O Coração Humano
Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V
A manhã seguinte me trouxe um profundo desconforto. Tive a impressão de que eu tinha tocado em um assunto proibido ao mencionar o Lanceiro. Quando a luz do Sol começou a aparecer pela janela, portanto, me levantei e fui ter com Sekisusai. Chequei no quarto da máquina de escrever. Estava vazio. Não passava de uma pequena sala escura, sem janelas, com um banquinho, uma mesa, e a dita máquina. E papéis, claro. Vários e vários papéis. Espalhados por todos os cantos da sala, empilhados em torres frágeis e imensas de conteúdo informacional. Alguns até pendurados na parede. Senti-me tentado a lê-los, a conhecer a mítica Obra Derradeira na qual Sekisusai com tanto afinco trabalhava. Mas resisti. Li apenas grandes esboços escritos à mão, que estavam pendurados na parede. Não havia nada de muito compreensível neles, apenas seqüências de letras que, na hora, me pareceram aleatórias:
“YAHWAH, YUHWEH, YAHWUH, YAHWOH, YYHWYH, YTHWGH, YMHWHY, YEHWEH, YEHWUH” e assim por diante.
Pensei no significado daquelas letras por certo tempo, enquanto procurava por Sekisusai em seu quarto, na cozinha, no templo do orangotango… Encontrei-o numa cabana nos fundos do templo, onde vários pombos fizeram morada.
– Bom dia, mestre. – cumprimentei-o, da forma mais simpática que pude.
– Bom dia! Acabo de mandar uma carta. – disse ele, apontando para um pombo que voava para longe da montanha. Sua voz não demonstrava o mínimo grau de ressentimento – Agora vou esperar o mercador. Ele vem hoje, sabe?
Ele foi em direção à escada na frente do templo e sentou-se no chão. Assumiu a posição de lótus e lá ficou, observando a dança das nuvens em redor. A cena tinha um toque até transcendental e uma pessoa paciente teria assumido uma postura de silêncio referente.
– A Obra Derradeira é sobre o que? – perguntei, um pouco alto demais.
Sekisusai soltou um breve suspiro de impaciência.
– É sobre tudo.
– Tá… mas sobre que aspecto de tudo, mais especificamente?
Sekisusai virou-se para mim, analisou-me de cima abaixo e, ao invés de responder, ordenou:
– Diga “tigre”.
– Tigre. – eu disse.
– Você imaginou o tigre?
Assenti.
– Imaginou seu pêlo listrado, seu caminhar confiante em meio à selva, seu rosnado baixo enquanto prepara-se para atacar uma presa desavisada?
Assenti.
– Então, ao dizer “tigre”, você imaginou também “árvore”, “selva” e “presa”, não é?
Assenti uma terceira vez.
– Todas as palavras pressupõe todas as outras palavras. “Tigre” pressupõe o conceito do próprio tigre, pressupõe ainda a selva onde ele vive, pressupõe a presa da qual ele se alimenta, pressupõe os tigres ancestrais deste. Tudo pressupõe tudo.
– Então… o seu livro… A Obra Derradeira… vai ser qualquer coisa… e… assim pressupor tudo?
– Não, A Obra Derradeira conterá uma grande parcela de tudo, pressupondo tudo e a si mesma. Há um texto do Borges em que um sacerdote, através dessa premissa chega à conclusão de que a linguagem divina faria a mesma coisa, mas pressupondo e englobando tudo não de forma gradual como a nossa língua, mas instantânea, e não de forma sutil, mas explícita. Imagine só!
– Mas… – eu estava realmente confuso sobre o que Sekisusai me falava – Se A Obra Derradeira pressupõe a si mesma, isso não cria uma situação como a que um pintor pinta o mundo todo até pintar a si mesmo pintando a si mesmo pintando a si mesmo?
– Até que fique impossível definir se a arte imita a vida ou se a vida imita a arte… – disse Sekisusai, meio que para si mesmo.
– Da mesma forma que-- – comecei, mas me contive.
Sekisusai assentiu.
– Sim, assim como o Lanceiro faz quando escreve na água com sua lança. É o ato de descrever a morte do peixe que o mata ou ele descreve a morte do peixe à medida que o mata?
Hesitei, mas a brecha estava aberta e precisei aproveitá-la:
– O que houve entre vocês?
***
O Lanceiro estava encostado na amurada do barco, tomando alguma bebida que não imagino o que fosse. Só me lembro do cheiro indescritível. Pense num cheiro. O que quer que tenha imaginado, é melhor que o cheiro daquela bebida.
– Então, você é um homem de letras? – perguntou-me o Lanceiro.
O uso espontâneo de “homem” em detrimento de “garoto” pela terceira vez naquele dia me fez perceber que eu não fazia a barba há certo tempo.
– Sou sim. Mas pretendo me aperfeiçoar... Onde você aprendeu a técnica da lança?
– Foi Sekisusai quem me ensinou. – respondeu o Lanceiro, com naturalidade, enquanto bebia um gole de sua indescritível bebida.
– Sekisusai? Quem é ele? – perguntei.
Os olhos do Lanceiro se tornaram sombrios. Ele olhou para os lados, para ter certeza que nem Chiuaua Assustado nem Pescador Jovem Para O Qual Não Me Prestarei A Dar Um Nome Ou Sequer Um Apelido estavam escutando. Ele estava prestes a narrar uma história que só se narra uma vez em vida (e nenhuma na morte, isso seria absurdo, quem te deu essa idéia?):
– Você já escreveu um texto que você achou tão bom que sentiu-se realmente orgulhoso de tê-lo escrito?
Assenti.
– Já escreveu um texto que fez você acreditar que tinha valido a pena viver até aquele momento só pelo texto?
Assenti de novo.
– Já escreveu um texto que tinha algo único, como se uma parte de sua alma tivesse ficado para sempre nele?
Assenti uma terceira vez.
– Não importa. – disse o Lanceiro – O texto de Sekisusai era melhor.
– Que texto é esse? – perguntei.
– Sekisusai já foi um homem comum. Como você e eu. – “homem” pela quarta vez, eu precisava mesmo fazer a barba – Ele amava escrever. Tinha um blog. Com seus textos bons e ruins. O obrigatório Texto Constrangedor de Estréia do Blog também estava lá… Em resumo, ele era um blogueiro. Com muito potencial, é claro, mas apenas um blogueiro.
– Então o que torna ele tão especial? – perguntei.
– Já ouviu falar de Epifania? – perguntou-me o Lanceiro. A tarde estava chegando ao fim, de forma que eu via apenas diferentes tons de cinzas indefinidos se mexendo. Mas chamas brilhavam em seus olhos selvagens.
– É a súbita realização de um significado… – respondi.
– É uma experiência divina! – retrucou o Lanceiro – Um homem não deve depender da epifania, mas da sua habilidade, é claro. No entanto, quando Deus ou os deuses decidem dar uma epifania para uma pessoa habilidosa, é como se o Paraíso tivesse chegado na Terra…
“Sekisusai (ou o homem que viria a ser Sekisusai) recebeu um dia uma epifania. E a escreveu. Por sete dias e sete noites, ele não fez nada além de escrever. Diz a lenda que não houve uma correção ou revisão, ele escreveu tudo exatamente de acordo com a epifania. Era o texto perfeito. Quando terminou, ele estava exaurido, magro e fraco. O texto tomou todas as suas forças. Ele o postou em seu blog e… em menos de quinze minutos seu blog saiu do ar.
“Tudo foi apagado, sua conta foi encerrada. Até sua conexão com a internet começou a ficar mais lenta. Ele estava sendo impedido de blogar, entende?
“Ele passou alguns dias correndo pela cidade para ajeitar sua conexão com a internet. Quando voltou, encontrou seu computador destruído, seus cadernos de esboço rasgados e seus livros bagunçados.
“Ele decidiu que não deixaria assim: através do computador de um amigo, criou um segundo blog. Este muito mais competente e com textos melhores. Até violou a regra do Texto Constrangedor de Estréia do Blog. Até o primeiro texto era ótimo, entende? Claro, a epifania não estava lá. Ela nunca poderia ser reescrita. Mas era perto o suficiente para provocar as pessoas erradas.
“Um dia, ele foi visitado por uma agente da Sagrada Ordem dos Blogs chamada--
– Valquíria! – interrompi.
O Lanceiro franziu o cenho, surpreso. Ou ao menos foi isso que o imaginei fazer em meio à escuridão que já tinha se instalado.
– Exato. Valquíria era o nome dela. – ele disse – Ela exigiu que ele parasse com aqueles textos. Ele tinha colocado em perigo todos os blogueiros ao postar a Epifania e isso podia se repetir a qualquer momento.
– Qual era o perigo ao postar a Epifania. – perguntei.
– Toda a literatura é um perigo. – ele respondeu, de forma vaga – Além do mais, o que você acha que aconteceria com o mundo após um texto perfeito ser publicado? Não era o melhor texto até então. Era um texto perfeito! Não havia porque continuar.
“Sekisusai exigiu que Valquíria lhe devolvesse o texto, pois parte de sua alma tinha ficado com ele. Como parte da alma de um pai ou uma mãe fica com o seu filho. Mas Valquíria disse que não havia volta. O texto tinha sido destruído. Assim como o espírito de todos o que leram a Epifania. Pois todos os que a leram perderam qualquer desejo de tornarem-se pessoas melhores. Não havia como chegar ao nível da Epifania.
– Então Sekisusai atingiu a perfeição? – perguntei, entre maravilhado e horrorizado.
– Não exatamente. O texto era perfeito, mas só Sekisusai, Valquíria e mais algumas pessoas que agora devem estar trancadas em salas de paredes acolchoadas sabiam disso. O texto não viveria. E, como um pai que sobrevive ao seu próprio filho, Sekisusai sentiu-se derrotado…
“Após muita discussão, Valquíria disse que Sekisusai poderia continuar a escrever em seu novo blog, desde que nunca mais escrevesse uma Epifania, se recebesse uma. Sekisusai declarou então: ‘Eu cheguei ao ponto mais alto da montanha mais alta e você quer que eu volte para o chão?’
“Ele peregrinou por todo o mundo, e partes de alguns outros… Mudou seu nome para Sekisusai. Ninguém sabe qual era o seu nome antigo. Só Valquíria, talvez. Instalou-se na montanha mais alta. E lá vive até hoje, em um templo, trabalhando intensamente para conseguir criar A Obra Derradeira.
– A Obra Derradeira? Mas a Epifania não era A Obra Derradeira? – a confusão estava me deixando tão confuso quanto um professor em sala de aula. Quando a aula não é da matéria dele, é claro.
– Você acha que destruir toda a Literatura e o espírito de aperfeiçoamento do ser humano é o máximo que um texto pode atingir? Não! Sekisusai está na montanha mais alta, refinando suas habilidades, decifrando o universo, em busca de um texto tão puro que será indissociável da própria vida!
***
Sekisusai agiu como se não tivesse escutado a minha pergunta. Repeti:
– O que houve entre vocês? Entre você e o Lanceiro?
– Éramos apenas bons amigos, não importa o que você tenha escutado por aí… – respondeu Sekisusai – Quero dizer, ele era meu discípulo. Ele queria aprimorar sua técnica… Era tudo o que ele pensava: técnica! Você se impressionou com a caligrafia dele na placa que dizia “Restaurante” e com a capacidade dele de mesclar realidade e ficção ao matar um peixe descrevendo sua morte… Mas a descrição era emocionante?
– Eu… não lembro.
– Ninguém lembra. O texto do Lanceiro tem uma caligrafia elegante e é bastante prático no aspecto que ele queria: mesclar realidade e ficção. Mas não marca ninguém. Até porque ninguém consegue lê-la direito. É pura técnica. Nenhuma emoção. Não há equilíbrio…
A escada do templo sumia em meio a um mundo de instáveis nuvens. Sekisusai continuava a fitá-las.
– Já lhe disseram para seguir o seu coração, André?
– Já…
– Quem lhe disse isso é incrivelmente tolo! O coração é instável e enganoso. Não há nada no ser humano mais parecido com estas nuvens do que o coração. A mente, porém, não pode ignorá-lo sempre. Se a mente sempre ignorar o coração, a pessoa torna-se fria. Como morta. Se você sempre seguir o coração, vai virar escravo das paixões. A mente deve disciplinar e subjugar o coração. E saber quando sabê-lo. Um texto é assim. Muita técnica e ele se torna morto. Muita emoção sem ao menos uma vírgula no lugar certo se torna… estúpido.
– E quanto aos textos dadaístas, mestre?
– Qual foi o último texto dadaísta que você leu?
– Nunca li um texto dadaísta, mestre.
– Acho que isso mostra o valor de um texto dadaísta…
Fiquei sem argumentos, como um fundamentalista religioso fica ao deparar-se com um debate racional de mútuo respeito entre as partes. O silêncio reinou por certo tempo, até ouvirmos passos vindos da escada, em meio àquele mundo de nuvens inconstantes como o coração humano. Aos poucos, o vulto de um homem carregando um pesado cesto de vime às costas começou a tomar forma. Era o mercador que trazia os suprimentos para o templo. Chegando ao topo da escada, ele depositou o cesto no chão e cumprimentou Sekisusai.
– Você recebeu minha carta? – perguntou Sekisusai, levantando-se.
– Sim, patrão. – disse o mercador, retirou de um bolso alguns papéis e entregou-os ao mestre – Aqui está.
– Ótimo! André, seu treinamento vai começar.
***
– Sei lá… Nenhuma delas! – respondi, desanimado.
– Você tem que escolher uma! – repreendeu-me Sekisusai.
– Eu não sei! Letra “A”…
– Letra “A”? Ta bom, então… “Você está numa balada, você…” “Letra ‘A’: ...dança com os amigos”. É isso?
– É.
– Muito bem… – Sekisusai fez algumas anotações no papel que o mercador tinha entregado pela manhã – Então “Que palavra te define?”… Está pronto?
– Estou.
– “Palavra que te define é: Engraçado”.
– Legal… – suspirei – Como isso vai me ajudar a escrever melhor?
– Estou ajudando você a se conhecer melhor…
– Eu já sabia que eu sou engraçado!
– Eu não sabia… – respondeu Sekisusai.
– Sério?
– É. Você nunca disse nada engraçado…
– Claro que eu disse!
– Tipo o que?
– …
– Não consegue pensar agora, né?
– Não… Tô meio cansado… mestre…
Sekisusai pareceu um pouco desapontado.
– Muito bem. – disse – Podemos encerrar com os testes hoje.
– Posso dormir um pouco?
– O quê? É recém meio-dia! O que você precisa, é de um pouco de estímulo ritual…
(continua...)
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
A Obra Derradeira – Capítulo III
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