terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Retrospectiva Básica

Em 2011, eu aprendi muito sobre mim mesmo.

 

 

 

Foi horrível.

 

 

[A Borda Do Mundo retorna dia nove de março de 2012]

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Pra não dizer que não postei flores…

Foi no fim da tarde que a Carol resolveu colocar tudo pra fora:

– Eu me sinto muito confusa. – disse ela, do nada.

A Viviana, que estava quase dormindo no ônibus, conseguiu juntar toda a sua eloqüência e dizer:

– Uh?

–  Eu me sinto muito confusa. – repetiu a Carol.

–  Como assim?

A Carol colocou a mão no queixo, tentando traduzir seus sentimentos em palavras.

– Às vezes… eu sinto coisas estranhas… coisas que eu acho que ninguém sentiu antes… Sabe? Sentimentos que não deve existir nem uma palavra em alemão pra descrever…

– Tipo schadenfreude?

E então a Carol relaxou os ombros e recostou-se no banco:

–  Ah, então existe uma palavra em alemão para o que eu estou sentindo…

domingo, 27 de novembro de 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

O Roteiro de Viagem de Pantufa

Era uma noite quente, desconcertantemente quente. Quando o calor pesa como o bafo de algum predador qualquer, segundos antes de lhe morder a garganta em um golpe de misericórdia. Querendo esquecer um pouco do tigre imaginário sobre nossas cabeças, eu e Pantufa resolvemos caminhar pela cidade. As ruas estavam quietas e escuras, com eventuais ilhas de luz quando os postes resolviam funcionar, exalavam calor do asfalto, sons de vida humana vinham abafados de dentro de todos os prédios ao redor. Tudo era tranqüilo. Tanqüilo demais.

– Sabe… – disse Pantufa, que jamais deixou uma caminhada longa ser um silêncio longo – acho que nós deveríamos viajar!

– Viajar? Viajar pra onde?

– Não sei… qualquer lugar que você queira. O que você quer fazer?

– Agora? Eu só quero encontrar uma sorveteria aberta e escapar um pouco desse calor.

Pantufa parou e olhou pra mim com o olhar de desaprovação que só gatos são capazes de dar:

– Você sonha pequeno.

– Tá bom, Mestre dos Grandes Planos… Pra onde você quer ir?

– Bom… há vários lugares…

– Tenha em mente que nós não temos dinheiro…

– Bom, isso não vai ser um grande problema. Podemos… ir até o Mosteiro de Santo Icabode…

– Santo Icabode? Nunca ouvi falar!

– É uma ordem secreta de monges na serra que encontrou um anjo ferido. O anjo revelou a eles vários dos segredos de Deus e foi renegado do Paraíso. O anjo mudou o nome para Icabode e hoje criou sua própria religião… é um lugar interessante pra visitar e não precisa de muito dinheiro…

– Sei… – pensei um pouco sobre aquilo, conhecer um anjo caído por ter feito fofoca divina não me parecia um roteiro turístico dos mais promissores – E o que mais você sugere?

– Tem um lago, mas isso é mais longe, que possui um peixe que rouba a memória de todos os outros peixes do mundo, desde que surgiu o primeiro peixe! Ele não esquece nada, nunca! Qualquer evento que tenha sido testemunhado por um peixe, ele se lembra. É só perguntar!

– Hummm… Memória de peixe?

– Que tal o Cartório Secreto? É um lugar que registra o seu verdadeiro nome!

– Meu verdadeiro nome?

– É… Não o nome que te deram! Mas o seu nome de verdade!

– E qual é o teu?

Pantufa arregalou os olhos frente à minha pergunta.

– Você acha que eu vou contar assim tão fácil? Nem pensar! Mas é muito interessante saber o seu verdadeiro nome… Que tal?

Entrei na brincadeira e respondi:

– Acho melhor não… Sabe vai que… – e parei de falar ao notar que um casal cruzava por nós na rua. Pensei quantas pessoas não teriam passado por mim e me visto falando com o gato sem que eu percebesse. Mas o casal não parecia interessado em nós tanto quanto estavam interessados um no outro e logo saíram do raio de alcance da minha voz – Vai que eu descubro que meu nome é "Tobias” ou algo assim… melhor não.

– Você que sabe…

Estávamos passando por uma praça, onde algumas árvores altas e antigas dividiam espaço com postes altos e novos. Elas produziam sombra abundante quando estava muito claro e eles produziam iluminação abundante quando estava muito escuro. Uma convivência pacífica em que cada um cumpria seu papel para um mundo melhor. O ar parecia especialmente quente naquela área iluminada. De uma árvore particularmente antiga, de galhos abundantes e caídos, pude ouvir um choro abafado. Olhei em direção à árvore e vi que muitas das folhas estavam caindo, apesar de não ser outono. Os galhos mortos e ressequidos concentravam-se num dos lados da árvore.

– Olha só isso! – gritei, espantado.

No centro dos galhos mortos, do tamanho de um cachorro de porte médio, uma aranha tecia sua teia. Não apenas uma teia gigante para caçar (e, aliás, acho que ela seria capaz de capturar pombos naquela teia), mas também, em um amontoado de galhos, uma teia de ovos. Um calafrio subiu pela minha espinha quando imaginei aqueles ovos eclodindo e aranhas do tamanho de ratos saindo apressadas pela cidade.

– De onde veio essa aranha? – perguntei, sem esperar que Pantufa me respondesse.

– Ela vive aqui há tempos… – disse uma voz baixa e melancólica – veio carregada pelo vento… se instalou aqui e decidiu que seria tão grande que vento nenhum a carregaria para qualquer outro lugar…

Tentei assimilar tudo aquilo o mais rápido possível. Não tanto a história da aranha, mas a voz me intrigava. Depois de um tempo, consegui entender.

– Pantufa…

– Ahn? – perguntou ele, que estava distraído olhando a aranha-monstro fiando sua teia.

– … acho que a árvore falou comigo.

– Ela faz isso às vezes. É a única árvore daqui que fala.

– A árvore… tá falando! – repeti, para confirmar que estávamos falando da mesma coisa.

– É, eu já entendi.

– Você que parece não estar entendendo. – disse a árvore.

– Desculpe é que… eu não sabia que as árvores falavam… – após falar isso, peguei-me pensando se eu não acabara de fazer um comentário preconceituoso.

– A maioria não fala. – disse a árvore – Aliás, não conheço outra que fale.

– Porque só você fala?

– Não sei. Por que só você e seu gato me escutam? Talvez eu fale pelo mesmo motivo que tenho uma aranha gigante se alimentando de mim: as circunstâncias cooperaram para que isso acontecesse.

– A aranha está se alimentando de você? – perguntou Pantufa – Isso é horrível!

– Para ficar tão grande, ela começou se alimentando de mim. E as filhas dela farão isso. Agora ela também se alimenta do que cai em sua teia, mas eu sou o prato principal. Minha seiva a faz crescer. Ela me mata aos poucos para continuar vivendo.

– Eu… eu sinto muito. – balbuciei.

– Mate a aranha, por favor? – pediu a árvore. Senti muita pena dela. Olhei para a aranha-monstro e senti muito medo dela. Meu medo venceu. Mas senti um aperto no coração.

– Como vamos matar a aranha? – perguntou Pantufa, que aparentemente já estava habituado a receber pedidos de árvores – Ela é muito grande. Se subirmos em seus galhos, ela vai nos picar antes que a alcancemos.

– É verdade… – admitiu a árvore – Mas, por favor, encontrem um meio! Meus galhos doem a cada mordida que ela me dá! Ela não está apenas comendo minha seiva, está colocando seu veneno em mim a cada mordida…

– Vamos pensar num plano, não se preocupe! Nós voltaremos para matar a aranha! – disse Pantufa. E virou-se para nossa direção original – Vamos tomar sorvete?

Hesitante, retomei minha caminha com ele, sem tirar os meus olhos da aranha-monstro até que estivéssemos bem distantes dela. A criatura me provocava arrepios. Não por ser uma aranha, mas por seu tamanho descomunal. E, também, por sua maldade de se alimentar aos poucos da árvore que lhe fornecia abrigo.

Encontramos algum tempo depois uma sorveteria aberta. Pantufa ficou do lado de fora enquanto eu recebia olhares estranhos ao sair sozinho com dois sorvetes na mão. Encontramos uma calçada vazia onde eu me sentei e tomava o meu sorvete enquanto segurava o de Pantufa para que ele tomasse o dele. Então, depois de ter ficado quieto todo o tempo depois do nosso encontro com a árvore, consegui falar:

– Você acha isso normal?

– O quê? Misturar sorvete de limão com sorvete de doce de leite?

– Não! A árvore falante.

– Sim. Já ouvi falar de árvores falantes antes…

– Mas… você ouviu isso em histórias! Lendas! Não… na vida real…

– Bom… a última vez que eu ouvi falar de uma árvore falante foi de um pescador que encontrei certa vez bêbado num porto… Ele disse que tinha brigado com seu barco… era um barco falante que seu pai tinha feito de uma árvore falante… Os dois brigaram e o barco saiu navegando sozinho…

– Espera um pouco… todas essas histórias que você conta são… verdade? – perguntei, pasmo.

– Sim, claro. Você não acreditava?

– O mosteiro do anjo caído, o peixe que lembra de tudo… essas coisas existem?

– Claro que existem! Eu estive lá. O mundo é mundo mais estranho e impressionante do que você conhece ou imagina. É o que eu quero te mostrar. Mas você insiste em ficar aqui… como uma aranha que se fixa em uma árvore para não ser carregada pelo vento…

– De onde você conhece essas coisas? Todos os gatos são assim?

– Não! Eu sou… um gato especial… Olha, eu já vi coisas, muitas coisas. Algumas eram maravilhosas, outras eram horríveis e assustadoras. Mas todas elas fazem parte desse mundo e acho triste que tantas pessoas vivam sem conhecê-las.

– Muito bem eu… o sorvete está escorrendo pelos meus dedos! – gritei, e Pantufa logo pôs-se a lamber meus dedos com a língua áspera. Tomei um pouco do meu sorvete e recomecei – Onde você quer ir?

Pantufa pensou na questão enquanto lambia um pouco do sorvete que tinha manchado seu focinho.

– Pessoalmente, eu acho o peixe um cara muito divertido…

– Não tem nenhum desses lugares fantásticos que você ainda não conheça?

– Olha… falam de um cristal… que fica num deserto, escondido. É um cristal maravilhoso e existe desde que o deserto existe. Quem tem o cristal, tem o deserto. É o mais maravilhoso da Terra. Eu sempre quis ver esse cristal.

Pensei um pouco na proposta.

– Um deserto? Onde fica esse deserto?

– Isso eu posso verificar. Mas isso realmente importa? Eu só quero achar o cristal. E quero que alguém vá comigo. E quero que seja você. Os detalhes, a gente resolve. Nenhum lugar do mundo é realmente inacessível.

– Muito bem, Pantufa… Se você diz que o mundo é assim, o mundo é assim. Vamos achar esse cristal!

Pantufa começou a ronronar. Terminamos nossos sorvetes. E, enquanto eu estava sentado naquela calçada, no meio daquela noite quente e estranha na qual eu começava a perceber a estranheza na qual eu estava me metendo, foi que eu o vi pela primeira vez.

Estava dentro de um ônibus, que parou do outro lado da rua para que alguém descesse. Ele estava sentado à janela e olhava fixamente para mim: O homem-mosca. Chamo-o assim porque tinha corpo de homem, mas duvido que houvesse qualquer coisa de humana naquela criatura. Causou-me enjôo a simples visão dele e a sensação de estar frente a um cadáver coberto de larvas e moscas, alimentando-se da carne morta e profanando a solenidade da morte. O homem-mosca olha fixamente para mim. E só eu parecia notá-lo. Nenhuma das outras pessoas dentro do ônibus parecia se incomodar com aquele monstro. O ônibus foi embora, e eu recuberei aos poucos a minha mente. Desejei nunca mais ver o homem-mosca. Mas, é claro, há desejo que o Universo se nega a nos conceder.

Nos levantamos e fomos embora. Pedi a Pantufa para que não passássemos pela árvore e pela aranha-monstro no caminho. Não naquela noite. Eu podia aceitar que o mundo era maior e mais estranho do que eu poderia imaginar. Eu podia até aceitar que eventualmente eu teria que matar aquela aranha para salvar a árvore.

Mas, naquela noite, dividir um sorvete com o meu gato já era estranheza suficiente para mim.

sábado, 19 de novembro de 2011

O Sonho de Kafka

Certa manhã, após uma noite de sonhos tempestuosos, Franz Kafka acordou metamorfoseado num pequeno cãozinho. Não tinha, porém, lembrança de ter sido Franz Kafka ou jamais ter escrito A Metamorfose ou O Processo ou Carta Ao Meu Pai. De forma que não percebeu a metalinguagem… Tinha pensamentos de cão. Aliás, de cão de pouco mais de um mês. Eram poucos, vagamente articulados e geralmente referentes a “coisas a morder” e a “coisas a não morder”. As duas categorias de coisas no mundo.

Vagou pelas ruas, foi atacado por alguns cães, fez amizade com outros e achou quem o levasse pra casa. Viu-se em um mundo em que a definição de “coisas a morder” e “coisas a não morder” era feita feita por um estranho gigante bípede que também definia onde ele podia comer, dormir, fazer as necessidades e quando estava sendo barulhento demais.

Apesar de tudo, Kafka gostava do bípede. Chorava quando ele não estava lá. Mordia os pés quando ele estava. Era como mostrava afeição.

Tomava leite, comia a ração, era forçado a ingerir outras coisas que não queria através de uma seringa. Fazia um escândalo. Mas o bípede insistia em lhe fazer ingerir o estranho líquido rosa.

Um dia, à sombra de uma árvore, o bípede sentou-se e ele se colocou ao lado de sua perna e lá deitou-se, a brisa primaveril soprando sobre seu pê-lo escuro enquanto ele adormecia.

Então, em seu sono, viu a sua infância em Praga, seus desentendimentos com o pai, seu total desespero em um mundo que parecia servir apenas para esmagar o espírito humano em sua marcha inexorável rumo ao progresso. Reviu toda a vida do Franz Kafka original… até aquele quarto de hospital em 1924…

Acordou chorando, gritando, e esperneando. De volta à sua forma canina. O bípede inclinou-se e lhe fez um afago atrás da orelha. Ele parou de chorar. Tinha esquecido do sonho. Virou-se e mordeu a mão que o afagava, de brincadeira, gentilmente. Voltou a ser Kafka o cão. E nunca mais lembrou-se de ter sido Kafka, o escritor.

Aliás, uma vez devorou uma edição de bolso de O Castelo, sem perceber que estava realizando o último desejo do seu eu-humano.