quarta-feira, 2 de junho de 2010

Valverde

Ela era do tipo de pessoa que assiste a touradas apenas para ver o toureador se dar mal. Fazia questão de dizer isso, quando pediam que ela se definisse. Ninguém entendia que, para ela, isso era o suficiente. Passar pelo menos uma hora por dia na internet procurando vídeos de touradas era o mais importante. Dividia o mundo entre as pessoas que fazem isso e as pessoas que não fazem. E ela mesma se colocava, feliz, sozinha e absoluta, no primeiro grupo. Na verdade, se fosse dar uma descrição completa de si mesma, não teria conseguido fazer uma tão precisa. Ela era do tipo de pessoa que assiste a touradas apenas para ver o toureador se dar mal. E isto basta.

Afinal, não gostava de pessoas que demoravam horas falando de si, com várias características vagas e gerais que, se você observasse com bastante atenção, veria que todas as pessoas compartilham em algum grau.

Ser a única pessoa que conhecia que via touradas apenas pela schadenfreude, a única que fazia disso uma prática diária, isso era especial. Qualquer um pode gostar de jazz, Star Wars, ser vegetariano ou gótico. A identidade dela era a única realmente especial.

Um dia, assistia seus vídeos prediletos na internet. E deu de cara com um vídeo que não mostrava o fim da tourada. Isso não seria tão frustrante, não fosse o close que o vídeo dera nos olhos do toureador, e depois do touro. Aquele close mudara tudo. A luta não era mais entre um touro e um toureador. Eram o touro e o toureador. Graças ao close, ela era capaz de reconhecer o rosto dos dois: homem e animal.

Procurou mais vídeos onde aquele toureador aparecia. Descobriu seu nome. Mas não o do touro do vídeo que não terminava. Pesquisou pelo nome do toureador na internet. Encontrou diversos vídeos e algumas matérias de pequenos jornais da Espanha. Também achou páginas pessoais do toureiro (que agora conhecia como Nicolas Aguirre Valverde), descobriu hobbies, músicas favoritas e locais de nascimento.

Viu-se não mais vendo vídeos de toureiros, mas de Nicolas Valverde. Passava uma hora por dia procurando por eles.

Até que achou, um dia, o vídeo que começou tudo. Desta vez, em versão completa. Enquanto a luta entre homem e touro se aproximava do final, viu-se ela colada na cadeira, roendo as unhas, torcendo. Depois, quando perguntaram, não lembrava direito como foi, só lembra que Nicolas matava o touro. Nessa hora, ela levantou os braços e pulou de alegria.

Foi então que percebeu, com angústia, que havia torcido por um toureiro nas últimas semanas. Sentiu-se agustiada. Sentiu como se não soubesse mais quem era, como se esquecesse o próprio nome.

Pensou, demoradamente, sobre uma séria questão: será que ela ainda seria ela mesma?

Hoje em dia, há uma foto de Valverde em sua estante.

2 Demonstrações de Atenção:

Felipe Ventura Vargas disse...

Eu tenho que contar um segredo sobre o meu passado na espanha...

Xandinha disse...

Eu nunca torceria pro toureiro.