As Nuvens
Capítulo I Capítulo II Capítulo III Capítulo IV Capítulo V
Eu finalmente tinha conseguido atingir as Montanhas Sagradas. Devo confessar que fiquei um tanto quanto decepcionado: as montanhas eram bastante parecidas com todas as outras. Para um lugar que ficava tão distante (mais distante do que consigo descrever), era até bastante familiar. Penso que o único elemento que tornava aquelas montanhas sagradas era a sua distância. E talvez os vinte e seis mil trezentos e noventa e um degraus necessários para chegar ao templo.
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Tinha ido até lá em busca de ajuda. Mas o aspecto abandonado do templo me desmotivou. Salões abandonados e empoeirados, construções com telhas faltando, uma coluna de um coreto estava faltando. Até portal vermelho de entrada necessitava polimento. A única coisa que parecia bem cuidada, à primeira vista, era um pequeno santuário que ficava aos fundos do templo. Dentro do santuário havia uma estranha estátua de um orangotango redigindo um texto com uma caneta de pena.
Estranho.
Voltei para o portal de entrada e olhei para o caminho que eu tinha recém percorrido. Não queria admitir, mas parecia que eu tinha ido até lá para nada. Olhei para as pedras dos degraus lá em baixo. Todos os vinte e seis mil trezentos e noventa e um degraus que eu tinha pisado eram vãos.
– Você veio até o topo da montanha para olhar para os degraus? – perguntou uma voz rouca e baixa atrás de mim.
A voz, mesmo naquele ambiente vazio, soou tão harmoniosa que não me sobressaltei. Ao contrário, levantei aos olhos e contemplei as nuvens por um bom tempo antes de perceber que aquela voz tinha saído de uma pessoa.
– Mestre Sekisusai! – gritei, voltando-me, quando finalmente percebi.
– Sou eu. – disse o homem. Ele era baixinho, e orelhudo. Usava uma bengala de madeira retorcida para apoiar-se. Em resumo: era uma versão humana de Mestre Yoda.
– O senhor é Sekisusai-Sama? Que foi expulso da Sagrada Ordem dos Blogs e agora passa os dias em retiro aqui para escrever a Obra Derradeira?
– Sim, sou eu. – respondeu ele, dando de ombros, como se não fosse nada.
Prostrei-me de rosto no chão, com as mãos esticadas. Acho que em resultado de ter assistido ao filme Os Sete Samurais antes de me colocar a caminho.
– Por favor, aceite-me como seu discípulo! – eu disse.
– Não. – ele respondeu, dando-me as costas e mancando de volta para o templo.
Eu já esperava por isso. Nunca se aceita um discípulo de primeira, claro!
– Quer dizer que vim até aqui por nada? – perguntei.
Sekisusai voltou-se:
– Observe as montanhas, as nuvens que nos cercam. Maravilhe-se com a vista e vá embora! A viagem só terá sido vã se você assim o quiser. – e voltou ao seu mancar.
– Eu não vim até aqui para ver! Vim até aqui para escrever!
– Sobre o que escreve um homem que nunca viu nada? – perguntou-me Sekisusai, parando mais uma vez para falar.
– Sobre nada!
– Isso mostra o quanto você sabe…
Dessa vez, ele não parou para falar comigo. Entrou num dos prédios do templo e fechou-se.
– Eu não vou desistir! – gritei.
Não houve resposta. Resolvi então aproveitar a vista das nuvens.
A imensidão que me cercava era… imensa? O topo da montanha estava acima das nuvens, de forma que tudo o que eu podia ver eram outras montanhas aqui e ali, cercadas pelo imenso mar de vapor. Eventualmente, as nuvens se afastavam o suficiente para que eu pudesse ver um pouco do mundo lá embaixo, causando-me até um pouco de vertigem. Observei até que as nuvens se tornassem rubras como o sangue, e até que elas e o mundo escurecessem. Foi quando Sekisusai retornou:
– Ainda está aí?
– Sim. – disse eu, sem tirar os olhos da paisagem – Eu disse que não iria desistir.
– Disse?
– Sim.
– Eu acho que não ouvi quando você disse… Bom, e quando você vai embora?
– Depois que tiver sido treinado por você.
– Humm… – Sekisusai sentou-se ao meu lado, depositou a bengala no chão – E por que você quer ser meu discípulo?
– Preciso de ajuda para escrever.
– Não. Você não precisa.
– Preciso sim! – insisti.
– Bom, eu não vou ajudá-lo. Que tal você então aproveitar a vista para se inspirar, pegar um caderno e escrever um pouco?
Tirei de minha mochila um caderno pequeno, abri-o e coloquei à minha frente.
– Você vai me ajudar a escrever? – perguntei.
– Não. – ele levantou-se – Inspire-se e escreva. Eu vou dormir. Boa noite!
E foi embora.
***
Continuei assim por dias. Não sei dizer quantos e, sendo o tempo tão relativo, não há propósito em ser preciso. Eu, a imensidão e o caderno éramos elementos imutáveis. Eu encarava a imensidão, a imensidão me encarava. Eu encarava o caderno, o caderno me encarava. Eu esperava inspiração vinda da imensidão, o caderno esperava palavras vindas da minha inspiração.
No entanto: nada.
Sekisusai me trazia comida uma vez por dia. Não me lembro o que era. Só me lembro da imensidão.
Com o tempo, percebi que um dia nunca era igual ao outro. As nuvens nunca se repetiam. Um falcão voava por entre os picos montanhosos. Percebi, quando as nuvens deixavam ver o mundo lá embaixo, que o solo mudava. Estavam fazendo uma plantação de arroz lá embaixo, foi o que eu percebi depois.
No entanto, por dias, o caderno permaneceu em branco. Não me atrevi a escrever uma linha.
***
Era noite. Só a lua e algumas estrelas no céu me iluminavam. Nem lâmpada, nem nada. Peguei a caneta, uma súbita onda de inspiração me veio. Peguei a caneta e, na penumbra, comecei a escrever. Espremia os olhos, para tentar enxergar.
“As nuvens escondiam um monstro, como jamais se viu”. Foi o que eu escrevi, mas não segui adiante. Não foi apenas inspiração que recebi. Aliás, não recebi qualquer inspiração. Percebi que a imensidão não havia feito nada. No entanto, eu era capaz de esrever no meio da noite! Eu era capaz de escrever sem ver nada! Levantei-me e corri ao templo.
– Sekisusai-sama! Sekisusai-sama! – eu gritava.
De um dos prédios, vi uma porta correr para o lado, deixando a luz de uma lamparina escapar, recortando a silhueta baixote de Sekisusai.
– Chamou? – ele perguntou, sem demonstrar qualquer emoção (talvez irritação, se muito).
– Eu descobri!
– Descobriu o quê? – perguntou ele.
– O enigma que você me propôs! “Sobre o que escreve um homem que nunca viu nada?” Foi o que você me perguntou no dia que cheguei aqui. Eu agora sei: Ele escreve sobre qualquer coisa! O ato de escrever não depende do que vemos, mas do que sentimos! O que escrevemos é o que está dentro de nós, não ao nosso redor!
Sekisusai observou-me por um longo tempo. Seu rosto demonstrando surpresa.
– Eu acertei a resposta do enigma? – eu perguntei.
Sekisusai exitou um pouco antes de responder:
– Ora… bem… Na verdade, eu não tinha proposto enigma nenhum…
– O quê? Sério?
– É… Mas tudo bem. Pode entrar.
– Quer dizer que você será meu mestre? – perguntei, explodindo de alegria.
– Se você quiser chamar assim…
Foi assim que comecei a estudar os princípios da escrita de Sekisusai, cujas lições valiosas narrarei com a maior precisão possível…
(continua…)
2 Demonstrações de Atenção:
Pelo menos ele não fez com que tu pintasse um muro ou lixasse um carro.
Curti esse. O melhor dos últimos meses.
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