Era um daqueles dias de outono que vêm com um Sol tímido, porém amigável, após uma longa série de tempestades e dias cinzentos. Mathes e Bruna, casal daqueles que já dá pra considerar união estável, aproveitaram o dia para fazer um pouco de fotossíntese. Deitados na grama, observando as poucas nuvens brancas que se recusavam a ir embora, ficaram em silêncio, aproveitando a sensação de sentir o Sol aquecer a pele, para depois esfriar-se numa eventual e suave brisa.
Matheus virou-se para Bruna, e perebeu que ela, cenho franzido e o cabelo castanho jogado sobre a testa pelo vento, contemplave firmemente o céu. Como se lesse um tratado de filosofia em um altocumulus.
– No que você está pensando? – perguntou Matheus, despertando Bruna de sua leitura celeste.
– Humm? Ah… Bobagens… – ela respondeu. Mas seu rosto mantinha o ar concentrado.
– Fala… – insistiu Matheus, dirigindo-lhe um sorriso um tanto quanto suplicante.
– Tá… Assim, já pensou sobre o quanto a gente tenta melhorar o mundo mas, por mais que a gente tente, ele continua uma bosta? E a nossa constante inação frente a alguns sérios problemas porque, se reciclamos o lixo, achamos que fazemos o suficiente? Toda a inércia e apatia de uma vida?
– Sei…
– E se nós calculássemos isso? No Grande Extrato de Contas do Universo, nosso saldo é positivo ou negativo? Fazer o nosso melhor importa ou está tudo perdido?
– Então deveríamos fazer nada?
– Não… sei… E se nós falhamos porque somos humanos? E se a impotência é uma característica inerente à condição humana?
Matheus considerou a questão por alguns poucos segundos. Então disse:
– Mas a impotência é inerente à condição humana! Não importa se você sobrevive à gripe de hoje ou à malária de amanhã, a morte é o destino final de todos nós. E não importa se você consegue acabar com os gases do efeito estufa, parar o aquecimento global, e ainda salvar um panda para ser apreciado pelas próximas gerações; o Sol um dia vai explodir e incinerar a Terra e, mesmo que a humanidade consiga migrar para outros mundos, a entropia vai garantir que haja um tempo em que nenhuma vida possa se sustentar no Universo.
– Acho que essa é a nossa redenção. – Bruna setenciou – A entropia é o mecanismo do Universo para nos proteger de nós mesmos, de quão patéticos somos. Não importam os nossos esforços, eles são pífios, e o universo vai nos fazer o favor de que não deixar que existam testemunhas por muito tempo. Não importa se você senta e olha o circo pegar fogo, ou se você pega um extintor e tenta salvá-lo. No fim, vem um furacão e varre o circo, e não sobra o vestígio do corpo de um contorcionista, que seja.
– É… pois é… – concordou Matheus – No grande esquema das coisas, será que importa se a humanidade desaparecer do nada?
– Será que há um grande esquema das coisas? – rebateu Bruna – E, se há, será que nós fazemos parte dele? Ou nos desviamos? Nós o deturpamos, e agora não há mais volta? Como salvar a humanidade? E o que há de tão belo não humanidade para ser salva?
– Não sei…
Mais um fria brisa soprou, e o Sol se punha em um espetáculo que tingia as nuvens de vermelho. Com frio, eles se levantaram e, abraçados, caminharam de volta para casa.
Não tinham muitos amigos.
quarta-feira, 9 de junho de 2010
Altocumulus
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2 Demonstrações de Atenção:
Não... Não, acho que não.
É, pode ser.
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