orangotango escrevendo um texto com uma pena… É uma alegoria à literatura… É uma idéia do matemático alquimista John Dee…
– Certo… – disse Bogart – O que ele diz?
– Segundo um livro que eu li há muito tempo… O orangotango, tendo uma pena resistente e tinta e papel suficientes, escreveria todas as obras do mundo, e mais algumas…
– Então… esse Orangotango Eterno acabaria por escrever inclusive os textos de André Darsie de Oliveira?
– Sim. – respondi – Antes do próprio André Darsie de Oliveira, provavelmente.
– E até A Obra Derradeira?
– Talvez até a Epifania!
Percebi que o nariz de Bogart estava se tornando um nariz humano. Um nariz grande, mas ainda assim humano.
– Foi o Orangotango Eterno a força divina que inspirou Sekisusai a escrever a Epifania? – perguntou-me Bogart. Ele agora tinha orelhas.
– Não sei nem se o Orangotango Eterno existe ou se é uma alegoria…
– Eu existo? – perguntou-me Bogart. Seu corpo já não parecia mais tão comprido.
Pensei a questão com cuidado.
– Em um certo nível, existe.
– Mas sou ficcional.
– Certo.
– Da mesma forma, Sekisusai pode forçar o Orangotango Eterno a existir.
– Acho que sim. Essa técnica de misturar realidade com ficção é muito complexa!
– Eu sei! – respondeu-me Bogart.
Mas percebi que ele não era mais Bogart. Ele era André Darsie de Oliveira com um chapéu fedora. Eu e Eu-de-fedora éramos as únicas coisas em meio ao nevoeiro. Nada mais tinha restado de Bogart.
– Isso é estranho… – disse Eu.
– Mas é por isso que você entrou no nevoeiro. – disse Eu-de-fedora – Você achou o que estava procurando!
– E o que era?
– Eu! – disse Eu-de-fedora – Você precisa ir agora. Pense sobre o que conversamos.
Segui o meu-de-fedora conselho e tomei meu rumo de volta ao mundo real.
***
Ao alcançar o santuário do Orangotango Eterno, finalmente pude me livrar do nevoeiro. Peguei o caderno, que tinha levado comigo e abri-o. Todo o meu encontro com o dragão que veio a chamar-se Bogart que veio a tornar-se Eu-de-fedora estava ali narrado. Por mim mesmo.
Sekisusai me esperava mais à frente.
– Então, como foi? – perguntou-me.
– Foi… humm… interessante. – respondi.
– Acho que a palavra que procura é “transcendental”.
– Não. Foi mais pra interessante, mesmo.
Sekisusai pareceu desapontado.
– Não foi melhor do que o seu melhor texto, aquele que o levou a buscar o auto-aperfeiçoamento?
– Não. Sinto muito, mestre.
Ele apontou para o meu caderno.
– Posso ler?
Num reflexo, passei o caderno para ele. Mas, assim que percebi que Sekisusai era próprio tema principal do texto, arranquei-o de suas mãos.
– Não… – tive dificuldade para adicionar a palavra seguinte – …mestre.
– Como assim, não posso ler?
– É muito particular…
– Todo o bom texto é particular! O que nos faz mostrá-los aos outros é a falta de pudor!
– Sinto muito, mestre. Não posso.
Sekisusai, fingindo não se importar, deu de ombros:
– Muito bem. Você diz que não é o seu auge?
– Não, mestre.
– Mas você sente que já teve o seu auge?
– Sim, mestre.
– Sabe… atingir o auge é como atingir o topo desta montanha. É difícil chegar até aqui, mas vale a pena. Você percebe que não há nada mais para você lá embaixo. Não pode volta. E não há nada acima! Nem mesmo o monte Everest é tão alto. É impossível, mas é verdade. É o poder da ficção. Mas quando atingimos o nosso auge na ficção, o que fazemos?
– Tentamos de novo, mestre?
– Tentamos algo mais impossível. Você diz que no nevoeiro você não atingiu o seu auge, tudo bem: eu acredito. Mas você vai atingir o seu auge, ou o meu nome não é Sekisusai.
As palavras saíram de mim sem eu pensar:
– E não é.
Sekisusai encarou-me com um olhar de fúria.
– Como?
– O seu nome, mestre, não é Sekisusai. O senhor trocou de nome ao retirar-se para criar A Obra Derradeira.
– Sim, meu nome é, portanto, Sekisusai.
– Não o seu verdadeiro nome…
– Meu verdadeiro nome… Nomes são apenas nomes, André. – ele pronunciou meu nome com um pequeno deboche – Não há nada de verdadeiro ou falso sobre eles. Meu nome e eu são coisas diferentes. Tanto o meu nome original, que você diz ser meu nome verdadeiro quanto Sekisusai são apenas nomes. Eles não contêm minha essência…
Dito isso, Sekisusai coçou o queixo, contemplativo.
– Se meu nome contivesse a minha essência, qualquer um que o chamasse teria poder sobre mim, não é?
– Acho que sim, mestre.
– Claro que é! É por isso que Deus esconde seu nome. Este sim, um verdadeiro nome…
Fiquei petrificado. Então era isso!
– Tetragrammaton… – sussurrei, em minha própria Epifania.
– Sim, Deus é o único capaz de saber qual nome contém sua essência… – continuou Sekisusai, sem sequer ter me escutado – Quem descobrir esse nome… Por isso, André, ele possui esses tantos nomes que se referem apenas a um aspecto de si. “Adonai”, que quer dizer “Senhor”… “Jireh” que quer dizer “O que dá provisão”… “Shammah” é “aquele que está presente”… São mais descrições do que nomes, na verdade… mas o nome… ah, o nome…
Eu suava frio. Se o que eu estava ouvindo era verdade…
– Sinto muito, mestre. Mas não me sinto bem… preciso dormir um pouco. – eu disse.
Mal terminei de falar, corri para o meu quarto. Ouvi, atrás de mim, um protesto de Sekisusai:
– Recém passou do meio-dia!
Mas não importava. Eu finalmente tinha compreendido o que significava “A Obra Derradeira”.
(continua…)
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
A Obra Derradeira – Capítulo IV
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