quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A Obra Derradeira – Capítulo II

O Lanceiro

Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V

Não foi como eu esperava que fosse. Mas algo é como esperamos? Para começar, Sekisusai quase não falou comigo pelos primeiros três dias. Ficou trancado em uma sala do templo, de onde eu ovia o som de teclas. Ele gastava cerca de doze horas por dia naquela sala, em frente a uma antiga, mas ainda funcional, máquina de escrever.

– Sim, é só ligar na tomada! – disse-me ele certa vez, após eu perguntar porque ele não usava computador ou notebook.

De fato, o templo era uma contrução antiga e, na época, a única coisa que Sekisusai tinha trazido era ele mesmo.

Tirando as doze horas de escrita (tempo no qual eu tentava, inutilmente, também escrever) e as oito de sono, Sekisusai gastava grande parte do dia na horta nos fundos do templo, no curral onde havia uma vaca e algumas galinhas e na cozinha. Nossas refeições costumavam ser simples, combinando da melhor forma possível os ingradientes do próprio templo. O que não podia ser conseguido no templo era trazido mensalmente por um mercador de uma vila próxima, na base da montanha.

O jantar era sempre à luz de vela. Nada romântico. Não importa se fazia vento ou não lá fora, a vela sempre tremulava furiosamente como se houvesse uma corrente de ar eterna que se concentrava unicamente nela.

Nessas ocasiões, eu tentava puxar assunto.

– Como está o projeto? – perguntei eu, certa vez.

Sekisusai não respondeu. Comeu alguns legumes com os hashis. A janta naquela noite era algo que se pode chamar de yakisoba… embora não tivesse macarrão, por ser o fim do mês e os suprimentos do mercador terem acabado. A luz tremulava… maldita vela!

– Conseguiu escrever bastante hoje? – tentei mais uma vez.

– Sim. Nada que preste. E você? – respondeu Sekisusai, um pouco impaciente.

Eu baixei a cabeça.

– Nada.

– Nada? Nem uma linha?

– Não… não consegui pensar em nada que valesse a pena escrever…

– Você é editor ou escritor?

– Escritor, mestre. – eu peguei o hábito de chamar Sekisusai de mestre, para que ele resolve ser mais prestativo com relação a mim.

– Por que se preocupa com a qualidade do que escreve só para você?

– Não sei, mestre… apenas me preocupo. O senhor não se preocupa com o andamento da Obra Derradeira?

Um tremor percorreu o corpo de Sekisusai. Ele se conteve, porém, limitando-se a depositar os hashis na mesa. Pigarreou e, um tanto quanto sombrio, perguntou:

– Afinal de contas, André, como você ouviu falar de mim e da Obra Derradeira?

***

A beira da estrada estava plena de árvores floridas exalando o anúncio de que a primavera estava começando. O sol estava agradável e uma brisa refrescante vinha do imenso lago que a estrada contornava. Era agradável caminhar longas distâncias em dias assim. Não muito distante, avistei uma pequena vila. Em sua maioria, casas de pescadores. O lago parecia ter, de fato, muita vida dentro de si. Pequenos barquinhos podiam ser vistos aqui e ali, com alguns pescadores trabalhando. Outros descansavam, afinal era quase meio-dia.sekisusai2

Logo entrei na vila, parei frente a uma placa que anunciava “Restaurante”. Não parei apenas porque estava com fome, mas porque a placa tinha sido escrita de uma maneira interessante. Era algo sutil, que eu não sabia explicar, mas que despertava interesse. Não me lembro de jamais ter me detido tanto tempo a observar uma placa de restaurante.

Entrei.

O cheiro de comida caseira me trouxe à memória rapidamente o fato de eu não ter comido qualquer comida decente nos últimos cinco dias. Minha nova vida de andarilho não me permitia uma vida muito gourmet… Uma senhora de meia-idade baixinha e com uma blusa florida foi quem me atendeu. Seus óculos grossos presos com uma correntinha lhe davam o simpático aspecto de uma coruja. Mas seu olhar era bastante vivo e um tanto quanto frio. Uma coruja eficiente, talvez.

Ela me conduziu a uma mesa e me deu uma comanda para o buffet. Tirando eu, havia no restaurante apenas umas três famílias. Pelos olhares que me dirigiam e a desenvoltura com que se portavam, pude ver que eu era o único forasteiro.

Não sei o porquê, mas eu realmente me sinto incomodado quando como sozinho em um restaurante. Por isso, apesar de a comida ter uma qualidade que as bolachinhas secas e água que eu trazia na mochila, comi o mais rápido que pude e fui logo pagar a conta.

– Poderia me dar uma informação? – pedi à sra. Coruja Eficiente.

– O que é?

– A placa na frente do restaurante… – hesitei. Não sabia exatamente o que eu querria perguntar.

– O que tem ela? – o tom impaciente de Coruja me fez juntar logo algumas palavras prontas na minha mente e dizer sem pensar:

– Ela é tão legal, uma fofurinha mesmo! Queria me casar com ela!

– Quê?

– Quero dizer: Quem foi que escreveu a placa?

Coruja Eficiente franziu o cenho.

– Por quê?

– Algo nela me chamou a atenção…

Coruja Eficiente pensou por alguns segundos e, sem responder à minha pergunta, virou-se para trás e gritou:

– Ô moleque, vem cá!

Alguns passos apressados soaram nos fundos do restaurante, uma porta atrás de Coruja Eficiente se abriu e de lá saiu um garotinho cabeçudo de olhos esbugalhados e orelhas grandes. Por algum motivo, embora ele parecesse não perceber, o garoto tremia. De modo que o chamarei de Chiuaua Assustado.

– Que é, mãe? – perguntou Chiuaua Assustado.

– Esse é o Guilherme, o meu filho. – disse a Coruja Eficiente, acabando de vez com qualquer propósito em continuar chamando o garoto de Chiuaua Assustado, a não ser pela minha própria diversão – Leva esse homem até o Lanceiro!

Guilherme, O Chiuaua Assustado, assentiu nervosamente e disparou pela porta da frente. Tive que apressar o passo um pouco. O garoto me levou até um cais onde alguns barcos ainda estavam atracados. Uns marinheiros de pele curtida pelo Sol espreguiçavam-se e conversavam. Contavam histórias de pescador, pensei.

– E eu estou dizendo que algumas idéias, como as idéias matemáticas e a idéia de perfeição são inatas ao ser humano! – gritou um deles.

– Isso é absurdo! Todas as idéias são adquiridas através da experiência! O homem vem ao mundo como uma folha em branco! – respondeu o outro.

Todas as pessoas têm a idéia de perfeição e idéias como triângulo e círculo! São inatas!

– Então por que temos que ensinar às crianças a reconhecer as formas?

– Porque as idéias inatas precisam de um tempo de maturação, oras!

– Até lá a experiência já teve um bom tempo para agir… – disse o pescador, com ar maroto.

Típica história de pescador…

– Tio, leva a gente até o Lanceiro? – perguntou Chiuaua Assustado, sem especificar direito quando dos vários pescadores ali era o “tio”.

– Sai pra lá, garoto, não vê que a gente tá ocupado? – ralhou um deles.

Chiuaua Assutado continuou repetindo a pergunta, dessa vez olhando nos olhos de cada pescador para o qual fazia a pergunta.

– Tá bom, eu levo! – gritou um pescador mais jovem, que parecia entediado com as histórias que os pescadores inventavam sobre a aprendizagem e a mente humana.

Entramos em um barco a remo e o pescador começou a remar para um lado do lago que sumia entre algumas montanhas. Não eram montanhas tão altas quanto as Montanhas Sagradas, mas eram grandes o bastante para fazer um homem sentir-se pequeno.

As montanhas eram escuras e lançavam sobre o lago uma imensa sombra àquela hora. A brisa, que era agradável onde tinha Sol, era ali bastante fria. Os pêlos de minha nuca se eriçaram. Em meio às sombras, de madeira escura e velas recolhidas, um barco de pesca médio. Ele parecia abandonado, como se estivesse lá há meses, sem se mexer.

Aproximamos o barco a remo ao pesqueiro e Chiuaua Assustado e Pescador Jovem Para O Qual Não Me Prestarei A Dar Um Nome Ou Sequer Um Apelido subiram ao convéns. Hesitante, os segui.

– Lanceiro! Oooooi! – gritou Chiuaua Assustado, como se naquele barco alguém pudesse estar muito distante.

Passos soaram no convés inferior. Passos firmes, como uma marcha militar. O compasso de um tambor, ou de um coração. Percebi que o meu próprio coração batia nervoso, talvez soando mais alto do que deveria. Os passos se aproximaram da porta da cabine. Chiuaua Assustado e Pescador Jovem Para O Qual Não Me Prestarei A Dar Um Nome Ou Sequer Um Apelido não pareciam nervosos, afinal, eles sabiam o que esperavam. Eles sabiam quem era o lanceiro. Eu não fazia idéia. A porta se abriu com um estrondo, revelando um homem de cabelos ruivos e rebeldes, como se houvesse um fogo queimando eternamente em sua cabeça. Ele carregava uma lança. Confesso que fiquei mais surpreso com o fato de que “O Lanceiro” carregava uma lança do que uma pessoa sensata deveria ficar.

Ele tinha uma estatura mediana, embora fosse forte o suficiente para parecer maior. A pele curtida de Sol, morena, fazia um contraste interessante com os cabelos vermelhos. E trazia óculos de aro fino nos olhos, que nem por isso se tornavam menos selvagens.

– O que foi? – perguntou o Laceiro, com uma voz um pouco mais aguda do que se esperaria de um homem de aparência tão feroz.

– Esse homem aqui quer falar com você. – disse Chiuaua Assustado (que na hora parecia estar bem menos assustado que eu), apontando para mim.

O Lanceiro veio em minha direção. Seus olhos fuzilaram-me. Eu pude senti-los precrutando a minha alma, tentando entender o que eu fazia ali, ao mesmo tempo que me fazia me sentir tão pequeno quanto quando eu olhei para as montanhas enquanto estávamos no barco a remo.

– O que você quer? – perguntou o Lanceiro.

– Bom… é que… eu…

– Sim?

– Eu… eu vi… eu vi uma placa quando eu cheguei na cidade…

– O que tem a placa?

– Você a escreveu…

– Sei…

– É… você… escreveu… “restaurante”… dizia…

– É, eu escrevi essa placa. Você não gostou?

Não sei o que pesava mais no meu nervosismo: o olhar do Lanceiro ou o fato de eu não saber exatamente o que eu queria ali…

– Eu… eu… – eu fechei os olhos, me afastando da força invasora do Lanceiro. Tentei me concentrar e, ao abrir os olhos, disse – Eu notei ela algo único, uma técnica única, que denota um grande escritor de grande habilidade.

Lanceiro sorriu. Um sorriso de escárnio, de um profissional que encontra um amador e sente pena dele.

– Sério?

– É. Foi por isso que eu vim aqui: para aprender.

Lanceiro deu alguns passos para trás. Senti os seus olhos saindo de dentro da minha alma, parando de atormentar-me.

– Mostre-me o que você faz. – disse ele.

– O que? Aqui? Agora? – perguntei.

Ele assentiu. Hesitante, peguei minha caneta e meu caderno. Tomei fôlego e, com a maior velocidade possível, escrevi um texto. Ele estendeu a mão quando viu que eu tinha terminado e eu lhe passei meu caderno. Ele deu uma rápida olhada.

– “Havia um vazio entre as montanhas.” – ele recitou meu texto, com uma atitude jocosa – “Como se a criatura que tinha escolhido aquele lugar para seu esconderijo tivesse cavado o lago com as próprias mãos. Escolheu um ponto onde sabia ser sombrio, onde sabia que não seria perturbado pelos habitantes locais e suas vozes alegres. Escolheu o lugar perfeito para o exílio, pensou a criatura. A criatura estava errada.”

Ele fechou o caderno e o atirou em minha direção. Quase não consegui pegá-lo.

– É… Bom. – disse ele – Mas não é ótimo. Você secretamente veio planejando isso desde que viu as montanhas pela primeira vez, não é?

Não respondi. Eu não precisava.

– Essa conversa me deixou com fome… – continuou – Acompanhe-me até à amurada enquanto eu tento pescar um peixe.

Eu o aconpanhei. Ele curvou-se e observou um peixe que nadava inocentemente próximo à proa, de escamas em padrão único de preto, branco e amarelo. Fez um sinal para que eu observasse o peixe atentamente.

No momento preciso, Lanceiro atirou sua lança, fazendo sua mão deslizar da ponta até à base, sem jamais soltá-la. Acertou o peixe em cheio, que se debateu um pouco, agitou a água e a tingiu de vermelho, mas foi trazida para cima estantaneamente. Mas eu me mantive olhando para a água. Se o que eu tinha visto era verdade, Lanceiro era o escritor mais hábil que eu jamais havia conhecido!

***

– Deixe-me adivinhar. – disse Sekisusai, interrompendo meu relato – O Lanceiro tinha escrito a morte do peixe. Em um segundo, usando a lança como caneta e a água como papel. Escreveu de improviso e, junto, matou o peixe, quase que unificando ficção e realidade?

– Sim. – respondi – Ele me disse que isso era um dos princípios da Obra Derradeira, que o senhor, Mestre Sekisusai, estava desenvolvendo neste templo.

– Isso é um dos princípios, é verdade. Mas não chega nem perto da totalidade. – respondeu Sekisusai, impaciente.

O silêncio reinou naquele aposento, por alguns segundos. Apenas a chama vacilante da vela se movia.

– É verdade que o Lanceiro foi seu aprendiz, mestre Sekisusai? – perguntei, para quebrar o silêncio.

Sekisusai suspirou.

– Sim… é verdade…

– Pode ensinar a mim o que ensinou para ele? – perguntei, esperançoso.

– Acho que você deveria ir dormir agora! – gritou Sekisusai, rispidamente. Era uma ordem, não uma sugestão.

Apressei em ir ao meu quarto e deitar em minha esteira. Mas não consegui dormir. O olhar carregado de ódio que Sekisusai tinha me dirigido tinha me perturbado.

Naquela noite, Sekisusai não devotou oito horas a dormir. Pude ouvir um vigoroso bater de teclas vindo da sala da máquina de escrever, contudo.

 

(continua…)

3 Demonstrações de Atenção:

Felipe Ventura Vargas disse...

Se tu não parar de ler musashi EU PARO!

Xandinha disse...

Estranho seria se estivesse escrito na placa a palavra "home".

Matheus disse...

Isso tá saindo melhor que meu livro do Bukowski.
Haha!