terça-feira, 20 de março de 2012

Trinca

Atrasos abusivos e mudanças radicais no meu plano de postagem pro ano todo (ia começar o ano com um longo e tedioso texto que decidi que, por mais que fique bem no meu blog, fica melhor nas profundezas escuras do Esquecimento). Então, vocês têm três pequenos textos:

–  O Que Eu Fiz Nas Férias

– Cenas de Família

– Sobrevivência

 

Próximo texto sai nesse fim de semana, espero.

Sobrevivência

Ela tinha pena de cortar os galhos, mesmo que aquela não fosse a planta que ela esperava que fosse. Era para ser um pimenteiro, colocado no parapeito da janela da cozinha. Mas vieram as provas, e não houve tempo para regar as plantas. Pois todos sabem que demora muito mais para regar uma planta do que para tomar uma cervejinha com os amigos depois de uma prova particularmente difícil.

Assim, o pimenteiro morreu. As pimentas, outrora vermelhas e gordinhas, agora jaziam ressequidas e murchas na base do vaso. Mas retirar o vaso de plantas demora muito mais do que uma noite inteira vendo fotos de gatos com textos engraçadinhos na internet. Assim, o vaso ficou lá. Um dia, sem qualquer ajuda de Catlin (pois esse era o nome da garota, Catlin), começou a nascer uma trepadeira, apoiando-se no cadáver ressequido do pimenteiro. Como não era época de provas, ela teve tempo de molhar aquela plantinha nova.

Ela muitas vezes se esquecia, porém. Mas a trepadeira não se importava e, Deus sabe lá como, conseguia mesmo assim os nutrientes de que precisava para sobreviver. Comovida com a persistência da planta, Catlin decidiu deixá-la crescer. Sem poda alguma.

A trepadeira prosperou. Se espalhou por diversos cômodos. Todos os cômodos, aliás. E o apartamento logo começou a ter mais trepadeira do que mobília. Alguns amigos achavam aquilo muito legal. Outros exigiam que ela cortasse logo a planta, como se fossem eles que morassem lá. Catlin discutia com eles. Dizia que nunca a cortaria. O apartamento era dela e da trepadeira.

Mas toda noite, antes de dormir, Catlin era assombrada pelo pensamento de que seu contrato de aluguel tinha dia para acabar. E ela precisava entregar o apartamento nas condições em que o recebera.

Cenas de Família

– Ele não fez nada na vida. – disse Dona Marta.

– Ele não tinha futuro! –  completou Seu Jonas, bebendo um copo de whisky.

Era uma noite fria e chuvosa. Houve uma queda de luz e os dois decidiram acender a lareira para iluminá-los e aquecê-los ao mesmo tempo.

–  O mundo está melhor sem ele! –  Dona Marta estendeu seu copo de whisky, propondo um brinde.

–  Que seu nome seja esquecido pela História!

–  Que ele arda no inferno!

–  Um atraso para a sociedade!

–  Uma vergonha para a raça humana!

–  Maldito seja o dia em que ele veio ao mundo.

–  Bendito o dia em que ele se foi!

Eles bebiam e gargalhavam. Pareciam crianças. Crianças grisalhas de sessenta anos, mas crianças. Crianças levemente embriagadas, iluminadas de forma sinistra pelo fogo da lareira. Crianças cercadas por sombras e um mundo tempestuoso. Simples crianças.

–  As nações choram! –  gritou Seu Jonas –  Não porque ele morreu--

–  Mas pelo tempo que ele estava vivo! –  completou Dona Marta, também gritando.

–  A Pablo! O pior filho que um pai já teve!

–  Os piores dezessete anos da minha vida!

–  Vocês querem parar de imaginar o que dizer no meu funeral? –  resmungou Pablo, do outro lado da sala.

Mas eles não pararam. As pessoas precisam de um passa-tempo.

O Que Eu Fiz Nas Férias

Felizes aqueles que nunca tiveram que fazer tal coisa: Redação “O Que Eu Fiz Nas Férias”. Era a primeira coisa. Primeira tarefa do ano letivo. Depois da constrangedora apresentação, caso fosse com um professor novo. “Então, turma, falem de vocês. Digam seu nome, matéria favorita…”, depois de devidamente apresentados, a redação. Meu maior problema, sempre, é que eu raramente tinha feito algo de interessante nas férias. No entanto, apenas a título de informação, aqui está, o que eu fiz de Dezembro de 2011 a Fevereiro de 2012, em nenhuma ordem particular:

Nessas férias, eu, entre outras coisas, cantei What’s Up, do 4 Non-Blondes, tomei café, escrevi. Mais especificamente, no ramo de coisas que eu não costumo fazer em outras épocas do ano, fiz o Projeto Verão mais bem-sucedido da minha vida (começando em Outubro, dá tempo), suei feito um porco, tomei banho de mar. Cantei What’s Up no Beto Carreiro. Mais especificamente, cantei What’s Up nas montanhas-russas do Beto Carreiro! E na Torre do Terror… E na Big Tower… e nas filas pra esses brinquedos… Fiquei mais enjoado nas xícaras malucas do que em qualquer um desses…

Cuidei de crianças de cinco anos de idade… Só que tinha 22 e 20 anos de idade…

Virei o Grinch no natal, fui alvo dos foguetes de uma velha doida piromaníaca nas dunas do Cassino no Ano-Novo. Não peguei pneumonia no Ano-Novo. Não fiz novos amigos. Conheci velhos amigos. Li Coisas Frágeis, volume dois, do Neil Gaiman. Ganhei um livro do Carl Sagan, outro do Bill Bryson.

Estive com amigos.

Estive com familiares.

Fiz o melhor pesto da minha vida! E não ficou muito bom…

Fui xingado por um chef profissional por ter usado os ingredientes errados no meu pesto.

Tomei meus bons drink. Aliás, nesse verão eu decidi fazer algo diferente

Vi coisas que eu achei que seriam duradouras se desfazerem. Vi coisas que eu esperava que fossem embora garantir que ficariam…

Aprendi muito sobre braille. Esqueci tudo. Botei as fofocas em dia cazamiga.

Fui bem atendido numa filial da Croasonho. Bebi, dancei, fiz comida, não no mesmo ambiente.

Fiquei sem saber como voltar pra casa numa cidade estranha de madrugada.

Comprei um chapéu novo.

Planejei tudo sobre o blog pro ano todo. Isso se provou bastante inútil.

Recebi excelentes noticias de uns membros da família, me preocupei com a saúde de outros.

Tive que fingir não perder a calma em momentos de tensão. Acho que falhei miseravelmente, ou pelo menos destruí um molho de macarrão no processo.

Descobri que gosto de lentilha.

Descobri que eu só de smoking e samba-canção não sou a pior visão da terra. Tá, talvez isso não seja verdade.

Descobri um novo jeito de caminhar.

Comi comida árabe, comi comida japonesa, escrevi em italiano, pensei em inglês, falei em português. Me stressei com o sistema rodoviário de uma cidade inteira. Peguei um avião. Quase perdi outro.

Fiquei cinco dias sem tomar café. Cinco dias! Minha cabeça quase explodiu!

Descobri os prazeres de um gel pós-sol quando você está com a pele queimada.

Enfim, fiz coisas mundanas. E não foram as melhores férias do mundo. Em certos momentos, foram as piores. Mesmo assim, melhores que o início das aulas… E, mesmo que eu goste do blog, é sempre bom ter um tempo pra respirar…

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Retrospectiva Básica

Em 2011, eu aprendi muito sobre mim mesmo.

 

 

 

Foi horrível.

 

 

[A Borda Do Mundo retorna dia nove de março de 2012]