quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Fim de Temporada

O cais, o cenário de meditações mais profundas que não podem ser feitas no café (principalmente depois que percebemos que os funcionários escutam tudo o que dizemos). O céu cinzento, um monumento aos japoneses, e um leão marinho chamado “Fred” que aparecia e sumia nas águas turvas da laguna. E o Miguxo, que eu pensei estar escutando (depois descobri que ele estava apenas fazendo fotossíntese).

– Sabe… – eu disse, presumindo que Miguxo soubesse – Esse foi um bom ano, eu apoertei a mão do Luis Fernando Verissimo, fui para a Europa, comprei um fedora, exercitei bastante minha escrita, não exercitei meu corpo e me tornei uma pessoa mais completa ao reunir todos os seis fragmentos de Star Wars, que eu consegui por uma pechincha na internet… e tive a chance de usar a palavra pechincha!

– Desculpa, o que, eu estava fazendo fotossíntese…

– Ah… esquece… Só tava falando que esse ano foi muito bom… se a minha vida fosse uma série de TV, seria bem sem graça porque essa temporada ia terminar sem nenhuma emoção… as coisas estão simplesmente perfeitas. E eu espero que continuem assim…

Ficamos um pouco em silêncio, enquanto Fred fazia piruetas na água.

– Eu acho que vou me mudar pra Santa Catarina… – disse o Miguxo, por fim.

– O quê? – perguntei, sem acreditar.

– Eu acho que vou me mudar pra Santa Catarina.

– Tu vais te mudar pra Santa Catarina?

– Ou talvez São Paulo…

– São Paulo? O que diabos tu vai fazer em São Paulo?

– Estudar Física na USP.

– Tu tá louco? – eu me levantei, e apontei um link que apareceu na tela da minha vida – Não lembra do meu último texto? Se tu estudar Física, o poder vai te subir à cabeça e nós vamos nos tornar inimigos mortais!

– Cara, tu sabe que os teus textos não são verdade, né?

– São sim!

– Tu não era líder de uma organização secreta no texto?

– Cala a boca. Não acredito que tu vais te mudar! Com quem eu vou tomar café?

E então, como que surgindo do nada, apareceu um antigo amigo para responder:

– Comigo! – gritou Gustavo Lorea Souza.

– GLS, o que você está fazendo aqui? – perguntei, surpreso – Pensei que eu tinha te abandonado num prédio estremamente alto!

– Venha comigo, André! – ele disse – Junte-se ao reino perfeito das ficções! Foi um erro você ter saído da Veneza Imaginária e voltado para o mundo real! Você vê agora o tipo de amigos que você tem no mundo real! Eles te abandonam em troca de saber científico e satisfação dos sonhos! Fabian te abandonou por causa que precisava voltar para a Alemanha! A Helena abandonou a tudo e a todos por cãezinhos fofos! Só as ficções permanecem!

– Cara, nada a ver. – disse o Miguxo, calmamente, como se nada estivesse em debate – Nós também somos fictícios, e, por isso, fomos até exterminados.

– Mas ele tem um bom ponto. – eu ponderei – O mundo fictício apresenta uma série de vantagens.

– Venha comigo, André! – insistiu Gustavo – O mundo fictício é muito bacana! As pessoas ainda dizem bacana, né? É tão bacana que… – pausa dramática – eu conheço Natalie Portman!

Aquilo, definitivamente, chamou a minha atenção.

– Natalie Portman?

– Precisamente! Ela disse que está muito interessada em conhecê-lo. Mas você precisa vir logo, ela não vai esperar para sempre.

Deis alguns passos em direção a Gustavo. Miguxo, ainda sem se levantar, protestou enfaticamente:

– Cara, não vale a pena.

– Cara, é Natalie Portman! – eu gritei – A única mulher no mundo que pode ter todo o cabelo raspado e mesmo assim continuar linda! O que o mundo real tem a me oferecer? O que me prende aqui?

– Suas obrigações! – gritou uma garota que veio em nossa direção. Sabia que eu a reconhecia de algum lugar, mas não sabia de onde. Ela parou bem na minha frente.

– Quem é você? – perguntou Gustavo.

– Você não se meta nisso! – ela gritou e então voltou-se para mim – André, eu estou grávida.

– Tá, beleza… – eu disse, dando de ombros.

– E você é o pai!

Quando ela disse isso, percebi que talvez eu devesse lembrar de onde eu a conhecia. Forcei minha memória, sem sucesso.

– E você é…?

– Nós nos conhecemos na praia um dia… quando um meteorito atingiu a praia…

– Ah! Você é ela! – exclamei, aliviado por finalmente lembrar quem ela era, foi então que eu percebi detalhes importantes – Mas… nós não fizemos nada… e nós morremos!

– Não me culpe, é a sua ficção! – ela respondeu.

– Espera, tu tá tentando convencer ele a ficar no mundo real pra cuidar do filho ficcional de vocês? – o Miguxo perguntou.

– Você nem deveria estar aqui, você está morta! – protestou Gustavo, feliz por estar vivo.

– Falando nisso… – gritou outra voz vindo de um lugar desconhecido, (malditos personagens que surgem do nada!) uma voz que eu esperava não ouvir mais.

– Newman! – gritei, depois corrigi – Valquíria!

“Fred” pulou para fora da água, e se juntou a nós. E então mudou de forma. Valquíria estava disfarçada de leão marinho todo aquele tempo!

– O que você fez com o Fred? – perguntou o Miguxo, finalmente demonstrando alguma emoção.

– Fred está… – pausa dramática e música de suspense – ocupado. André Darsie de Oliveira, você está preso!

– Eu? Por quê?

– Pelo assassinato de bilhões de personagens fictícios. Você jogou um meteoro na Terra e destruiu toda a vida que nela havia!

– Eu só fiz o que Roland Emmerich não teve coragem de fazer! – protestei, enquanto agentes da Sagrada Ordem dos Blogs surgidos do nada me algemavam – Vocês não podem me prender! Eu tenho um filho bastardo fictício!

– Sobre isso… – Valquíria trazia aquele seu odioso sorriso no rosto – o filho não é seu!

– Você mentiu para mim! – gritei para a garota fictícia sem nome com a qual eu pensava ter tido um caso fictício – Quem é o pai dessa criança afinal?

Eu sou! – veio uma voz de outro personagem surgido do nada, uma voz que eu ainda não conhecia.

– Fred! – gritamos todos em uníssono.

Fred, o leão marinho, estava em pé, apontando uma arma para Valquíria, com um olhar assassino em seu rosto.

– Isso mesmo! – disse Fred – Eu sou o verdadeiro pai da criança!

– Nossa! Isso é… nojento… – ponderei.

– Como você escapou? – gritou Valquíria, enraivecida, sacando sua pistola e apontando-a para Fred.

– Não importa. O que importa é que eu trouxe ajuda!

A música de fundo subiu, aumentando o suspense da cena. Mas ninguém fez uma entrada triunfal. Ao invés disso, o Andrade apareceu caminhando calmamente e se juntando à roda de personagens pitorescos. Entradas triunfais não fazem o jeito dele. Ele sentou-se ao lado do Miguxo, disse “e aí, cara”, tirou de dentro do casaco preto uma garrafinha de uísque, bebeu um gole, guardou a garrafa novamente e fiicou em silêncio.

– Andrade? – eu gritei, mais para quebrar o silêncio do que para qualquer coisa.

– Isso mesmo, cara. – ele disse – Achou que eu só servia pra não saber se te atacava, pra perguntar do que era feito o caqui e pra me emocionar ao ganhar chaveiros? Pois eu agora vou ser o teu advogado de defesa no caso dos assassinatos dos personagens fictícios.

Olhei para Fred, incrédulo:

– É essa a ajuda que tu trouxe? Advocacia?

– Cara, se tu não queres, eu posso ir embora. – disse o Andrade, levantando-se e indo embora.

– Você não deveria tê-lo dispensado! – gritou a Thais, que surgiu do nada, com o meu eu do futuro, numa máquina do tempo – Eu quero o meu dinheiro pela imagem que você usou para o selo biografia!

– Eu não tive nada a ver com isso! – disse o meu eu do futuro.

– Chega! – gritou Fred – Ninguém vai processar ou prender o André!

– É o que veremos! – disse Valquíria.

– Só por cima do meu cadáver! – Fred desafiou.

– Como queira! – e Valquíria disparou sua arma.

– Não! – gritou Gustavo, atirando-se no caminho da bala.

O corpo de Gustavo caiu no chão com um baque seco. Mas ele ainda estava vivo, embora sangue vertesse de seu peito.

– Veja o que você fez! – gritou Fred – Você matou um personagem fictício!

– Não venha me acusar! – defendeu-se Valquíria – Nós todos sabemos que esse é apenas mais um assassinato na longa lista de crimes fictícios cometidos por André Darsie de Oliveira.

A garota fictícia para a qual não posso me dar ao trabalho de criar um nome abaixou-se ao lado de Gustavo, colocando a cabeça dele no seu colo.

– Eu… o… salvei? – perguntou Gustavo, com dificuldade de manter a sua respiração.

– Salvou. – disse a garota, com lágrimas nos olhos – Fred ainda está vivo.

– Ótimo… – Gustavo fez uma expressão de dor – Ele… vai… derrotar… Valquíria…

– Não fale. – disse a garota – Salve suas forças.

– Eu… vou morrer… eu… eu sei. – ele respondeu – Mas… está… tudo… bem… eu… vivi… uma… boa… vida…

– Só uma postagem, baita vida! – ironizou o Miguxo.

– Eu preciso te contar uma coisa, antes que você morra, Gustavo. – disse a garota, ela tomou ar, fechou os olhos, e disse – Você é o verdadeiro pai da criança, Gustavo, é você.

– Tu é a personagem fictícia mais vadia que eu já criei! – comentei.

Gustavo sorriu, mas logo a expressão de dor voltou ao seu rosto.

– Chame… o… nosso… filho… de… George Harrison. – disse Gustavo – Eu… não quero… que… ninguém… goste… dele…

– E se for uma menina? – perguntou a garota.

– Até… até… se for… uma menina. – e expirou.

– Chega dessa palhaçada! – protesou Fred – Miguxo, ao ataque!

– Ha! – riu-se Valquíria – O que o Miguxo pode fazer?

– Eu não sou o verdadeiro Miguxo – disse aquele-que-pensávamos-ser-o-Miguxo – Há muito tempo não sou.

E explodiu. Lançando pedaços de falso Miguxo para todos os lados. Na confunsão, algo me puxou no meio da fumaça da explosão. Quando finalmente consegui me localizar, estava junto de Fred, escondido atrás de uma lixeira. Ele retirou as minhas algemas.

– Não pensei que o Miguxo fosse capaz de explodir.

– Aquele não era o outro Miguxo, pelo menos não o Miguxo original. Nem o outro Miguxo que ficou no lugar do original e ninguém notou. Ele era um replicante criado pelo Dr. Granada.

– Giovanni Granada? – perguntei, surpreso – Pensei que ele tinha se tornado meu inimigo desde que eu contei para ele o fim da História Secreta da Segunda Guerra Mundial…

– Aquilo era uma ficção.

– Não sei mais o que é uma ficção…

– Tudo é uma grande ficção, André.

– Me sinto mal por não ter conseguido um lugar para a Alexandra nesse texto… – disse.

– Você não pode colocar todo mundo em todos os textos. – disse Fred.

– É, mas eu gostaria…

– Não seja por isso. – disse, Fred, retirando a sua cabeça que, na verdade, era uma máscara, revelando que, na verdade, ele era a Alexandra.

– Que diabos…? – perguntei.

– E não é só isso! – disse Alexandra, retirando a sua cabeça e revelando sua verdadeira identidade.

– Mark Twain?

– Isso mesmo, sou eu.

– Pensei que você estivesse morto!

– Os boatos sobre a minha morte… bom, você sabe. Escute, fui contratado pelo seu irmão gêmeo siamês. Ele sabia que Valquíria estava vindo para prendê-lo. Você precisa fugir. Vá para Porto Alegre, ou Itajaí, volte à revistaria do seu irmão!

– Mas isso seria uma repetição! Eles saberiam onde me encontrar!

– Você sabe, estamos presos à repetição. Agora vá! Corra! Vou segurar a Valquíria aqui enquanto eu puder! Vá!

Levantei-me e me preparei para correr. Mas parei.

– E quanto à Natalie Portman?

– Fica pra próxima.

– Eu não voou desistir da Natalie!

– Vá! Agora!

Foi então que começaram os tiroteios, Valquíria nos achou. Eu corri, corri como nunca corri antes, vestindo uma fantasia de galinha. Não sei de onde ela surgiu. E então subiram os créditos, e todo o suspense ficou para ser resolvido na próxima temporada, que estréia no dia 03 de Março de 2010.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Jormungand

Os helicópteros, os computadores, a equipe de pesquisa e toda a tranqueira tecnológica dificilmente seriam considerados elementos comuns de se encontrar na imensidão de sal. Mas não estávamos em busca de elementos comuns. A estranha esfera no centro de todo o arranjo dificilmente seria definida como “comun”. Uma rocha sólida, ainda fumegante, vinda de Só-Deus-Sabe-Onde, no meio de uma pequena cratera parecia desafiar qualquer explicação.

– Olhe essa cratera, – disse Svetlana, observando de fora da cratera – é muito pequena. É como se a esfera tivesse freiado antes de tocar o solo.

– Duvido que seja esse o caso. – retrucou Juan, postando-se ao lado dela – A telemetria indica leituras muita estranhas desse objeto.

– Estamos no deserto do Atacama observando uma esfera de dois metros de diâmetro vinda do espeço. – eu disse, com um pouco de mau humor – Defina “estranho”.

– Essa coisa provavelmente não veio do espaço. – Juan fez uma pausa dramática, tirou os óculos e os limpou na camisa – Mas de outro universo.

Se eu fumasse, seria a hora perfeita para retirar o cigarro da boca e atirá-lo no chão em sinal de impaciência.

– Jannic! – eu gritei, e a cabeça do agente alemão surgiu de um dos helicópteros, ele estava se protegendo do Sol, obviamente, mas isso não era desculpa para falhar em suas obrigações – Jannic, pode me dizer porque eu fiquei sabendo de procedência dessa esfera por Juan e não por você?

Jannic aproximou-se timidamente, olhou-me com o lhar mais tolo possível:

– O que quer dizer?

– Você sente o pensamento de Gaia, certo? É possível que a Terra não tenha detectado que o que temos aqui é de outro Universo?

– Não me culpe! A Terra só me disse que era algo “externo”. Não me disse de onde!

– Quer que eu acredite que a Terra não sabe a diferença entre o vizinho da casa ao lado e um imigrante ilegal?

– Eu sou um ser humano que escuta um planeta! – gritou Jannic – Você entende as dificultades de linguagem aqui? Eu não converso com ela por palavras, mas por significados!

– Ótimo! Telepata de m*rda! – voltei-me para Juan – O que mais a telemetria diz, Juan?

– O universo está se expandindo.

– A que velocidade?

– É… dífícil dizer… Não é uma explosão, como o nosso universo… está… digerindo as substâncias em volta… como se estivesse vivo…

– Digerindo?

– Sim, ele está assimilando o solo e até mesmo o ar, desconstuíndo-as em nível crômico!

– Crômico? – perguntou 3G-42.

– Ele está desmontando e remodelando quarks, transformando nosso tipo de matéria e energia no tipo de matéria e energia que existe em seu… universo…

Foi então que notamos que, no chão, a coisa não era mais uma esfera. Possuía pequenas saliências, como pequenos braços de um embrião se formando.

– André… seria possível que Jannic conseguisse se comunicar com esse universo assim como se comunica com a Terra? – perguntou Svetlana.

– O que acha, Jannic?

– Eu vou tentar.

Jannic caminhou até o universo paralelo no centro da cratera, ficou a apenas meio metro de distância dele e ficou encarando-o. Nada aconteceu, por mais que esperássemos.

– Muito bem, cancelem tudo. Vamos levar essa coisa para uma de nossas bases e analisá-la.

– Você não pode fazer isso! É impossível! – protestou Juan.

– Eu já escrevi um livro, plantei uma árvore, fui pra Europa, fui primeiro resultado em uma pesquisa do Google, tenho um chapéu Fedora e um autógrafo de Luis Fernando Verissimo! – então, tirei do meu casaco o meu exemplar de “O Opositor” e mostrei a todos, para que soubessem que eu estava falando sério – Eu posso tudo o que eu quero! Autógrafo

– Eu quis dizer que o universo vai absorver o transporte e transformar em energia para si.

– Ah… Bom… – voltei-me para a equipe que estava nos helicópteros – Entrem em contato com a base. Quero todos os especialistas em todas as áreas trabalhando nisso agora!

– Por que isso é tão importante? – perguntou Jannic, saindo da cratera.

– Bom, pra começar, isso é um universo. Já é bastante importante. Ele se comporta como um organismo vivo, o que quer dizer que é uma coisa bizarra. Eu coleciono coisas bizarras, caso não tenha percebido. Ademais, essa coisa absorve matéria de outros universos para transformar em matéria e energia para si. É universo que aprendeu como contornar a entropia! Minha teoria é que, quando acaba a energia de um universo, ele usa energia armazenada para viajar para outro. Se os universos continuam se formando constantemente, e é bem provável que sim, significa que podemos estar na frente de um universo eterno. E sei de, no mínimo, uma pessoa que adoraria colocar as mãos nisso…

Um dos membros da equipe saiu de um dos helicópteros e anunciou:

– Senhor de Oliveira, o radar detectou três helicópteros se aproximando.

– … e creio que essa pessoa está para chegar. Atenção todos! Estejam preparados! Às armas! É possível que estejamos em posse da maior fonte de energia do universo.

– Um universo como fonte de energia para outro? – perguntou Svetlana.

– Por que não? – retrucou Juan – Afinal, é o que esse mini-universo está fazendo com o nosso. E há cada coisa estranha em cada ponto da infinidade de universos por aí… devem existir milhares de universos onde pessoas como nós não passam de ficção. Onde o que estamos fazendo é absurdo.

Os três helicópteros tornaram-se visíveis entre as nuvens. Um deles trazia um container prezo por cabos. Eles se aproximavam rapidamente.

– Sei de vários universos onde a inteligência artificial do 3G-42 seria considerada absurda. – comentei.

– Mas eu só existo graças aos avanços do Dr. Granada na área da inteligência artificial. – disse o robô, sem tirar os olhos dos helicópteros.

– E é exatamente por isso que você é absurdo, 3G-42. Há mundos onde o Dr. Granada não é o vencedor de Nóbeis que conhecemos…

– Acho isso difícil de acreditar.

Os helicópteros pousaram. E homens com armas desceram. E, atrás deles, Vargas. Com seu sorriso irônico tornado horrendo pela cicatriz no lado esquerdo do rosto, causada pelo nosso último encontro.

– Oi Miguxo. – eu disse, debochando.

– Cara, não tenho tempo pra falar. Acho que tu sabes por que eu estou aqui.

– Por causa do universo.

– Lembra o que eu disse sobre o Gerador de Improbabilidade Infinita?

Eu lembro. Tu, provavelmente não.

– Eu lembro: eu disse que era só necessário bombardear matéria com luz em uma bolha temporal por um tempo que tendesse ao infinito até que se tivesse o efeito desejado.

– E espera que a diferença temporal entre nós e esse mini-universo seja suficiente?

– Eu espero que me aponte o caminho. – ele respondeu.

– Sabe? Parece que tu não lembra direito do que tu falou sobre o Gerador de Improbabilidade Infinita: Tu disse que nunca construiria um.

– Cara, isso faz anos! As pessoas mudam! – e ele apontou para a cicatriz, tentando evidenciar a mudança – Mas agora, se me der licença, tenho um universo pra levar pra casa.

– Boa sorte com isso: o universo absorve a energia e matéria que toca nele.

– Então eu só preciso não encostar nele. – E, assim, ele tirou o que parecia ser uma caneta do bolso da calça e apertou o topo, onde havia um botão. Um portal abriu-se sob o universo, engolindo-o e fechando-se logo em seguida – Tchau.

Ele virou-se para os helicópteros, caminhando calmamente na direção deles. Foi quando Svetlana resolveu agir, derrubando um dos guardas de Vargas. Os outros abriram fogo e, logo, toda a região em volta da cratera era uma região de fogo aberto. Svletana tomou três tiros de um guarda, antes que ela o alcançasse e transformasse seu crânio em uma massa disforme. Outro parou para recarregar e foi partido em dois. Svetlana não estava para brincadeiras. Foi só quando ela arremessou um dos guardas no rotor de um helicóptero que percebemos que as duas equipes tinham sido dizimadas. Felipe aplaudiu.

– Ouvi dizer que você era resistente. Pelo que soube, você já passou mais de doze horas submersa no rio Dniepre no meio do inverno… Mas acho que o próximo desafio será grande demais para você. A Operação Jormungand termina aqui, André. – Felipe pegou de novo a sua “caneta”, apertou outro botão e a porta do container abriu-se revelando uma imensa besta de metal, com cera de 4 metros de altura. No que poderia-se chamar de “testa” da máquinha, a marca do “3G” e, embaixo, o número “57”. 3G-57.3G

Eu não pude acreditar no que via, era a maior fera mecânica que eu já vira. E somente eu tinha a tecnologia e o dinheiro para produzi-la. Percebendo meu olhar incrédulo, Felipe Ventura Vargas riu-se:

– O Dr. Granada não ficou feliz em saber como terminava a História Secreta da Segunda Guerra Mundial. Quando eu o procurei, ele ficou mais do que feliz em usar o teu dinheiro e os teus laboratórios para que eu te destruísse. Agora preciso ir. Tchau.

Felipe entrou no helicóptero  bem na hora em que a besta pulou sobre Svletana. Enquanto ele partia, abrimos fogo contra 3G-57. Nem mesmo Svetlana conseguia se libertar das garras do monstro. Ela se debatia, e pedaços de metal voaram por vários lados, mas 3G-57 continuava a atacá-la. 3G-42 tentou atacar o seu “irmão”, mas 57 era muito mais poderoso. 42 foi reduzido a uma pilha de lixo compacto.

Um dos membros da equipe disparou um míssel nas costas da máquina, após o grande estrondo, a fera caiu.

– Jannic, Juan! Tirem Svetlana de lá! – ordenei. Eles correram para a pilha de metal retorcido. Eu voltei-me para o homem que atirou o míssel – Você, entre em contado com a central! Se o Dr. Giovanni Guadagnini Granada estiver em qualquer uma de nossas bases, quero que ele seja detido! – Juan gritou avisando que Svetlana estava viva, ainda que inconsciente – E peça uma equipe médica aqui, agora!

Juan e Jannic vieram trazendo Svetlana para o helicóptero. Após colocá-la ao abrigo do sol, Juan virou-se para mim:

– Qual ruim é a nossa situação?

– Muito. Dr. Vargas tem, agora, a única coisa no univeros capaz de ajudá-lo a construir um Gerador de Improbabilidade Infinita. E, uma vez que ele construa o Gerador, ele vai usá-lo para reorganizar o universo.

– E que tipo de universo vamos ter?

– Para começo de conversa, um no qual eu não tenho o poder para impedí-lo.