O cais, o cenário de meditações mais profundas que não podem ser feitas no café (principalmente depois que percebemos que os funcionários escutam tudo o que dizemos). O céu cinzento, um monumento aos japoneses, e um leão marinho chamado “Fred” que aparecia e sumia nas águas turvas da laguna. E o Miguxo, que eu pensei estar escutando (depois descobri que ele estava apenas fazendo fotossíntese).
– Sabe… – eu disse, presumindo que Miguxo soubesse – Esse foi um bom ano, eu apoertei a mão do Luis Fernando Verissimo, fui para a Europa, comprei um fedora, exercitei bastante minha escrita, não exercitei meu corpo e me tornei uma pessoa mais completa ao reunir todos os seis fragmentos de Star Wars, que eu consegui por uma pechincha na internet… e tive a chance de usar a palavra pechincha!
– Desculpa, o que, eu estava fazendo fotossíntese…
– Ah… esquece… Só tava falando que esse ano foi muito bom… se a minha vida fosse uma série de TV, seria bem sem graça porque essa temporada ia terminar sem nenhuma emoção… as coisas estão simplesmente perfeitas. E eu espero que continuem assim…
Ficamos um pouco em silêncio, enquanto Fred fazia piruetas na água.
– Eu acho que vou me mudar pra Santa Catarina… – disse o Miguxo, por fim.
– O quê? – perguntei, sem acreditar.
– Eu acho que vou me mudar pra Santa Catarina.
– Tu vais te mudar pra Santa Catarina?
– Ou talvez São Paulo…
– São Paulo? O que diabos tu vai fazer em São Paulo?
– Estudar Física na USP.
– Tu tá louco? – eu me levantei, e apontei um link que apareceu na tela da minha vida – Não lembra do meu último texto? Se tu estudar Física, o poder vai te subir à cabeça e nós vamos nos tornar inimigos mortais!
– Cara, tu sabe que os teus textos não são verdade, né?
– São sim!
– Tu não era líder de uma organização secreta no texto?
– Cala a boca. Não acredito que tu vais te mudar! Com quem eu vou tomar café?
E então, como que surgindo do nada, apareceu um antigo amigo para responder:
– Comigo! – gritou Gustavo Lorea Souza.
– GLS, o que você está fazendo aqui? – perguntei, surpreso – Pensei que eu tinha te abandonado num prédio estremamente alto!
– Venha comigo, André! – ele disse – Junte-se ao reino perfeito das ficções! Foi um erro você ter saído da Veneza Imaginária e voltado para o mundo real! Você vê agora o tipo de amigos que você tem no mundo real! Eles te abandonam em troca de saber científico e satisfação dos sonhos! Fabian te abandonou por causa que precisava voltar para a Alemanha! A Helena abandonou a tudo e a todos por cãezinhos fofos! Só as ficções permanecem!
– Cara, nada a ver. – disse o Miguxo, calmamente, como se nada estivesse em debate – Nós também somos fictícios, e, por isso, fomos até exterminados.
– Mas ele tem um bom ponto. – eu ponderei – O mundo fictício apresenta uma série de vantagens.
– Venha comigo, André! – insistiu Gustavo – O mundo fictício é muito bacana! As pessoas ainda dizem bacana, né? É tão bacana que… – pausa dramática – eu conheço Natalie Portman!
Aquilo, definitivamente, chamou a minha atenção.
– Natalie Portman?
– Precisamente! Ela disse que está muito interessada em conhecê-lo. Mas você precisa vir logo, ela não vai esperar para sempre.
Deis alguns passos em direção a Gustavo. Miguxo, ainda sem se levantar, protestou enfaticamente:
– Cara, não vale a pena.
– Cara, é Natalie Portman! – eu gritei – A única mulher no mundo que pode ter todo o cabelo raspado e mesmo assim continuar linda! O que o mundo real tem a me oferecer? O que me prende aqui?
– Suas obrigações! – gritou uma garota que veio em nossa direção. Sabia que eu a reconhecia de algum lugar, mas não sabia de onde. Ela parou bem na minha frente.
– Quem é você? – perguntou Gustavo.
– Você não se meta nisso! – ela gritou e então voltou-se para mim – André, eu estou grávida.
– Tá, beleza… – eu disse, dando de ombros.
– E você é o pai!
Quando ela disse isso, percebi que talvez eu devesse lembrar de onde eu a conhecia. Forcei minha memória, sem sucesso.
– E você é…?
– Nós nos conhecemos na praia um dia… quando um meteorito atingiu a praia…
– Ah! Você é ela! – exclamei, aliviado por finalmente lembrar quem ela era, foi então que eu percebi detalhes importantes – Mas… nós não fizemos nada… e nós morremos!
– Não me culpe, é a sua ficção! – ela respondeu.
– Espera, tu tá tentando convencer ele a ficar no mundo real pra cuidar do filho ficcional de vocês? – o Miguxo perguntou.
– Você nem deveria estar aqui, você está morta! – protestou Gustavo, feliz por estar vivo.
– Falando nisso… – gritou outra voz vindo de um lugar desconhecido, (malditos personagens que surgem do nada!) uma voz que eu esperava não ouvir mais.
– Newman! – gritei, depois corrigi – Valquíria!
“Fred” pulou para fora da água, e se juntou a nós. E então mudou de forma. Valquíria estava disfarçada de leão marinho todo aquele tempo!
– O que você fez com o Fred? – perguntou o Miguxo, finalmente demonstrando alguma emoção.
– Fred está… – pausa dramática e música de suspense – ocupado. André Darsie de Oliveira, você está preso!
– Eu? Por quê?
– Pelo assassinato de bilhões de personagens fictícios. Você jogou um meteoro na Terra e destruiu toda a vida que nela havia!
– Eu só fiz o que Roland Emmerich não teve coragem de fazer! – protestei, enquanto agentes da Sagrada Ordem dos Blogs surgidos do nada me algemavam – Vocês não podem me prender! Eu tenho um filho bastardo fictício!
– Sobre isso… – Valquíria trazia aquele seu odioso sorriso no rosto – o filho não é seu!
– Você mentiu para mim! – gritei para a garota fictícia sem nome com a qual eu pensava ter tido um caso fictício – Quem é o pai dessa criança afinal?
– Eu sou! – veio uma voz de outro personagem surgido do nada, uma voz que eu ainda não conhecia.
– Fred! – gritamos todos em uníssono.
Fred, o leão marinho, estava em pé, apontando uma arma para Valquíria, com um olhar assassino em seu rosto.
– Isso mesmo! – disse Fred – Eu sou o verdadeiro pai da criança!
– Nossa! Isso é… nojento… – ponderei.
– Como você escapou? – gritou Valquíria, enraivecida, sacando sua pistola e apontando-a para Fred.
– Não importa. O que importa é que eu trouxe ajuda!
A música de fundo subiu, aumentando o suspense da cena. Mas ninguém fez uma entrada triunfal. Ao invés disso, o Andrade apareceu caminhando calmamente e se juntando à roda de personagens pitorescos. Entradas triunfais não fazem o jeito dele. Ele sentou-se ao lado do Miguxo, disse “e aí, cara”, tirou de dentro do casaco preto uma garrafinha de uísque, bebeu um gole, guardou a garrafa novamente e fiicou em silêncio.
– Andrade? – eu gritei, mais para quebrar o silêncio do que para qualquer coisa.
– Isso mesmo, cara. – ele disse – Achou que eu só servia pra não saber se te atacava, pra perguntar do que era feito o caqui e pra me emocionar ao ganhar chaveiros? Pois eu agora vou ser o teu advogado de defesa no caso dos assassinatos dos personagens fictícios.
Olhei para Fred, incrédulo:
– É essa a ajuda que tu trouxe? Advocacia?
– Cara, se tu não queres, eu posso ir embora. – disse o Andrade, levantando-se e indo embora.
– Você não deveria tê-lo dispensado! – gritou a Thais, que surgiu do nada, com o meu eu do futuro, numa máquina do tempo – Eu quero o meu dinheiro pela imagem que você usou para o selo biografia!
– Eu não tive nada a ver com isso! – disse o meu eu do futuro.
– Chega! – gritou Fred – Ninguém vai processar ou prender o André!
– É o que veremos! – disse Valquíria.
– Só por cima do meu cadáver! – Fred desafiou.
– Como queira! – e Valquíria disparou sua arma.
– Não! – gritou Gustavo, atirando-se no caminho da bala.
O corpo de Gustavo caiu no chão com um baque seco. Mas ele ainda estava vivo, embora sangue vertesse de seu peito.
– Veja o que você fez! – gritou Fred – Você matou um personagem fictício!
– Não venha me acusar! – defendeu-se Valquíria – Nós todos sabemos que esse é apenas mais um assassinato na longa lista de crimes fictícios cometidos por André Darsie de Oliveira.
A garota fictícia para a qual não posso me dar ao trabalho de criar um nome abaixou-se ao lado de Gustavo, colocando a cabeça dele no seu colo.
– Eu… o… salvei? – perguntou Gustavo, com dificuldade de manter a sua respiração.
– Salvou. – disse a garota, com lágrimas nos olhos – Fred ainda está vivo.
– Ótimo… – Gustavo fez uma expressão de dor – Ele… vai… derrotar… Valquíria…
– Não fale. – disse a garota – Salve suas forças.
– Eu… vou morrer… eu… eu sei. – ele respondeu – Mas… está… tudo… bem… eu… vivi… uma… boa… vida…
– Só uma postagem, baita vida! – ironizou o Miguxo.
– Eu preciso te contar uma coisa, antes que você morra, Gustavo. – disse a garota, ela tomou ar, fechou os olhos, e disse – Você é o verdadeiro pai da criança, Gustavo, é você.
– Tu é a personagem fictícia mais vadia que eu já criei! – comentei.
Gustavo sorriu, mas logo a expressão de dor voltou ao seu rosto.
– Chame… o… nosso… filho… de… George Harrison. – disse Gustavo – Eu… não quero… que… ninguém… goste… dele…
– E se for uma menina? – perguntou a garota.
– Até… até… se for… uma menina. – e expirou.
– Chega dessa palhaçada! – protesou Fred – Miguxo, ao ataque!
– Ha! – riu-se Valquíria – O que o Miguxo pode fazer?
– Eu não sou o verdadeiro Miguxo – disse aquele-que-pensávamos-ser-o-Miguxo – Há muito tempo não sou.
E explodiu. Lançando pedaços de falso Miguxo para todos os lados. Na confunsão, algo me puxou no meio da fumaça da explosão. Quando finalmente consegui me localizar, estava junto de Fred, escondido atrás de uma lixeira. Ele retirou as minhas algemas.
– Não pensei que o Miguxo fosse capaz de explodir.
– Aquele não era o outro Miguxo, pelo menos não o Miguxo original. Nem o outro Miguxo que ficou no lugar do original e ninguém notou. Ele era um replicante criado pelo Dr. Granada.
– Giovanni Granada? – perguntei, surpreso – Pensei que ele tinha se tornado meu inimigo desde que eu contei para ele o fim da História Secreta da Segunda Guerra Mundial…
– Aquilo era uma ficção.
– Não sei mais o que é uma ficção…
– Tudo é uma grande ficção, André.
– Me sinto mal por não ter conseguido um lugar para a Alexandra nesse texto… – disse.
– Você não pode colocar todo mundo em todos os textos. – disse Fred.
– É, mas eu gostaria…
– Não seja por isso. – disse, Fred, retirando a sua cabeça que, na verdade, era uma máscara, revelando que, na verdade, ele era a Alexandra.
– Que diabos…? – perguntei.
– E não é só isso! – disse Alexandra, retirando a sua cabeça e revelando sua verdadeira identidade.
– Mark Twain?
– Isso mesmo, sou eu.
– Pensei que você estivesse morto!
– Os boatos sobre a minha morte… bom, você sabe. Escute, fui contratado pelo seu irmão gêmeo siamês. Ele sabia que Valquíria estava vindo para prendê-lo. Você precisa fugir. Vá para Porto Alegre, ou Itajaí, volte à revistaria do seu irmão!
– Mas isso seria uma repetição! Eles saberiam onde me encontrar!
– Você sabe, estamos presos à repetição. Agora vá! Corra! Vou segurar a Valquíria aqui enquanto eu puder! Vá!
Levantei-me e me preparei para correr. Mas parei.
– E quanto à Natalie Portman?
– Fica pra próxima.
– Eu não voou desistir da Natalie!
– Vá! Agora!
Foi então que começaram os tiroteios, Valquíria nos achou. Eu corri, corri como nunca corri antes, vestindo uma fantasia de galinha. Não sei de onde ela surgiu. E então subiram os créditos, e todo o suspense ficou para ser resolvido na próxima temporada, que estréia no dia 03 de Março de 2010.