Os destroços do avião ainda fumegavam no chão do deserto quando Pantufa resolveu falar:
![]()
– Tá, eu sei que eu errei! Não deveria ter tentado pilotar o avião. Às vezes eu esqueço dos meus limites…
Eu estava na frente e voltei-me para Pantufa, ele sofria ao caminhar na areia quente do deserto, retirando rapidamente cada uma de suas patas do chão, em um caminhar nervoso, desesperado.
– Quer ajuda? – perguntei, com pena dele.
– Nem pensar! – ele respondeu – A culpa do avião ter caído é minha! Além disso, já estamos perto do lugar onde o cristal está enterrado…
Passamos perto de uma moita baixa, onde Pantufa buscou abrigo o calor. Eu fiquei de fora, claro, não cabia embaixo da moita. Pantufa me olhou com seus olhos felinos.
– Não entendo porque fazem aviões que gatos não podem pilotar. Isso é errado, simplesmente errado! Gatos são muito inteligente… É só por causa dos polegares, dos malditos polegares! Vocês constroem tudo em volta dos polegares!
Limpei o suor da testa, não estava muito a fim de ouvir um gato divagando sobre polegares. Não debaixo daquele sol, pelo menos.
– Pantufa, você se importa de irmos andando?
– Calma, só preciso descansar um pouco de pisar nessa areia quente… Não vai demorar nada…
Como bom felino, Pantufa logo deu um jeito de tirar uma longa soneca, enquanto eu fiz o que podia para não ter uma insolação. Não se desperta um gato falante, é como pedir para escutar impropérios pelo resto da vida. Ele só despertou uns 40 minutos depois, espreguiçando-se e, calmamente, perguntou:
– Vamos?
A areia já não estava tão quente, fato que facilitou a caminhada de Pantufa. Eu estava exausto, fato que dificultou a minha caminhada. Pela primeira vez desde que nos conhecemos, estávamos caminhando lado-a-lado, sem que um atrazasse nem adiantasse o outro.
O Sol já estava se pondo quando resolvi perguntar:
– Você sabe para onde estamos indo?
– Não. – ele admitiu – Mas não estamos de fato procurando o cristal…
– Não estamos?
– Não. É impossível achá-lo. Estamos só mostrando que queremos encontrá-lo. Ele que nos encontrará… quando tivermos provado o bastante…
– Isso é absurdo! – protestei.
– Mas é verdade.
Caminhamos mais um pouco, até que eu decidi que era a minha vez de pedir descanso. Deitei na areia e fiz de uma pedra um travasseiro. A Lua brilhava alta no céu. Já estava quase dormindo quando comecei a sentir alguma coisa percorrendo a superfície de meu corpo, rastejando sobre ele. A princípio, pensei ser Pantufa. Mas a textura da coisa era muito diferente do pêlo fofo de um gato. Era muito mais… reptiliano.
O nervosismo tomou conta de mim. Sempre tive fobia de cobras. Sabia que não deveria me mexer, mas não consegui me controlar. Espasmos nervosos percorreram o meu corpo enquanto eu tentava me livrar da cobra, soltando pequenos e patéticos gritos. Atrapalhadamente, me levantei, lançando a cobra longe.
– É só uma cobra! – disse Pantufa, tentando parecer calmo, mas visivelmente transtornado.
– O que mais eu poderia ser? – perguntou a cobra, enroscando-se em si mesma, as escamas marrom-acizentadas esfregando-se umas nas outras, produzindo um som como de pisadas na areia.
– Pode ser o que quiser ser. – respondi, petrificado, sem pensar muito.
– Vocês não são criaturas do deserto, que fazem aqui?
– Estamos procurando algo. – respondeu Pantufa.
– Que algo?
– Um cristal. – respondi.
– Um cristal?
– É. Quer dizer, talvez seja um cristal. – eu realmente não estava muito certo – Talvez seja uma caveira de algum desafortunado, ou uma antiga adaga. Procuramos por isso e por Xangri-Lá, por ruínas antigas e por Pasárgada, pelo reino de Preste João, pela Arca da Aliança e pelo Jardim do Éden.
– Eu procuro por lagartos. – disse a cobra – Não há muito mais do que isso no deserto.
– Há sim! – respondeu Pantufa, indignado – Para quem procura mais do que lagartos, pelo menos…
– Por que eu procuraria por mais do que lagartos? Só preciso disso.
– Uma pessoa precisa de mais do que ela precisa. – disse eu.
– Eu não sou uma pessoa. – ela disse.
– Muitas pessoas não são…
– Mas muitos animais são. – disse Pantufa.
Quase no mesmo instante, uma pequena coisa se mexeu na pedra que eu antes tinha usado como travesseiro. Um pequeno lagarto.
– Oi, caras! Vocês não são daqui, são? – disse ele – Vocês não parecem criaturas do deser--
Ele nunca terminou a frase, a cobra foi rápida e mortal. Enrolando-se na vítima, com metade do corpo do lagarto ainda para fora da boca, ordenou:
– Deixem-me.
Sem querer contrariar um animal peçonhento, eu e o gato fizemos nosso caminho noite adentro, com a Lua como única fonte de luz.
O vento frio do deserto levantava pequenas porções de areia, como se fosse espuma de uma pálido e seco oceano.
O Sol inclemente surgiu de novo, castigando-nos por quaisquer pecados que tenhamos cometido. Mas não fizemos qualquer pausa ou procurarmos qualquer abrigo. De onde tiramos forças para tal, eu não saberia dizer.
Foi só quando o Sol já baixava novamente que vimos, à distância, o beduíno. Vinha do oeste, montado em seu dromedário, em nossa direção. Achegando-se, falou-me em língua que eu não entendia, assim como eu falei em língua que ele não entendia. Após diversos gestos e insucessos, percebi que só poderia falar com o dromedário:
– Por favor, poderia nos dizer onde podemos encontrar o cristal?
– Vocês procuram o cristal? – o dromedário levantou as sobrancelhas.
– Sabe onde ele está? – perguntou Pantufa, ansioso.
– Nunca ouvi falar. Mas vocês o procuram e, portanto, um cristal deve haver nesse deserto. Ademais, posso ver que não são criaturas do deserto. Vieram de longe e creio que não cabe a mim decidir se há propósito ou não em sua busca.
– Agradeço por deixar que mantenhamos a ilusão… – eu disse.
– Se for ilusão. O que não é. – interrompeu-me o gato.
– Mas precisamos ir agora. O cristal está por aí. – completei.
– É perigoso andar pelo deserto à noite. – disse o dromedário – Há animais selvagens de toda a espécie, bestas e fantasmas. E você pode ainda encontrar consigo mesmo durante a noite. Muitos encontram a si mesmos no deserto. Duelam, e nunca vencem.
– Mas então o outro eu vence! – redargüiu Pantufa.
– Sim, mas quem você prefere que vença: você mesmo ou vocês outro?
Eu e Pantufa nos entrolhamos. Ainda que não fizesse muito sentido, era uma boa questão.
– O beduíno montará o acampamento agora. – concluiu o dromedário – Passem a noite conosco e, amanhã, continuem a busca.
O beduíno desceu de sua montaria. Devia entender, como eu, o que o dromedário falava, pois não estranhou termos ficado junto enquanto ele montava uma tenda e acendia um fogo. Tampouco estranhou o tempo que eu e o dromedário conversamos.
Depois de os dois peregrinos do deserto (homem e seu animal) terem ido dormir, eu e Pantufa ainda ficamos em volta do fogo. Foi então que Pantufa me revelou que, outrora, ele tinha sido humano. Perguntei se tinha sido uma feiticeira que o transformara em gato.
– Não existem feiticeiras. – respondeu – Não mais, pelo menos. O que aconteceu foi que eu namorei uma cientista genética. Ela era genial. Tão genial que, em uma única briga feia que tivemos, foi fácil para ele me transformar…
– Como ela fez isso?
– Se eu soubesse, já estaria procurando antídoto…
– É por isso que você procura o cristal?
Olhar que ele me dirigiu indicava confusão.
– Tudo o que busco no cristal é o próprio cristal. Nada mais.
Retornamos ao silêncio. E pensar que eu quase mandei castrá-lo quando chegou à minha casa…
Acho que o Sol levantou só porque eu recém tinha conseguido dormir. O beduíno e o dromedário seguiram o seu caminho. Eu e Pantufa seguimos o nosso. Era incrível que tenhamos conseguido sobreviver tanto tempo com quase nenhuma água ou comida. Nosso descanso também tinha sido mínimo. Verdade que estávamos bastante cansados, mas ainda vivos e saudáveis. Bem mais do que se esperaria de alguém em nossas condições. E, tirando o fato de eu estar falando com animais (condição que eu me recordo de preexistir ao deserto), eu não estava sequer delirando.
Mas estava entediado. É incrível o tédio que se sente quando se caminha por três dias numa imensidão de aridez vazia.
– Como ele é? – perguntei a Pantufa, puxando assunto.
– Como o que é?
– O cristal. Como ele é?
– Não sei direito. Nem sei se tem forma de cristal. Pode ser qualquer coisa. Você mesmo disse que talvez estejamos procurando a caveira de um desafortunado ou uma ada--
Pantufa estacou, duas patas no ar e duas na areia escaldante. Seus olhos estavam arregalados.
– O que foi? Pantufa, você está bem?
– A… Acho que eu encontrei… – sua voz estava trêmula. Ele abaixou as patas que estavam no ar e levantou a pata dianteira que tinha ficado no solo. Havia a pequena ponta de algo saindo da minúscula pegada felina deixada na areia – Eu achei!
Abaxei-me e, então, fiz algo que Patufa não podia fazer: o movimento de pinça utilizando o dedo indicador e o polegar opositor. Retirei o pequeno objeto da areia.
Uma tampinha de garrafa.
– Achamos! – gritamos, juntos.
Lágrimas rolaram dos nossos olhos. Gargalhadas histéricas saíram de dentro de nós, como se nelas saíssem as aflições dos três dias no deserto. Examinamos cuidadosamente toda a superfície da tampinha de garrafa, nosso pequeno e único cristal.
– Achamos. Finalmente achamos. – eu disse, num suspiro.
– É. Vamos pra casa. – respondeu Pantufa.
Guardei o cristal num bolso da calça. Pantufa pulou no meu colo e demos meia-volta, em direção ao avião caído. Talvez ele tivesse sido magicamente consertado. Talvez não e, nesse caso, ficaríamos para sempre no deserto. Mas tudo bem: Tínhamos o cristal.
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Pantufa e o Cristal do Deserto
Assinar:
Postar comentários (Atom)
6 Demonstrações de Atenção:
Pela primeira vez vou fazer um comentário com sentido: Isso lembra a minha infância.
Eu consegui visualizar uma animação dos dois caminhando pelo deserto...xD sério!
Agora Pantufa vai ao ginecologista.
Cara, incrível como o texto fluí, a atmosfera lembra os roteiros de animação, porém tem um toque requintado e maduro nos argumentos...curti mesmo...parabéns cara!
Alisson Affonso
Sensacional! cara curti muito! e o desenho é teu?? ^^
Pantufa é um bom nome pra gato. E com toda aquela areia, vocês deveriam ter jogado tampicross com a tampinha antes de pensar em ir embora :D
Postar um comentário